Em foco: Oldcat (Taciano Levi).

1- Taciano, nos fale um pouco de você, de suas preferências e gostos e se possível inclua uma foto para que possamos conhecê-lo melhor.

Nascido em 2 de julho de 1977 Taciano Levi Costa lima, canceriano convicto, apaixonado e comprometido, morei toda minha vida em Salvador mas sempre andando por aí… formado técnico em química, hoje atuo profissionalmente como Dentista, sempre pensei em ser músico mas descobri que fotografando seria mais prazeroso contar minhas idéias.

2- Como e quando um músico-químico que é dentista se interessa pela fotografia?

O químico veio primeiro, talvez por influência de meu padrinho e das possibilidades que se abririam para mim, pois iniciaria um curso técnico e a partir dele já poderia começar a trabalhar e foi o que aconteceu, aos 18 anos trabalhava no pólo petroquímico de Camaçari, durante a formação em química surgiu a necessidade da expressão artística que nesse momento viria a partir da música, comecei tocando flauta, depois o violão, guitarra, saxofone e mais recentemente tenho enveredado na percussão (cajon), a música nunca saiu completamente do meu caminho, porém, mais recentemente, (posso dizer recentemente porque acredito que ainda estou a descobrir a fotografia), um primo me apresentou a fotografia digital, confesso que nunca fui simpático aquela maquinaria e aparatagem da fotografia analógica, talvez por sentir uma dependência muito grande de terceiros(revelação, ampliação, edição…) para a finalização do processo criativo, assim fui apresentado ao mundo da fotografia digital e me encantei com a forma de poder recortar fragmentos de como eu enxergo o mundo e poder mostrá-los como eu queira. È sou dentista, e trabalho com ortodontia, assim convivo por muito tempo com as mesmas pessoas (pacientes) e na medida do possível aprendo muito com elas e sobre elas incorporando aos poucos na minha forma de ver as coisas que acontecem a minha volta.

3- Me parece que você tem uma afinidade latente com as artes como a música, através de diversos instrumentos, e mais recentemente a fotografia.
3.1- Como este seu lado, digamos, artístico, se manifesta em seu dia a dia como dentista e como seus pacientes encaram isto (se é que existe esta interação)?

Verdade, a música foi minha porta de entrada no mundo das expressões artísticas e partindo dela tudo tem o seu ritmo, procuro conduzir “minha fotografia” com o meu ritmo de acordo com o que sinto e da necessidade de fazer ou expressar.
Não sei se existe diretamente essa interação artística com o dentista, até porque ninguém gostaria de deixar seus dentes fora do ideal de beleza imposto, é uma profissão muito técnica e com pouca limitação de expressão, penso eu. Quanto a minha interação com meus clientes, é no mínimo inusitada; afinal, quantas vezes foi a um dentista de cabelos compridos, tatuado e que quer saber de sua vida? Isso muitas vezes facilita minha aproximação com os mais jovens.

3.2- Já houve casos em que seu lado ‘fotógrafo’ encontrou com o lado ‘modelo’ de seus clientes?Se sim poste algumas fotos deste suposto encontro.

Quanto ao encontro do lado fotógrafo e o lado modelo dos clientes, ainda não se encontraram, não digo que não é uma possibilidade até porque ainda tenho muitos caminhos a experimentar, mas hoje, digo que esse tipo de foto não atrai meus olhares, mesmo assim já experimentei fotografar uma modelo para sentir o resultado.

4- Mas não necessariamente a realização de fotos de seus clientes tem de ser feito no esquema de ‘modelagem’.
Muitas vezes uma simples circunstância pode render um sem números de imagens.
No próprio consultório, por exemplo.

4.1- Já pensou em retratar seus pacientes?

De certo, diversas cenas ocorrem a todo o momento dentro de um consultório odontológico, e valorizo muito estas cenas comuns que podem gerar imagens muito interessantes, existem diversos aspectos legais que envolvem o atendimento e que levariam talvez a uma burocracia inconveniente, mas não está totalmente descartada a possibilidade.

4.2- Ou, pensando pelo outro lado, já foi compelido por eles para que os fotografasse?

Nunca fui solicitado como fotógrafo pelos pacientes, mas acredito que se fosse de certo não iriam querer fotos no consultório, mas sim como disse, no esquema modelagem. O que vejo no consultório normalmente não são pessoas relaxadas e descontraídas, mesmo com uma relação agradável e simpática comigo, o ato odontológico é invasivo e por vezes desconfortável, esse aspecto sim eu gostaria de retratar já que gosto muito dos momentos casuais e inesperados, de expressões espontâneas, momentos em que as pessoas interagem com o meio, mas como disse, a exposição desses aspectos pessoais dentro de um consultório podem implicar em uma burocracia que não sei se me interessa.

” … valorizo muito estas cenas comuns que podem gerar imagens muito interessantes … “ – Taciano Levi.

5-Que tipo de fotografia, ou que gênero, lhe interessa mais Taciano?

Gosto muito de retratos, fotografias que contam histórias, que traz alguma coisa de mim nela, um pedaço meu no cotidiano dos outros, gosto muito de sair e procurar algo que me chame atenção pela rua, ou melhor, fragmentos em meio às pessoas e para isso as festas populares são um prato cheio para fotografar pessoas em situações interessantes que de alguma forma demonstram seu relacionamento com tudo o que está acontecendo. Gosto de mostrar o pedaço do mundo que eu estou vendo e como estou vendo, e por vezes, como eu queria que ele fosse, já que em determinados momentos são registrados de forma que pareça o que nem sempre é.

5.1- E neste interesse quem são as referências que você pode citar?
Inclua algumas fotos para exemplificar.

Gosto muito de muita coisa entre os clássicos, mas deixo o destaque para a discrição e o perfeito tempo de Bresson além da força e emoção de Sebastião Salgado.

Outra referencia a minha estética visual são as composições de luz e sombra de Caravaggio, mestre em mostrar e esconder o que importa. Gosto muito das sombras apesar da fotografia ser a arte da luz, sem as sombras não haveria tanto sentimento nas imagens.

6- Onde, na sua fotografia, você identifica a presença destes fotógrafos que cita como inspiração?

No ato fotográfico é muito importante para mim a percepção do momento certo para fotografar e quando possível não interagir com a cena preservando a naturalidade do momento, fotos que causem algum tipo de impacto, seja ele bom ou não, também me interessam. Então sem querer nem de perto parecer com nenhum nem outro, tento obter o time e descrição de Bresson e o impacto que Salgado impõe. Há um tempo uma amiga me relatou que havia parado de fotografar porque não sabia o que queria mostrar com suas fotos, realmente isso mexeu comigo desde então penso muito sobre cada fotografia feita e de como olhar para os momentos que surgem a frente da lente.

6.1- Que imagens suas você descreveria como sendo parte deste processo de aperfeiçoamento baseado nestas referências, e por quê?

7- Olhando seu Flickr me deparei com um conceito muito interessante na apresentação de suas imagens …

Você adiciona textos que as correlaciona, sempre com citações que vão desde textos judaicos a frases de famosos como Bob Marley ou Che Guevara, entre outros.

Destaco, segundo meu gosto pessoal, as seguintes:

http://www.flickr.com/photos/onaicat/4614226588/in/photostream

Realidade

Brilha?       Sim... Brilha Sim!!

Epifania

"Muxoxinho"

Molinho

7.1- Como se dá a criação deste dueto?
Você parte dos textos para fazer a foto ou faz a foto e busca uma referência textual para elas?

Bem, como se dá o dueto…, cada foto me transmite um sentimento, um pensamento ou uma reflexão qualquer, a partir daí busco algo que me passe a mesma idéia, ultimamente tenho encontrado em letras de músicas que melhor ainda porque posso escutar e reforçar ainda mais o que quis registrar, algumas vezes bem verdade o texto é quem gera a fotografia, fico com alguma coisa principalmente uma música na cabeça e busco algo que possa ser trabalhado, quando não é assim encontrar um escrito que exprima o que eu quero as vezes dá um trabalhinho extra, mas é prazeroso quando encontro e fecho a mensagem.

7.2- Das suas fotos, quais as que lhe deram mais prazer em serem feitas e por quê?

Dificil fazer essas escolhas, mas algumas fotos me marcaram, sabe aquela foto que você pensa como quer e ela acontece na sua frente? Pois essa é uma delas, numa tarde especial, com uma pessoa especial meninos pulando do cais no rio … perfeito!

Tenho uma predileção estampada por fotos de crianças, talvez porque elas são muito mais espontâneas e criam situações inusitadas dentro de um contexto que as vezes só a elas interessa. Nesta foto esse menino veio a mim , ele somente estava curioso e meio escabreado para saber porque eu estava fotografando na frente da casa dele e ele não entendia o que tanto eu fotografava. Imediatamente virei e ele estava coçando o olho, meio envergonhado.

Gosto dessa foto também, absolutamente casual e despretensiosa, nada mais do que uma barreira para o vento para um cigarrinho ao lado do elevador Lacerda, mas que conta sua história, gosto muito disso de localizar e esperar a cena acontecer para mim. Feita durante uma intervenção plástica pelas ruas de Salvador onde pessoas se deslocavam em grupos usando estes guarda-chuvas, ora se agrupando ora se separando provocando os olhares por onde passavam.

8- Alguma vez já presenteou os retratados com as imagens feitas?
Se sim, qual a reação e o que isto representou à você?

Já sim, e foi delicioso o momento de entregar a foto ao fotografado. A última vez entreguei umas fotos feitas em um distrito, à 230km de Salvador chamado Maragogipinho, onde funcionam diversas olarias, com artesãos da cerâmica, e onde de tempos em tempos, vamos lá fotografá-los nas suas atividades diárias.
Lá eles já estão acostumados com o ir e vir de fotógrafos, então é um ambiente bem interessante, cheio de vida e atitude.

9- Que tipo de técnica e equipamentos você usa pra conseguir suas imagens?

Há algum tempo, aqui mesmo no fórum, descobri os benefícios da técnica do UniWB tutoriado pelo Peri. Desde então venho utilizado com muita freqüência e me adaptado algumas vezes, tentando sempre extrair o máximo do equipamento que tenho. Comecei a fotografar há muito pouco tempo, e tenho me virado para estudar e aperfeiçoar tanto a arte de cada foto quanto a técnica.

9.1- Você acha que o equipamento dito ‘profissional’ é fundamental para se conseguir imagens carregadas de sentimento como as que você faz?

Quanto ao equipamento, vamos lá: já entendi que equipamento faz diferença em muita coisa, mas equipamento nenhum coloca sentimento em foto. Garanto que um fotógrafo de natureza, com uma 50mm, irá sofrer para trabalhar, da mesma forma que ninguém vai fazer um casamento com uma 600mm. Hoje utilizo o mesmo equipamento com o qual comecei a fotografar: uma T1i com lentes 50mm, 18-55mm e 55-250mm. Percebo em alguns momentos as limitações do meu equipamento, como em situações de pouca luz. Contudo o aperfeiçoamento da técnica tem me ajudado muito, principalmente com relação a isto, já que utilizo ISOs altos com resultados satisfatórios ao meu objetivo. Almejo um equipamento melhor… mas não agora, deixa a necessidade falar um pouco mais alto, para eu adquirir um equipamento que irá facilitar a forma de expressar o que eu quero. . Então não, não acho fundamental o equipamento profissional para expressar sentimentos numa boa fotografia, mas conhecer os limites do equipamento que está usando.

A título de exemplificação seguem algumas fotos feitas com ISO 12800.

10- Taciano, vendo as imagens que você disponibilizou aqui na entrevista e vendo sua página no Flickr e no meu caso que acompanho teu trabalho aqui no DigiForum já há algum tempo, é inegável a sua evolução em tão pouco tempo de fotografia.

Além disto eu percebo que a sua fotografia é calçada em valores humanos como verdade e respeito, aliada a uma técnica fotográfica bem justa no que tange à composição, com uma apresentação bem caprichosa.

10.1- A que você atribui esta sua evolução?A um “dom” ou a um trabalho de pesquisa evolutiva?

Com certeza essa evolução a que se refere veio com muita pesquisa, estudo e uma tentativa de tentar compreender como posso expressar o que penso numa fotografia, não gosto muito dessa coisa de “dom”, apenas tenho certa facilidade em estudar sozinho, buscar caminhos e teorias. Nunca fiz nenhum curso de fotografia porque percebo que estes cursos estão muito relacionados aos conhecimentos técnicos, e como tenho facilidade em estudar sozinho, vou me virando. Corro atrás para tentar aprender a parte técnica da coisa e talvez isso fique bem marcado no desenvolver de minhas fotos, como você mesmo falou. No início a preocupação era essencialmente realizar uma fotografia tecnicamente aceitável, e com o passar do tempo, a utilização desse conhecimento para criar algum significado com as fotos.

Como amante da música, não consigo gostar de uma música mal composta, onde pequenos detalhes fazem muita diferença numa melodia, assim, tento fazer o mesmo com as fotos, sem rebuscar demais, nem deixar aquém das possibilidades que encontro, mas sempre tentando seguir o ritmo. Quanto a apresentação caprichosa, muito obrigado, acredito que faça muita diferença como as coisas se apresentam diante de quem observa, então tento deixá-las o mais agradável possível.

Venho descobrindo minha fotografia com a ajuda de muitos fotógrafos com que mantenho contato aqui na cidade. Hoje faço parte de um foto clube (Salvador Foto Clube) que promove alguns eventos e encontros com interesses fotográficos, um desses eventos é chamado de “O olhar de…” convidando alguns fotógrafos para um bate papo sobre fotografia. Acredito muito nessa troca de experiência, e através dela apuro aos poucos o que fotografo.

Grande parte dessa descoberta agradeço também ao Fórum. Lembro quando ainda existia as salas de foto-crítica e podia vivenciar as experiências dos outros, comentários e observações sobres as fotos postadas, e aos poucos fui tentando entender a minha forma de fotografar.

10.2- Em que momento você entende que o Taciano saiu da condição de um simples “apertador de botão” para um fotógrafo consciente e comprometido com sua arte?Consegue distinguir em seu acervo (ou de terceiros se for o caso) a(s) imagem(ns) que lhe deu este ‘estalo’?

Essa foto foi feita durante uma saída fotográfica em uma manifestação popular, o “Bembé do mercado” realizada na cidade de Santo Amaro da purificação, em comemoração à abolição da escravatura. Nesse momento registrado, oferendas são deixadas no mar. Distante um pouco do foco das baianas e oferendas, esse senhor agradecia solitário. Acredito que essa foto foi uma das que me direcionou ao processo, até o “estalo”.

11-Que tipo de influência uma cidade plural como Salvador, seja em manifestações artísticas como a música (que você sempre cita como fonte inspiradora) ou em manifestações religiosas como o Candomblé por exemplo, exerce em um fotógrafo?

11.1- Neste sentido, qual o seu envolvimento pessoal com a cidade (como cidadão Soteropolitano ou como uma pessoa que possui o ‘olhar observador’ de um fotógrafo, por exemplo) e como isto se reflete em seu modo de fotografar ou no seu olhar fotográfico?

Salvador, de fato, provoca muito o fotógrafo e a todo o momento podem ser vistas cenas interessantes, tanto no aspecto do cotidiano da cidade, quanto em suas manifestações artísticas.
Por vezes tenho me deixado influenciar pelos aspectos sociais da cidade, e que às vezes, surgem inusitadamente, quebrando o contexto da situação cotidiana que estava acontecendo ao meu redor. É como se eu buscasse mais do que está explícito ao senso comum. São fragmentos do que está à minha volta.

11.2- Que inspirações a cidade lhe trás e como você demonstraria isto em imagens?

Musicalmente, gosto de muita coisa e a diversidade é verdadeiramente enorme. Posso citar algumas coisas que ultimamente têm me atraído:

Baiana System(http://youtu.be/p-kk1RyL554),
Diamba(http://youtu.be/5lkOtFaUg7w),
O Círculo(http://youtu.be/ZsHaQt2zan0)
Retrofoguetes(http://youtu.be/dtBW0XwdvIE)

Estes citados acima estão entre os menos famosos no mercado musical nacional. Fora eles tem João Gilberto, Gilberto Gil, Carlinhos Brown e outras figurinhas carimbadas.

Em relação às manifestações religiosas, principalmente as relacionadas ao Candomblé, venho a cada dia que passa me relacionando mais com seus elementos e procurando na medida do possível tentar me aprofundar nos conhecimentos sobre essa religião. Venho de uma família Católica e bastante religiosa, mas a cada dia fico mais impressionado por diversos aspectos do Candomblé, tanto os visuais, que são muito exuberantes e fascina qualquer fotógrafo, quanto os seus conceitos de orientação religiosa. Verdade que ainda existe, mesmo em Salvador, muito preconceito envolvido com essa religião, mas tento mostrar às pessoas que além da liberdade de expressão e da opção de cada uma acreditar no que melhor lhe convier, o Candomblé não é direcionado para o mal ou qualquer coisa do tipo, como muitos pensam. Existem pessoas más em qualquer lugar e em qualquer religião. Recomendo assistir ao Filme “Jardim das Folhas Sagradas”(http://www.jardimdasfolhassagradas.com/), que mostra muito isso que estou dizendo.

Em relação às manifestações religiosas, principalmente as relacionadas ao Candomblé, venho a cada dia que passa me relacionando mais com seus elementos e procurando na medida do possível tentar me aprofundar nos conhecimentos sobre essa religião. – Taciano Levi.

12- Como se dá este aprofundamento e de que forma isto interfere na vida do cidadão católico Taciano?

Venho de uma família Católica, com uma religiosidade bem marcante, mas com o passar dos anos fui me distanciando das “obrigações” Católicas tal como frequentar missas. Nesse processo de distanciamento, certamente fui influenciado pelo comportamento geral dos religiosos, com o qual não concordava. Hoje não sei se me diria atrelado a uma religião específica, por isso me sinto a vontade em querer saber mais a respeito do Candomblé, que além da plástica visual oferece alguns aspectos muito interessantes em relação à interação do homem com a natureza e das inter relações humanas.

12.1- Como separar o aspecto emocional atribuído ao ser humano do aspecto “frio” que um fotógrafo deve ter para capturar suas imagens?

É muito complicado separar o emocional do ato fotográfico, mas, às vezes, controlar parte dessas emoções se faz necessário, ou não conseguirá realizar determinadas fotos que, pelo assunto registrado, podem vir a incomodar ou mesmo agredir quem as vislumbra. Há pouco tempo atrás não conseguia fotografar determinadas cenas do cotidiano de uma grande cidade, como por exemplo, pessoas em situações precárias, mendigos e etc. O sentimento envolvido nessas imagens me fazia pensar na ética envolvida e no porque de fotografar esses temas, ou mesmo em um sentimento de impotência diante do quadro. Porém, hoje posso dizer que faço, e nem por isso perdi os sentimentos e nem deixei de me importar. Entendo que a minha intenção não é depreciar, mas mostrar que no mundo que enxergo há também estes fragmentos, e não só o belo ou o gracioso. Expor isso de uma forma adequada pode gerar algo positivo, senão em atitudes, em reflexões.

12.2- Ou você acha que a questão acima pode ser dissociada, podendo o fotógrafo envolver-se emocionalmente com seus assuntos sem que isto interfira no resultado final?

Outro ponto marcante nessa relação fotografia/sentimento seria o momento emocional do fotógrafo interferindo no resultado. Não consigo imaginar essa dissociação porque pessoalmente, observo em minhas fotos os traços de sentimentos que estava vivendo no momento da fotografia, ou da edição, e que interferem no resultado. Verdade que nem sempre a idéia inicial da foto estava tão estreitamente atrelada ao sentimento experimentado, mas o resultado final pós edição é certamente afetado.

13- Ainda relacionando-me ao Candomblé, gostaria que você como estudioso e como cidadão Soteropolitano desvendasse alguns mitos que pairam sobre a religião, tão fortemente criticada por determinadas esferas da sociedade brasileira.

Hoje em Salvador existe uma campanha ainda pouco disseminada contra esse preconceito existente contra o Candomblé. A falta de informação e a problemática intolerância religiosa vêm, a cada dia que passa, ameaçando a continuidade dessa religião que veio trazida pelos escravos e que já existia há muito tempo. Ela preza pela harmonia do homem com o homem e do homem com a natureza. A imagem estereotipada de que o Candomblé é algo maligno ou de adoração de demônios é algo leviano e completamente irresponsável. Digo irresponsável porque não afirmo alguma coisa se não sei a respeito dela, desta forma, para emitir tal parecer o “irresponsável” deveria se aprofundar um mínimo possível para poder fazer essas afirmações. A ignorância (segundo o dicionário: falta de conhecimento, estado de quem ignora incompetência, imperícia) destes atos não ajudam em nada ao bem estar comum. Como já havia dito, não me sinto atrelado a religião alguma, mas o que já presenciei e compartilhei a respeito do Candomblé me impressiona bastante e me sinto a vontade para dizer que é uma forma linda de manifestação religiosa, uma crença onde as entidades (no caso os orixás) estão intimamente ligadas a elementos da natureza e possuem características bem humanas em suas personalidades.

14- De que maneira a edição contribui para o resultado final de suas imagens?

Confesso que a edição para mim é um momento muito prazeroso, de investigar as fotos que fiz e aos poucos polir a mensagem que tentei captar em cada uma. No início tinha alguma dificuldade em relação aos parâmetros para tratamento das fotos, que foram se consolidando à medida que descobria o que eu queria da fotografia.
O mundo da fotografia surgiu para mim já digital, e aos poucos fui descobrindo as ferramentas necessárias para trabalhar com elas. De cara fui atirado ao Phostoshop e suas milhares de possibilidades, e talvez esse excesso de possibilidades tornara mais complicado estabelecer parâmetros para os tratamentos, mas enfim, devagar fui me adequando e hoje quase sempre tenho em mente que tipo de tratamento fazer assim que faço a foto. Gosto quase sempre de destacar o que me faz compreender a imagem, seja com variações de sombras, contrastes, ou variações em P&B.
De longe, o que mais me agrada e que tento ajustar com maior cuidado são as variações de sombras e brilhos. Hoje utilizo somente o Lightroom para tratamento das fotos.

14.1-Que tipo de edição você acha favorável na fotografia que faz?
Mais agressivas, menos agressivas, montagens, colagens … vale tudo ou existe um limite?

Normalmente não faço alterações tão drásticas, a menos que esse tipo de tratamento enfatize o que eu queria mostrar. Não condeno e nem atesto certos tipos de montagens e modificações, contudo, meu limite fica em remover pequenos detalhes, CUT-OUT e os ajustes de nitidez, contraste, saturação….
Vale tudo e ao mesmo tempo, existem limites. Enquanto arte, a fotografia tem o limite de quem a produz, assim, o limite para as alterações depende tão, e somente, do objetivo de quem as faz, a menos que a fotografia esteja sendo utilizada como forma de registrar a realidade como documentos, revistas e jornais.

14.2- O que você pensa sobre movimentos como o Instagram, que parece ter virado uma febre?

Estive no Paraty em Foco em 2011, e o tema principal do evento foi justamente relacionado com essa nova tecnologia, mas tenho alguns poréns em relação a isso. No Salvador Foto Clube existe alguns adeptos do Instagran e algumas fotos realmente me impressionam com a eficiência do resultado. Mas me preocupa muito a particularidade da necessidade de enfatizar a supremacia de um equipamento em relação a outro, pois acredito que uma ferramenta só é melhor que outra a depender de quem a utiliza, assim os IPhones, Androids, Canons, Nikons, Leikas e companhia são ferramentas nas mãos de quem as utiliza. Qual fotógrafo nunca escutou alguém, após ver uma foto sua, comentar; “poxa, sua câmera é muito boa…” como se a câmera pudesse realizar a fotografia sozinha, é o mesmo que pensar que ao adquirir uma guitarra de Jimi Hendrix a pessoa iria tocar maravilhosamente bem. Lógico que há diferenças entre os equipamentos, mas daí a classificar qual é o melhor ou pior acho um pouco precipitado e simplista. Melhor em que? Melhor para quem? Acredito que cada um deverá se adequar de acordo com suas preferências, aplicações e necessidades.

Segue o link de um membro do clube que aprecio muito as fotos feitas com o IPhone:

http://statigr.am/tag/varope

Da mesma forma experimentei também o mundo da Lomografia, e achei muito interessante a proposta oferecida principalmente pela descontração e liberdade que ela proporciona, contudo a minha antipatia, inexperiência e a limitação que sinto com a utilização da aparelhagem analógica diminuem demais as minhas possibilidades de vir a me desenvolver neste estilo de fotografia.

15- Poxa, que barato este link, fotos inspiradoras e gostosas de ver.
Engraçado é que a gente convive num fórum de fotografia e vê muito pouco deste tipo de coisa … experimentos, explorações de linguagens, estudos da fotografia como forma de expressão, etc.

O que você destacaria de positivo e negativo num ambiente como um fórum (não especificamente o DigiForum, mas no geral)?

Verdade, eu acho que muitos aspectos relacionados com o conteúdo artístico das fotos são negligenciados por grande parte dos fotógrafos iniciantes, e esses aspectos talvez pudessem ser mais estimulados nesse ambiente de fórum, que é a porta de entrada para muitos iniciantes. Pessoalmente, comecei a me dar conta da importância de cada pessoa expressar seu próprio estilo de fotografar e desenvolver uma identificação com seus registros a tal ponto que possa ser percebido pelos outros. Essa minha percepção só foi possível lendo e participando do forum, além de muito observar fotos de terceiros e, aos poucos, conseguir perceber pontos de identificação que conectam o autor a suas fotos. Por outro lado percebo em muitos a necessidade da exacerbação dos parâmetros técnicos das fotos como a principal e, às vezes, única referência para qualificar uma fotografia, deixando o aspecto artístico e a expressão cada vez mais longe do ato fotográfico, direcionando os menos experientes para este caminho.

15.1- Agora falando especificamente daqui, o que você tem visto de interessante (sejam autores, novas formas de expressão, etc) que valha a pena destacar?

Aproveitando, devo salientar que sinto muita falta das salas de foto-críticas que existiam no DF, que tanto me fizeram enxergar além do meu olhar e pensar fotográfico, me estimulando a entender a necessidade do aprimoramento da técnica para expressar o que desejo nas imagens. Alguns membros do forum me motivaram muito a me aperfeiçoar tecnicamente, e a desenvolver minha identidade fotográfica, como os citados abaixo:

Gabriel Franceschi.
http://www.flickr.com/photos/gfranceschi/

Edgard Thomas.
http://www.flickr.com/photos/edgard_thomas/

peridapituba.
http://www.flickr.com/photos/peridapituba/

Virgilio Libardi.
http://www.flickr.com/photos/virgilio_libardi/

16- O interessante do conceito das FC’s era a polarização das opiniões e das motivações dos diversos autores que por lá se apresentavam.

Isto não apenas difundia diversos conceitos e linguagens … a sala também determinava de certa forma uma direção a quem não tinha ainda se encontrado no mundo da fotografia.

E, depois da sua citação dos autores acima, vamos inverter um pouco as coisas e tornar a história mais interessante …

16.1- Eu gostaria que você tomasse agora as rédeas da situação e fizesse, a cada um destes que citou, uma ou duas perguntas de seu interesse e que serão publicadas nesta entrevista.

Fique à vontade … eles serão contatados, mas seu nome não vai figurar como responsável pela pergunta para que as respostas não sejam “viciadas”.

16.1.1- Ao Virgílio:

” Virgilio, vi na sua entrevista que você tem uma preocupação muito enfática no que diz respeito aos egos dos envolvidos em um trabalho fotográfico. Já aconteceu algum caso de divergências que pudessem comprometer o bom andamento de um trabalho? Como lida com isso? E mais especificamente, gostaria de saber se já ocorreu algum tipo de indisposição com os modelos a respeito da proposta ou da forma como dirigiu o andamento do trabalho? “ – Taciano Levi.

Aconteceu sim, ainda bem que poucas vezes, mas é bem comum casos assim em que alguns profissionais se exaltam por uma razão ou por outra.
Acontece muitas vezes de um profissional querer que o trabalho dele seja mais evidenciado que o dos demais, esquecendo que tudo depende de todos.
Sempre me preocupo em fazer com que o ambiente de trabalho seja tranquilo e que o clima de paz reine, quando temos isso já definido previamente, escutando as opiniões de todos e em comum acordo dando um direcionamento ao trabalho, temos uma chance maior das coisas caminharem bem.
O mais grave que já aconteceu comigo foi o travamento total da modelo devido a forma com o qual ela foi tratada por um profissional. Este foi um trabalho que tivemos que repetir em um outro dia. A modelo foi mantida, a equipe não permaneceu a mesma.

Grande abraço,

Virgílio

16.1.2- Ao Peri:

“Peri, não posso deixar de querer saber o que te motiva a fotografar, principalmente o que atrai a sua atenção para realizar determinados tipos de fotos, como por exemplo a foto abaixo:”

“Também gostaria de saber que tipo de emoções deseja provocar no espectadores, se é que realmente fotografa pensando em provocar alguma reação nos outros. E ainda, se não deseja provocar, diga o porque disso não ser importante.” – Taciano Levi.

Bem, Taciano, eu acredito fielmente que a fotografia deve cumprir um papel crucial como forma de expressão, como registro de nossas vidas, do que nos cerca e das passagens que temos como seres humanos dotados de emoções e sentimentos.
No meu caso eu tenho a fotografia como espelho do que eu vivo, do que eu presencio e do que me cerca.
Seja em cenas familiares, em cenas do meu dia a dia ou em oportunidades em que estou em determinados lugares e algo que eu julgo relevante possa acontecer.

Por si só tudo isto já me serve de motivação para registrar as cenas.
Lógico, sendo uma pessoa que gosta de fotografar e já tendo estudado há algum tempo, existe a preocupação de fazer estes registros com a máxima competência que eu puder fazer.

Então, uma cena familiar pode se transformar para além do sentimento embutido nela (emocional, passional, não-racional, etc) em algo prazeroso para quem vê e com quem compartilhamos estas imagens.
Não creio haver motivação mais profunda que isto.

A gente faz pra gente, mas compartilha e deseja que quem esteja vendo tenha também parte do sentimento que nos move, parte daquela sensação gostosa que a imagem demonstra.
As cenas abaixo podem demonstrar um pouco disto.

Por outro lado podemos estar em determinados locais e cenas acontecerem ao nosso redor, ali na nossa frente.
Se estivermos ligados, com o olhar atento e afiado, a probabilidade de conseguimos captar estas cenas aumenta demais.
E isto também é muito importante e deve ser levado em conta.
O fotógrafo é, ou deve ser, um ser atento ao mundo e às possibilidades que o cerca.

Mas eu não acho que deva-se fotografar exclusivamente pensando em provocar sensações em que vê nossas imagens.

Primeiro porque na verdade a gente nem sabe que tipo de pessoas as verão, e os sentimentos/induções destes podem muito bem ser diferente do nosso como autores.
E segundo porque, antes de tudo, o compromisso que temos com a fotografia é algo que nos pertence e que não deve, assim penso, ser feita ‘para fora’, mas ‘para dentro’, sabe?

Se a gente faz algo pensando em outrém, ficamos refém destes e, não havendo a contrapartida (e isto é algo absolutamente normal) a coisa pode esvaziar e a motivação acabar.
A gente deve ter sempre em mente que a fotografia nos pertence até o momento da publicação, a após ele até de forma velada, mas depois de mostrada a obra nosso compromisso de certa forma acaba e é o Observador quem deve escolher o que sente e como sente o que está vendo.

Se conseguirmos provocar sentimentos é um presente, uma espécie de bônus.
Entretanto isto não deve ser baliza ou muleta para nossas motivações pessoais para fotografar.

16.1.3- Ao Ed:

Ed, acho incríveis as fotos de pássaros na natureza, e gostaria muito de saber em relação ao lado comercial desse tipo de fotografia. Você atua profissionalmente nessa área específica? Se sim, como é o mercado brasileiro em relação a esse segmento da fotografia e mais especificamente, qual sua relação/opnião a respeito dos bancos de imagens na comercialização desse tipo de foto? – Taciano Levi.

De fato, a fotografia da natureza, especificamente aquela dedicada ao registro das aves, é fascinante e desafiadora. É uma tarefa muito difícil, pois os bichinhos são muito ariscos e um tanto mais agitados, mas é muito prazerosa, quando se tem o resultado ao menos satisfatório.

Tenho me dedicado quase que exclusivamente a esse tipo de fotografia nos últimos três anos. Recebo convites para publicações de fotos minhas em sites especializados e também em livros. Mas nunca tive qualquer retorno financeiro relativamente ao meu trabalho.
Conheço poucos fotógrafos que conseguem bons resultados comerciais com a fotografia da natureza. Existem os consagrados e mundialmente conhecidos e alguns outros que publicam suas fotos em guias de identificação de espécies, sejam eles convencionais ou em mídia eletrônica.
Outros conseguem retorno como guias, mas aí o conhecimento é muito maior na área de ornitologia/biologia.
Quanto aos bancos de imagens, posso lhe dizer que sou cadastrado em alguns deles, recebo pedidos de imagens, mas, até hoje, nunca um pedido teve relação com a fotografia de aves.
Concluindo, acho que o lado comercial da fotografia da natureza no Brasil é, ainda, embrionário e se resume às publicações especializadas e aquelas patrocinadas, além do material produzido pelos monstros consagrados da área.

Abração!

16.1.4- Ao Gabriel:

Gabriel, a qualidade dos seus hdrs sempre me impressionou muito, e vejo tanto primor nos seus tratamentos que fico imaginando: será que ele se empolga mais ao tratar e preparar seus hdrs ou no próprio ato fotográfico? Por isso gostaria de saber o que normalmente te impulsiona a gerar um hdr e o que te motivou a adentrar nessa técnica? Como seleciona as cenas que você imagina serem as ideais para fazer uso dessa técnica? É estilo ou pura conveniência? – Taciano Levi.

Primeiramente, gostaria de agradecer, ao meu grande amigo, e mestre, Peridapituba, pelo convite. Em segundo lugar, quero reiterar que não conheço o autor da pergunta, sendo assim, parto de um lugar comum, munido dos preceitos básicos.

Quando comecei a fotografar, não sabia priorizar o meu equipamento, e sendo assim, comprei de um amigo fotógrafo (www.guillermobaltasar.com), uma camera muito honesta, a Nikon D100. Naquela época, só consegui comprar uma lente: a 18-55mm f/3.5-5.6 GII. Uma lente de kit muito razoável, porém, junto a uma camera sem muitos recursos tecnológicos, altamente limitante para explorar o universo fotográfico, nas suas diversas áreas.

Mas vejam só, nunca me diverti tanto no começo. Cada vez que aprendia uma coisa, como sabia pouco, dobrava minha habilidade em pouco tempo. E assim, cada assunto que eu lia, eu vibrava em fotos, que acabam num ritmo sazonal. As foto-críticas e o meu flickr acompanharam essas mudanças … macros, naturezas, urbanismo, película 35mm, etc … Nunca um estilo só. Se refletia luz, eu ia atrás.

Mas no meio disso, eu conheci através de um outro amigo, exímio fotografo de interiores (www.franparente.com.br), a técnica do HDR, com propósito muito simples, e um tanto quanto óbvio: aumentar a variação dinâmica da foto.

Isso abriu meus olhos em meio a uma limitação de fotometria muito marcante na minha camera, um modelo de 2002 descontinuada em 2005, sendo utilizada em pleno 2009/2010. Assim sendo, fui ler a respeito, e a primeira foto que fiz um HDR, foi do sítio do meu avô, em Camanducaia-MG, utilizando o photoshop para tal. Um desastre por completo.

NOTA: O conceito que eu buscava antes de saber o que era um HDR, era o de tirar duas fotos, com fotometrias distintas, e fazer uma “montagem” com a melhor parte de cada.

Bem, uma imagem vale mais do que mil palavras não?

Essa imagem, me agradava, no entanto, eu queria ressaltar as flores, mas a fotometria estava bem dificil (somados as dificuldades da camera e do fotógrafo). Então, utilizando o bracketing, variei 2ev para cima e para baixo, para conseguir as seguintes imagens, respectivamente.

Assim, ficou mais fácil, perceber a limitação da variação dinâmica. Tentei meu primeiro HDR nessa imagem, que após a primeira edição com o software photomatix pro, resultou nessa imagem:

E após uma edição no Aperture (com correção do horizonte, etc…)

Bem … você não imagina a minha felicidade, em ter “descoberto” uma maneira de driblar essa adversidade. Assim, comecei cada vez mais “brincar” com o HDR. As maneiras de edição de uma mesma foto, são literalmente infinitas. Por exemplo, a foto do sítio ? Vejam como ela ficaria, editada hoje, com os mesmos arquivos, com os mesmos programas, mas com o meu “gosto” atual:

Daí pra frente, a sensação de descobrimento, e de aumento de possibilidades, se tornou infinita novamente. Passei a sentir na edição de fotos HDR, a mesma sensação boa de antes. E assim, o HDR passou a ser parte do meu “fotografar”. O bidimensionalismo da imagem, havia sido transformado, em uma coisa literalmente mais profunda.

Guardo o HDR para algumas situações chaves: Paisagens:

Objetos com muito metal/cromo/reflexo:

Cenas com muita variação luminosa:

Retratos posados:

E logicamente para interiores (quanto mais detalhe, melhor, portanto, aqui começou a minha paixão por interior de igrejas …).

Para viagens, o HDR é excelente, no sentido de sair da mesmice. Considero um “estilo” meu, uma vez que durante a edição do HDR, as possibilidades são, sem brincadeira, ou figura de linguagem: infinitas.
Imagine por exemplo, você levando a sua querida camera em um casamento de um amigo. Você subitamente nota, que existem mais pessoas com DSLRs presentes, que vão entregar fotos primorosas para o noivo e a noiva. Bem, eu fiquei chateado quando fui no casamento do mesmo fotógrafo que havia me vendido a camera, e vi a maior concentração de cameras prime (1D MK III, D3s, etc…) fotografando o casamento dele … Na hora me bateu um chateamento. Mas, foi muito legal, quando me viram indo ao meio do corredor, batendo três fotos com a camera apoiada em cima da tampinha, sem entenderem nada … e eis, que ele ganhou essa foto de presente:

Assim, o HDR é uma ótima ferramenta para poder sobressaltar alguns assuntos, e ainda, se diferenciar da mesmice digital que vemos por aí. No entanto, considero o HDR a maior afirmação de digitalização da fotografia. Uma técnica totalmente dependente da pré e pós produção, e ainda, por nostalgia futura, me considero um dos pioneiros (dentre milhares).

PS: Só por curiosidade, esse é o meu HDR mais “interessante” no meu flickr:

ela está na página de paisagens, tiradas com uma Nikon D100
Fiquei bem feliz. – risos.

Um grande abraço,

Gabriel.

17- Taciano, foi interessante ler suas perguntas a cada uma destas pessoas.
Nelas você discorre sobre pontos importantes,como os listados abaixo e que eu gostaria que você desse uma pincelada a mais:

1-Relações profissionais e humanas entre fotógrafos e modelos em sets de trabalho e as possíveis conseqüências quando estes não estão bem sincronizados; quando questiona o Virgílio.

Quanto à direção de modelos, tenho pouquíssima experiência, além de nesse momento não ser o que eu tenha em mente para fotografar. Mas me colocando em uma situação de ensaio fotográfico, imagino que a primeira coisa a ser feita é estabelecer uma relação entre fotógrafo e fotografado. Se o fotografado não é o próprio cliente (cujas os motivos já são explícitos), acho que devem estar claras as razões daquele ensaio acontecer, no sentido do modelo compreender quem é o cliente/solicitante e quais as suas necessidades. É necessário que o fotógrafo construa uma relação momentânea com o modelo, estabelecendo confiança, onde haja entendimento e respeito mútuos. Há pouco tempo, um amigo fotógrafo realizou um ensaio de nudez, apenas pra constar no seu portifólio. Depois das fotos feitas e postadas na internet, no seu site particular (claro que as modelos sabiam que as fotos seriam veiculadas), uma das modelos voltou atrás e pediu que sua foto fosse retirada, alegando que ela não gostou do resultado do trabalho e como elas tinham sido usadas. Neste exemplo percebemos como o entendimento/comunicação entre as partes é algo fundamental, até mesmo para que haja uma sintonia entre o fotógrafo, o cliente e o modelo.Essa é uma questão relevante porque numa situação mais grave, um desentendimento pode eventualmente ser levado aos meios legais. Voltando pra minha realidade, em algumas ocasiões de festas populares ocorrem situações em que uma breve direção da pessoa fotografada se faz necessária para obtenção da imagem desejada, e às vezes esse traquejo com o modelo é muito útil.

2- Motivações, intenções e emoções que uma fotografia pode, e se deve ou não, conter; quando me questiona.

Como eu disse antes, acredito que a idéia que motiva e o tipo de sentimento gerado com cada fotografia seriam para mim a razão maior para registrar um determinado momento, e mais importante, como registrar esse momento, transmitindo através da imagem algum tipo de sentimento ou idéia vinda do fotógrafo. Sem isso, para mim a fotografia não faz sentido e não seria um instrumento de expressão. Seria um mero registro. Pra mim, a fotografia vai muito além disso, e usaria até uma licença clichê pra dizer que você muitas vezes expressa em imagens o que você não consegue expressar só em palavras.

3- A preocupação com o lado comercial da fotografia, sobretudo em áreas onde a gente sabe que talvez o fruto de nossos esforços não sejam recompensados como deveriam ser; quando questiona o Ed.

Tenho muitas dúvidas quanto à utilização de fotografias advindas de banco de imagens, e tenho observado que essa área específica, a fotografia de natureza, é bastante direcionada a esse mercado. Se as regras de utilização de imagem e remuneração do fotografo forem claras, acho que esse é um instrumento interessante para se fazer dinheiro com algo que antes era apenas hobby. Obviamente que é necessário grande volume de comercialização para se fazer dinheiro, mas a possibilidade está lá. Se você não teria um uso mais útil pra essa imagem, por que não disponibilizá-la nesses bancos? É um formato interessante porque padroniza a forma de comercialização das imagens. Facilita muito tanto pro fotógrafo como para quem está procurando determinada imagem, e o mercado de hoje clama por praticidade, em todos os sentidos. Há pouco fui convidado à enviar minhas fotos para um banco de imagens, e assim o fiz. Vamos ver o que acontece. No mínimo vou entender mais como esse negócio procede. Concluindo: não fotografo profissionalmente mas a possibilidade de ser remunerado por fazer algo que faço por prazer é bastante tentador.

4- Preocupação com a técnica e como isto se desenrola a favor da imagem, a fotografia então servindo de suporte a esta técnica; quando questiona o Gabriel.

Venho percebendo que o estudo e o aperfeiçoamento tanto das técnicas fotográficas quanto do tratamento realizado nas imagens, geram efeitos mais satisfatórios ao que se deseja expor. Assim, alguns princípios e aprimoramentos nas técnicas de pós-edição tem atraído bastante minha atenção.
Acredito que entender qual a minha motivação para realizar uma fotografia,e ter bases técnicas para realizá-la de forma que consiga transmitir o que pensei, fazem parte do desenvolvimento ao qual estou tentando me direcionar. Quem sabe um dia possa utilizar essas ferramentas de uma forma remunerada.

17.1- Como você mesmo pensa e incorpora cada um destes itens listados em sua própria forma de fotografar?

17.2- Qual relevância disto em sua fotografia e qual o peso que você atribuiria a cada um deles?

17.3- Como equacionar estas questões?

Não sei se saberia equacionar essas questões, mas sempre acredito no equilíbrio entre as partes para um bom desenvolvimento de qualquer coisa, mesmo os erros, são muito importantes e necessários para um aprendizado, então todos os fatores são importantes, sejam eles técnicos, intelectuais, ou de equipamentos e nenhum deverá ser desmerecido, da mesma forma nenhum deverá ser absoluto.

“ Não fazemos uma foto apenas com uma câmera;
ao ato de fotografar trazemos todos os livros que lemos,
os filmes que vimos, a música que ouvimos,
as pessoas que amamos.”
– Ansel Adams

18- Taciano, creio que falamos sobre pontos muito importantes nesta entrevista.
Pontos que reverberam sobre o verdadeiro sentido da fotografia, como sentimentos verdadeiros, respeito, camaradagem, permuta, entrega …

Acho de verdade que foi uma conversa, para mim, muito reveladora.
Porque me mostrou sua face mais humana, seus anseios, suas motivações, suas conquistas, sua evolução como pessoa antes do fotógrafo-Taciano, seu trilhar.

De minha parte acho que fechamos um capítulo importante na sala … saiba que, para mim, você é um dos grandes aqui dentro do fórum e parte desta conclusão veio através de bate papo tão prazeroso.

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?
Algo que não foi conversado e você ache que seja necessário falar?

Fique à vontade, a palavra é sua.
No mais, meu muito obrigado pela atenção, pela cordialidade, e pela paciência em responder as perguntas.

Um grande abraço de um novo admirador.

Peri,
Esse bate papo me proporcionou uma experiência muito interessante: olhar pra dentro de mim e reafirmar pra mim mesmo como eu realmente vejo a fotografia. Tenho muitos amigos fotógrafos e estou constantemente conversando sobre o assunto, porém, isso é diferente de dialogar comigo mesmo a respeito. Se foi enriquecedor pra você e para o Digiforum, pra mim foi muito mais. É muito bom estarmos sempre nos questionando sobre o que nos move, pra que essa motivação verdadeira e inicial nunca se perca, e essa entrevista me mostrou que a motivação fotográfica mais importante continua em mim, e agora, de uma forma mais madura.

Acho importantíssima a iniciativa do fórum no sentido de mesclar entrevistas de fotógrafos famosos ou de peso no mercado, com entrevistas de fotógrafos iniciantes como eu, pois as duas visões são mostradas, além de ser incentivador pois os fotógrafos menos experientes (a maioria) podem se identificar e/ou se espelhar nas experiências dos entrevistados.

Queria agradecer especialmente a você porque muito antes dessa entrevista eu já acompanhava seu trabalho, e aprendi muito com as técnicas que você apresentava. Acho que o fórum é muito importante como instrumento disseminador de conhecimentos técnicos, e para os verdadeiramente interessados, é um ajuda e tanto para que consigam se aprofundar nas técnicas e com isso, expressar mais facilmente as idéias imagéticas que possuem. Espero que eu tenha conseguido expressar na entrevista o quanto esse conhecimento técnico é importante, o quanto é necessário entender o funcionamento do equipamento que se está usando, pois pra fazer um trabalho diferenciado, você precisa ter domínio sobre seu objeto.

Estarei aguardando a publicação, e mais uma vez, obrigado pela oportunidade!

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Em foco: wedge (Rogério Simões)

1- Rogério, nos fale um pouco sobre você; sua atividades, gostos e preferências, etc, para que possamos conhecê-lo um pouco mais.

Se possível inclua uma foto.

Sou paulistano, tenho 43 anos e uma trajetória bastante cigana, morei em São Paulo, São José dos Campos, Santos e há 13 anos moro em Campinas. São Paulo é um lugar onde me sinto em casa, nasci lá e toda minha família é de São Paulo, mas definitivamente não tenho a menor vontade de morar novamente lá. São José dos Campos é onde eu digo que está o meu baú afetivo, pois vivi dos 7 aos 23 anos nesta cidade, ou seja, a parte mais importante na formação de uma pessoa. Santos é onde os meus pais vivem e onde amadureci na fotografia. Campinas é o lugar que o amor me fez chegar, vim pra cá por conta dessa pessoa especial que é a Lygia minha mulher.

Vivo numa casa simples, mas confortável, num bairro bastante agradável, perto de um dos parques mais arborizados da cidade, a Lagoa do Taquaral.

Gosto muito de música, teatro e cinema, aliás, no começo da minha vida como fotógrafo a maioria dos meus amigos eram músicos ou ligados ao teatro.

Estou buscando mais tempo para voltar a fazer alguma atividade física e viajar mais, porém estou envolvido num projeto de compra da casa própria que me obriga a dispensar muito tempo ao trabalho.

Uma explicação sobre o meu nickname, como na maioria das vezes durante os dias de semana eu acesso o BrFoto de terminais na faculdade, adotei um nickname rápido de escrever, esse é Nick é um dos meus sobrenomes em inglês (Cunha = Wedge).

2- Sua atividade principal hoje em dia é ligada à fotografia profissional?

Fotografo desde 1988, profissionalmente desde 1990 e na fotografia publicitária desde 1994, em 2000 comecei a dar aulas em cursos de graduação. Hoje divido meu tempo entre a função docente e a fotografia, porém cada vez mais meu trabalho está migrando para área de consultoria na gestão de marca, onde a fotografia é uma das ferramentas utilizadas, aliada ao design, marketing e administração.

3- Existe alguma forma de você exemplificar com imagens cada uma destas importantes fases de sua vida, fazendo um breve relato de cada uma delas (a de SP, a de S.J. dos Campos, a de Santos e a atual em Campinas)?

São Paulo.

Estas duas fotos abaixo representam a minha primeira lembrança da cidade de São Paulo, uma lembrança que está relacionada a uma ocasião, no inverno de 1972 eu minha família fomos ao centro da cidade para fazer umas compras, uma dessas compras foi este par de luvas, compra feita numa loja da Praça do Patriarca, na verdade meu pai comprou um par de luvas iguais a este para cada um, ele, minha mãe, eu e minha irmã. Estava frio, chovia, a cidade estava cinza e com aquele caos de gente peculiar desta região. Outro dia conversando com minha mãe lhe disse que estava com o par que foi comprado para o meu pai, lhe disse também que me lembrava do lugar e do dia em foi comprado, ela se espantou como eu tinha me lembrado de um fato que tinha acontecido a tanto tempo e quando eu tinha um pouco menos de 4 anos. Toda vez que olho para este par de luvas me lembro daquele dia.

São José dos Campos.

A foto abaixo é de um lugar muito emblemático da cidade, o Banhado visto da Avenida São José, é quase que uma praia para o morador da cidade, muito embora não tenha areia, mar ou água para se banhar, o lugar tem um por do sol incrível.

Santos.

Esta foto é uma das primeiras que fiz logo que me mudei para Santos, é uma metalinguagem, um “espelho” onde o meu reflexo não é nítido e quase virou um espectro na velocidade.

Campinas.

Também é uma das primeiras fotos que fiz em Campinas, e no fundo representa ainda uma fotografia ainda muito influenciada por mestres como Bresson, Koudelka, Kertesz, Salgado e Doisneau entre outros. Logo após isso eu paro de produzir sistematicamente um trabalho autoral.

5- Eu me lembro de ter visto a foto 3 numa postagem sua no BrFoto.
A foto 4 também é de uma estética maravilhosa e me causa uma impressão muito forte, lembrando sem sombra de dúvidas o HCB.

Vendo-as vem 2 perguntas inevitáveis:

5.1- Quais suas influências na fotografia? Os clássicos e, por que não, ‘gente como a gente’ (se for possível indique algumas fotos e o porquê de suas escolhas)?

Muita coisa me influência, não só fotografia, pois eu acredito piamente naquela máxima que diz que fotografamos com toda carga de sentimentos e conhecimentos que temos, portanto, a poesia de Drummond, Manoel de Barros e Wally Salomão, a música de Jobim, Bach e Cole Porter, a pintura de Bosch, Velasquez e Degas, o teatro e o cinema.

Mas falando especificamente em fotografia com certeza os clássicos me influenciaram bastante no começo, e por um motivo óbvio, no começo você precisa encontrar referências, se espelhar em algo, e claro que olhar para o que já está fundamentado é muito mais fácil. Nos últimos tempos o trabalho que mais me impressionou foi o do fotógrafo canadense Gregory Colbert, seu trabalho tem uma beleza plástica impar, um lirismo, uma busca pessoal intensa de um caráter metafísico muito interessante.

Lógico que eu vejo muita coisa ótima feita por desconhecidos, mas depois de mais de 20 anos de fotografia, sem querer parecer pedante, eu não busco mais influências nos trabalhos alheios, eles me emocionam, me impressionam, mas eu procuro dentro de mim os caminhos para desenvolver um trabalho.

Ashes and Snow.

5.2- Dá claramente para perceber a qualidade formal e que o tipo de fotorafia que você faz tem uma marca pessoal; por que você diz que ” Logo após isso eu paro de produzir sistematicamente um trabalho autoral. “?
Existiu algum motivo especial para isto?

Foram questões profissionais e pessoais, eu acredito em trabalhos de longo prazo, minhas exposições individuais são resultado de um longo processo de estudo, 6 anos pelo menos, não podendo realizar dessa forma eu prefiro não fazer.

6- Bem, realmente uma concepção de um trabalho que leve uma média de 6 anos é realmente algo a médio prazo e como o tempo é capital, talvez um prazo deste inviabilize uma processo autoral, principalmente com esta avalanche de informações que mudam a todo momento.
6.1- Não existe um meio termo – digamos 2 anos – em que um processo de natureza autoral possa se aplicar e então você volte a produzir?Já pensou numa hipótese desta ou é algo fora de cogitação?

É possível sim, eu penso que ainda mais agora, quando profissionalmente estou cada vez mais me afastando da fotografia no que tange a produção de imagens comerciais, ficar o dia inteiro envolvido nisso, por mais que seja prazeroso, no meu tempo livre eu quero e preciso fazer outras coisas. Como no próximos anos eu pretendo cada vez mais estar envolvido com as áreas de gestão de marcas e educação, a fotografia vai se tornar para mim uma atividade de lazer, somente de expressão pessoal, aí pretendo retomar as minhas pesquisas de processos históricos de fotografia, o processo de Goma Bicromatada mais específicamente.

6.2- Dentre estas exposições quais as que te deram mais prazer e por quê?

Com certeza a exposição Dignidade, que não foi a primeira, mas que eu considero a 1ª, porque foi a mais pensada e trabalhada, além de ter sido exposta pela 1ª vez num dos melhores espaços expositivos de Santos, a Pinacoteca Benedicto Calixto.
Expor neste local, para um jovem fotógrafo foi muito importante, mas no fundo mesmo o que valeu foi ter visto o resultado final de uma trajetória que me deu muito prazer de ter feito, daí talvez venha este conceito de um tempo longo de produção.

Dignidade 1.

Dignidade 2.

Dignidade 3.

7- É notório sua predileção pela mídia filme e a gente percebe como isto te afeta positivamente.
Você sempre está comentando sobre o formato e dando dicas sobre revelações, características de filmes diversos, abordagens diferenciadas de diferentes modelos de câmeras, lentes e equipamentos, etc.
Fale um pouco sobre esta sua predileção e o que você entende como positivo e negativo nos processos Filme e Digital.

Eu penso que nem é uma predileção, é somente fruto da minha trajetória na fotografia, com certeza investi muito mais recursos (mentais e financeiros) na fotografia analógica, portanto eu tenho muito mais a dizer sobre esta do que sobre a digital, pelo menos nas questões técnicas, porque sobre linguagem o que vale pra uma vale pra a outra.

Eu penso que a fotografia digital tem algumas vantagens bem significativas sobre a analógica, principalmente na fotografia comercial, agilizou e facilitou o processo de produção de imagens, abriu muito o leque de opções criativas, claro que de outro lado tudo isso serviu para banalizar a fotografia, mas pense bem, o que não está banalizado hoje em dia? O tempo é o senhor de tudo, e ele se encarregará de separar o joio do trigo, disso eu não tenho dúvidas.

Apesar de sempre estar apontando as diferenças entre uma e outra, não gosto de compará-las, são experiências muito diferentes, por mais que façamos uma analogia (desculpe o trocadilho) entre o laboratório e o computador como sendo o laboratório da fotografia digital, são coisas muito diferentes. Porém tanto numa quanto noutra o fundamental é o olhar, pois laboratório e computador você aprende ou paga alguém para fazer, já o olhar dá pra treinar, mas se pagar alguém pra fazer você passa para o outro lado do balcão.

Sem saudosismo algum, o processo PB é muito sensacional, ele é muito lúdico, mágico, uma alquimia, e talvez por isso seja muito atraente para as novas gerações que cresceram neste muito digital, convergente, mas muito asséptico e nada lúdico, não é à toa que hoje os departamentos de marketing das empresas não param de falar sobre produtos e serviços que promovam uma experiência para o consumidor, um alimento não basta gerar as sensações básicas (gosto e olfato), as lojas desenvolvem aromas, iluminação, sons e até temperatura para gerar determinadas sensações que façam a passagem do cliente pela loja ser uma experiência prazerosa e única. Então essa coisa de fazer com as próprias mãos, de ver a imagem surgindo na bandeja do revelador é impressionante, como eu disse é mágico, e num mundo tão arrumadinho se sem transcendência alguma que vivemos é se transportar para outro mundo

8- Numa resposta anterior você fala da importância que um fotógrafo “iniciante”, ou em início de trajetória, tem quando são expostas suas fotografias.
8.1- Como você vê hoje em dia esta disponibilidade de espaços para novos fotógrafos?

Eu vejo a coisa bem melhor do que era há 20 anos, tem muito mais gente produzindo, e por mais que quantidade não signifique qualidade, a formação de um público passa pela democratização do meio, mas principalmente a potencialização e sobretudo a inserção de um novo canal de promoção que significa a internet. Depender de meios como o editorial e galerias, que estão nas mãos de poucos e privilegia poucos é muito cruel, a internet abre um mundo, o mundo mesmo para o artista.

8.2- Você acha que existem ou na maior parte das vezes estas exposições, mostras, vernissagens, etc, são parte de um processo no qual quem manda na verdade são os marchants e/ou os “empresários”?

Totalmente, mas nada diferente do que vimos até hoje no mercado de arte em geral, aí é que eu vejo a internet como uma coisa altamente salutar, por mais que a intelligentsia (marchants, agentes, intelectuais, celebridades e o escambau a quatro) ainda sirva para legitimar, na verdade subir o preço da obra, na internet você fura o bloqueio desses atravessadores e chega direto em quem te interessa.

8.3- Como você vê, percebe e entende a formação destes novos “artistas” e que papel fóruns e listas de discussões têm neste processo?

Eu vejo com bons e maus olhos, bons olhos porque o acesso a informação ficou muito mais fácil, está tudo aí na rede, então a curva de aprendizado diminuiu bastante, somando internet com câmera digital é possível aprender fotografia em muito menos tempo, porque a quantidade de informações é maior e a possibilidade de experimentar, de praticar é muito maior também. Maus olhos porque se quando eu comecei muito se falava sobre os vícios que um fotógrafo autodidata tinha, hoje eu vejo distorções maiores ainda, como os fotógrafos equipamentistas, aqueles que creditam ao equipamento todo mérito da boa foto, ou então aqueles que se apegam a modismos derivados de tratamentos específicos em software de edição, esses dois no fundo ficam correndo pra chegarem a lugar algum, um em busca do equipamento definitivo e o outro no tratamento de última hora.

Fóruns e listas tem a sua importância como mais um dos lugares onde se pode obter informações, trocar idéias e eventualmente fazer amizades que podem evoluir para encontros presenciais, mas como qualquer meio de comunicação tem os seus ruídos e há de se saber separar o que é relevante do que não faz diferença.

9- Rogério, nos fale o que é e qual o propósito da Finestra, imagem digital.

A Finestra Imagem Digital é a empresa que eu criei em 2003 para realizar trabalhos não só de fotografia, mas também na área do design 3D, hoje na verdade eu e minha esposa estamos projetando para no máximo 6 meses a criação de uma nova empresa que atuará na gestão de marcas (Branding) focando principalmente pequenas e médias empresas, nesta nova empresa a fotografia será mais uma ferramenta, em conjunto com o design gráfico e o estudo de marketing para efetuar o posicionamento e aumentar o reconhecimento dessas marcas.

10- Olhando seu Flickr vi fotografias muito interessantes e com variados temas e abordagens.

Desde fotografias de pessoas em seus afazeres cotidianos …

Passando por fotografias de paisagens …

Ou até mesmo conceituais …

Seja em cor, pb, em digital ou analógicas.

10.1- Não encontrei em seus álbuns alguma particularidade que pudesse definir como um “estilo Rogério Simões”.Concorda com isto?

Concordo quando falamos especificamente das fotos que tenho no Flickr, desde o começo minha proposta em relação ao Flickr foi não ter nada pré-determinado, minha proposta era ter um caderno de recortes, imagens do passado, da vida caseira, cor , PB, filme e digital, daí vem essa sensação de falta de estilo, mas também muito pelo que já disse anteriormente, no momento não estou produzindo um trabalho autoral de forma consistente, são excertos do meu dia a dia somente.

10.2- Você acha que o fotógrafo deve ter um estilo pré-concebido ou esta nossa mania de querer rotular tudo não passa de uma enorme bobagem?

O estilo pessoal é uma coisa inerente a quem cria, mas principalmente aos criadores que produzem de forma consistente e investem seu pensamento nesta produção. A questão de rotular tem dois lados, um que é prático no sentido de delimitar, tornar mais fácil o reconhecimento, a separação das coisas, mas tem outro lado negativo que funciona de maneira indutiva sendo uma armadilha a àqueles que têm preguiça de pensar, o cara olha primeiro a legenda pra ver quem foi que fez, aí ele emite uma opinião. Eu brinco com meus alunos que a academia é uma fábrica de dar nomes a caixinhas, mas isso não quer dizer que estas caixinhas só contenham o que está escrito nas etiquetas, portanto vasculhe-as.

10.3- Falando especificamente sobre a identidade fotográfica que construímos desde o período inicial até a possível consolidação de uma linguagem fotográfica plena – (e aqui eu abro um parênteses para dizer
que eu particularmente acredito que todos nós temos, sim, uma linguagem própria que aparece com este desenvolvimento) – e levandopara o lado prático da coisa.
E também fazendo uma brincadeira … o que você acha que aconteceria com o Bresson se ele postasse uma foto hoje em dia em um fórum e esta imagem tivesse de ser apreciada sem que se soubesse o autor? – risos

Exercício de adivinhação é uma brincadeira perigosa(risos), mas não negarei fogo.

Muita gente iria gostar, ressaltando as qualidades da composição, enquadramento, etc. Muitos não gostariam, diriam que é uma imagem fria, sem emoção, alguém encontraria um problema como horizonte torto, outros perguntariam sobre a conversão para o PB ou sobre o equipamento usado.

Eu gosto do trabalho do Bresson, mas não porque é do Bresson, gosto por uma série de aspectos, mas também não acho que as pessoas devem gostar só porque é do Bresson e porque o trabalho dele é super reconhecido, em arte eu acredito fundamentalmente na emoção, se não me emociona eu não gosto e pronto, eu por exemplo não gosto do trabalho do Helmut Newton, para mim seu trabalho é sem graça.

11- Rogério, depois de todos estes anos fotografando e vivendo esta maravilhosa experiência que a fotografia nos promove, quais as melhores fotos que você acredita ter feito?E por quê você as considera as melhores?

Vou listar esta foto porque foi a 1ª foto que fiz de maneira pensada, eu olhei a paisagem, gostei do que vi, pedi a câmera para meu pai, compus a cena no visor e fiz a foto, eu tinha uns 13 anos, mas me lembro muito bem, foi numa viagem que eu minha família fizemos a Goiás. Eu gostava de desenhar, então acredito que intuitivamente busquei esta composição que privilegia a diagonal.

Esta paisagem dos barcos que está na pergunta anterior é uma das minhas preferidas, ela tem uma composição em 3 planos que vai do menor para o maior, essa água crespa e brilhante refletindo o céu outonal, que no litoral é maravilhoso. O que também me proporciona grande satisfação nesta imagem é que ela foi uma das primeiras onde empreguei os conceitos do Sistema Zonas, ou seja, pré-visualizei, expus, revelei o filme, fiz a cópia e cheguei ao resultado que construí mentalmente na pré-visualização.

Aqui eu deixo um espaço para a próxima grande foto que farei, no sentido de sempre estar buscando o melhor, não ficar preso as glórias do passado, um olhar pra frente, para o por vir.

… em produção; autor: Rogério Simões.

12- Você fala de seus estudos joviais e experiência no desenho …

12.1- Um outro colega que temos, o Ivan, sempre cita também sua experiência neste campo.
Como você acha que estes seus estudos contribuíram para sua formação no campo da fotografia?

O desenho te auxilia principalmente na composição, visto que com o desenho você tem a oportunidade de aprender a compor, incluir o estritamente necessário para que a cena seja harmoniosa. Alguém que não me lembro o nome disse que a Fotografia é o inverso da Escultura, porque numa escultura você parte de um bloco e vai retirando coisas para chegar a uma forma, já na fotografia você vai incluindo coisas para chegar a uma forma.

No desenho de observação você aprende a reparar em todos os detalhes, formas, luzes e sombras.

12.2- Você acha que existe um caminho pré-concebido para que um iniciante se transforme em um bom fotógrafo, quem sabe um “mito”?Existe um conselho a se dar neste sentido?

Não existe mesmo, não há receita de bolo, alguém mais experiente pode indicar caminhos, atalhos, mas como tudo na vida você deve ter sensibilidade para adaptar, mas principalmente questionar. Você fica mais velho e vai tendo uma tendência a tentar facilitar o caminho dos mais jovens, isso por pura vaidade de dizer que sabe mais porque já passou por isso, o aprendizado não é uma via de mão única, para mim ele deve ser uma troca, é preciso estar aberto para ouvir, é lógico que algumas coisas são inquestionáveis, querer mudá-las é tentar reinventar a roda, mas eu acredito que as pessoas devem quebrar a cabeça sozinhas.

12.3- Ainda pensando nesta questão de formação individual fotográfico, onde entra o talento e onde entra o esforço?Que proporções você acha que estes 2 aspectos tem no mundo real da fotografia?

Eu acredito no talento sim, existe isso, as pessoas nascem com uma bossa para determinadas coisas, porém só o talento não basta, em qualquer atividade que se faça as coisas não surgem do nada, até porque o talento é um tremendo motivador, existe coisa mais motivante do que você começar a fazer algo e perceber que se tem jeito pra coisa, isso gera prazer, então você vai praticando e praticando com gosto, e da prática vem a evolução, até um ponto que as coisas se confundem e não dá mais pra saber até onde vai o talento e o esforço. Existe o outro lado? Também existem pessoas que se sentem desafiadas por algo que não conseguem fazer a contento, e se esforçam de tal maneira que atingem um ótimo nível de produção.

Isso só vem a corroborar com o que eu disse anteriormente, não há receita de bolo, estamos falando do ser humano, a contradição que anda em duas pernas. E além do mais, se eu soubesse em números exatos quais as proporções de talento e esforço que fazem um grande fotógrafo, provavelmente estaria em alguma ilha do Pacífico Sul curtindo a vida descalço, sem camisa e de bermuda (risos).

É lógico que algumas coisas são inquestionáveis.Rogério Simões.

13- Como o que por exemplo?

Tentar simplificar o que é naturalmente complexo e vice-versa, as relações humanas são complexas, você tem que vivê-las com intensidade, mas falando especificamente em fotografia, não dá pra queimar etapas, a não ser que você seja um gênio, dominar uma linguagem exige tempo, você precisa praticá-la, portanto a propaganda enganosa de que um equipamento ou programa resolverá todos os seus problemas é pura bobagem, o fotógrafo é quem faz a foto, ele decide o momento de apertar o botão e o que incluir na imagem, o equipamento só é decisivo em condições extremas, específicas, se o fotógrafo conhece a linguagem e as limitações do equipamento, saberá decidir para obter a melhor imagem possível.

14- Rogério, como é sair de uma condição de entusiasta/amador avançado/hobbista/etc para uma condição em que a fotografia se torna a principal fonte de renda?

É sensacional, existe coisa melhor do que trabalhar com o que você gosta, a maior parte das pessoas trabalha com o que não gosta só para garantir uma vida confortável. Eu me divirto e ainda me pagam por isso.

14.1- Acaba o tesão?

Diminui o entusiasmo, como em qualquer relação a paixão se transforma em amor maduro, quem já é maduro e está casado há bastante tempo sabe do que estou falando, pelo menos quem está bem casado. Se acabar o tesão você tem que procurar outra coisa pra fazer.

15- Quais ensaios fotográficos feitos a trabalho te deram mais prazer?E quais você sabe que foram bem feitos mas, intimamente, você entendeu ou que poderiam ser melhores, ou que de fato o potencial do assunto não foi totalmente explorado (seja por você mesmo ou porque o direcionamento do cliente atrapalhou)?

Um dos trabalhos mais legais que fiz foi a documentação das obras de construção de uma casa, na 1ª fase fotografei a demolição de uma antiga construção que havia no local, esta parte foi toda feita em PB com MF, entregamos uma caixa portfólio com cópias PBs em papel fibra com passepartout, na 2ª fase mesclei fotos PB e Cor, foi um trabalho que durou 2 anos, feito com muito cuidado e extrema liberdade.

Há um ano fiz umas fotos de alianças que me deram um trabalho danado no tratamento, tudo porque o cliente não quis me enviar as peças reais, me mandou amostras de bronze banhadas a ouro, poderia ter ficado muito melhor. Fiz este trabalho para a agência de um aluno, eu discuti bastante este assunto com ele, não por acaso nunca mais ele me contactou para fazer algum trabalho.

16- O sistema digital popularizou a fotografia e massificou a mídia … parece que vemos surgir no cenário uma nova mania que são estes gadgets e aplicativos para celulares que instigam a população ao ato fotográfico, além das compactas (parece que todo mundo tem uma hoje em dia).
16.1- O que você pensa a respeito de aplicativos como o Instagram e de movimentos como a Lomografia e afins?

São modismos e por isso tendem a desaparecer, estão intrinsecamente ligados a tecnologia, no caso da Lomo a baixa tecnologia, que os permite existir, no caso específico de Instagram vai desaparecer mesmo, porque aparelhos celulares são feitos para durar pouco mais de um ano, e já já criarão outro aplicativo e a febre desaparece, se ao menos servir para instigar algumas pessoas a praticarem a fotografia de maneira mais profícua, terá servido pra algo pelo menos.

16.2- É possível construir uma linguagem, ou a popularização da fotografia pôs tudo num balaio e nivelou por baixo?

Nos anos 90 um colega fez uma palestra sobre uma exposição de retratos do Robert Doisneau, em dado momento ele disse que o “Minilab tinha popularizado a fotografia, mas não a linguagem fotográfica”. Sinceramente eu penso que temos de parar de ficar com essa história de querer que todo mundo tenha consciência sobre o ato fotográfico, a maioria das pessoas quer fotografar para “eternizar” um momento, um lugar, uma pessoa, um animal de estimação e é só isso mesmo, quem tem que ter consciência sobre isso são os fotógrafos, pensadores e quem assim desejar, vamos pegar a música que é um exemplo bem fácil de entender, a música de massas que se faz no Brasil hoje em dia é muito ruim, de uma obviedade extrema nas letras e melodias, mas num dia desses peguei um ônibus e estava tocando uma música com aquela clássica história do cara que deixou a família no interior e veio morar na cidade grande, letra e melodia óbvias, e uma história que não me toca, mas eu tive um insight e compreendi a força que aquela música tinha para um cara, como muitos neste país, que viveu aquela mesma história, então é muita babaquice querer que tudo tenha esse viés intelectual, vai ter para quem buscou isso, para quem não buscou vai na base da emoção e estamos conversados, tem gente que pensa e tem gente que simplesmente vive.

17- Estabelecendo uma cronologia de modo superficial, temos:
Chapas, MF, filmes pb, filme cor, sistema digital de 0,3 MP e hoje em dia de 24 MP …
O avanço da fotografia é rápido e em um curto período de tempo saímos da pré-história para o mundo atual.
17.1- Consegue visualizar onde isto vai parar?O que vem por aí?

Foram mais ou menos 150 anos num sistema que sofreu quase nenhuma modificação significativa em sua essência, e uma linguagem construída ao longo de 40.000 anos de história, aí vem o digital que é uma coisa totalmente diferente do ponto de vista técnico, então a piração maior para mim está no fato que tínhamos tecnologia e linguagem fundamentadas, quebramos o paradigma tecnológico, mas continuamos com o background da linguagem, estamos tentando juntar uma tecnologia que está no começo de sua história com uma linguagem que tem cânones já bem estruturados. Tudo isso num panorama histórico de uma velocidade absurda, em uma década deste século vivemos revoluções comparáveis a quase todo o século 19. O que vem por aí eu não sei, mas tem muita gente agora mesmo pesquisando para construir esse futuro.

Voltando ao assunto dos aplicativos como Instagram, ele é um puro reflexo do nosso tempo, ele reflete a velocidade que foi impressa as nossas vidas, o Instagram existe porque as pessoas querem fotografar, mas não querem esperar para chegar em casa, ligar o computador, descarregar e tratar a imagem, elas querem fotografar e enviar automaticamente para alguma mídia social. Portanto a velocidade que Felippo Marinetti pregava no seu manifesto Futurista de 1910 não passa de uma carroça se comparada a velocidade das coisas hoje em dia

18- Ao mundo e/ou a nós como seres-humanos emocionais, qual o legado da fotografia?

Se você pensar que a grande parte das pessoas vivas e que estão vivendo no meio urbano, já nasceram num mundo onde a cultura da fotografia estava bem arraigada e que ela permeia todas as mídias existentes, eu penso que ela instaura um olhar que é diferente e quem não é fotógrafo(amador ou profissional) e não pensa sobre não se dá conta disso, mas tem seu olhar completamente influenciado por ela. Para mim o legado da fotografia é imenso e é um dos elementos que molda nossa sociedade, para o bem e para o mal, desde as imagens denunciativas de violências e tragédias até a evasão de publicidade produzida pelo binômio paparazzi/celebridades.
A fotografia nunca deve ser analisada como um documento ipsis literis de uma época, mas como um documento da forma como se pensava e como determinada época queria ser retrada, quer seja pelo olhar crítico, quer seja pelo olhar hedonista, ou seja, não atribua a fotografia um tom de realidade que nada tem, afinal de co ntas como diz um ditado indiano:

“Tudo é maya.” – (maya = ilusão).

Rogério,

Foi uma das entrevistas mais bacanas que eu fiz.
Primeiro pela sua inteligência, algo que eu sempre percebi em seus comentários e participações no BrFoto e acabei de confirmar neste bate-papo tão agradável; poder explorar isto é admirável e bem prazeroso.
Segundo pela sua cultura e por você discorrer tão bem em assuntos tão variados, tronando a entrevista dinâmica sem ser sacal.

Acho que nós fechamos um ciclo quando percorremos caminhos tão diversos e tão pulverizados de forma tão elegante.
Queria te agradecer pela oportunidade e pela paciência em responder as perguntas, muito obrigado mesmo.

19- Gostaria de acrescentar algo que ache que não ficou bem esclarecido ou alguma pergunta que não tenha sido feita e você queira falar?

Fique à vontade.

Eu quero acrescentar que para mim a qualidade mais importante para quem deseja se tornar um fotógrafo é a curiosidade, ter uma chama que o impulsione em direção ao conhecimento, tudo mais será consequência disso.

A você Peri uma sincera felicitação, pois foi muito prazeiroso ter respondido as suas perguntas, fico muito envaidecido pelos seu elogios, mas sem boas perguntas não há entrevista boa, é como no teatro onde se o texto não for bom, nem o grande ator resolve. Você soube encadear temas muito interessantes e que fogem do específico da fotografia, mas ao mesmo tempo tb falam a fotografia, porque são coisas da vida, e no meu caso vida e fotografia se confundem e não saberia dizeraté que ponto vai uma ou outro.

Ganhei um amigo na internet
Abraços.

Em foco: Trotatorres (Leonardo Azevedo)

1- Fale um pouco de você e nos apresente uma foto sua para que possamos conhecê-lo melhor.

Tudo bem Peri? É uma honra ser convidado por você para essa entrevista, obrigado mesmo. Começou logo com uma pergunta difícil, me sinto um pouco desconfortável pra falar de mim mesmo, mas vamos lá.

Leonardo, 33 anos, casado com minha amada Clarisa, sem filhos (por enquanto), graduado em direito e trabalhando atualmente no Ministério Público Estadual aqui do Rio. Bem, essa é a parte básica e formal, agora falo do que realmente sou e o que formou minha forma de fotografar e ver o mundo.

Interesso-me por muitas coisas além da fotografia, vivo na cidade mais gostosa que há pra se viver, amo remar em suas águas, pedalar por suas montanhas e fotografar suas paisagens.

Contudo, meu atual e creio que principal interesse é a filosofia oriental, focada no Budismo. Aliás, gosto de pensar que sou um “zen-fotógrafo-viajante”, sendo um completo apaixonado pelo nosso planeta e suas regiões naturais.

Tenho verdadeira devoção por viagens e elas são o que realmente me movem e alimentam a minha alma e, imagino, ou gostaria fosse assim (risos), tais coisas tem grande influência na forma como fotografo.

Esta do ano passado, numa viagem de bicicleta, estou acampado em peulla, a meio caminho entre Chile e Argentina, também na Patagônia.

2- Como e quando surgiu esse seu interesse pela fotografia?Vc se lembra de seu 1º equipamento fotográfico?

Meu real interesse pela fotografia devo a meu tio Luli, que lá pela década de 90 me apresentou sua canon f1 com sua 50 f1.4 e umas apostilas com conceitos básicos de fotografia.

Aquele visor gigante e claro me fez querersair por ai fotografando e foi o que eu fiz em 97 pela Bolívia e Peru, também influenciado pelo tio Luli, que tinha feita mesma viagem lá pelos 80… mas agora eu já portava minha própria canon EOS 500 presenteada pelos meus queridos pais. Foram uns 10 rolos de pro-image, um tri-x e um cromo que não me lembro. De lá pra cá não parei mais.

3- Seguindo os passos de teu tio, e incentivado inclusive por teus pais, o que eles pensam hoje em dia quando veem este caminho que vc vem seguindo?

Na verdade acho que não aguentam mais assessões intermináveis de fotos depois que volto das viagens, rsrsrrs é que tenho que explicar cada uma né…rsrs … brincadeira. Eles curtem esse “suposto” despojamento das minhas viagens. Meu pai curte muito um conforto e minha mãe gosta de qualquer foto que eu faça. Dei pra ela um foto livro da Bolívia e mais parecia que estava expondo em Milão…ela adorou.

4- Pelo seu relato, Leonardo, o prazer de viajar e retratar isto está impregnado em você.
Gostaria que vc contasse algumas passagens interessantes, mesmo que sejam perrengues, destas suas incursões mundo afora.
Se puder, inclua algumas fotos para nos situar melhor nas histórias.

Não sei realmente qual o processo mental que leva as pessoas à terem as melhores recordações dos momentos mais difíceis…pelo menos minhas grandes memórias fotográficas foram em situações um pouco mais difíceis…

Me recordo de uma viagem que fiz em 2007 pra fotografar a região de el chalten,Patagônia Argentina, em pleno outono. Foram dia gelados e paisagens outonais de tirar o fôlego. Depois de uma longa viagem de avião pra Buenos Aires – Elcalafate e depois ônibus pra El Chalten, meu primeiro destino no parque era Alaguna Capri. Parti sozinho com uma mochila enorme nas costas, dois sacos de dormir, barraca, câmera digital e de filme e comida para uns 4 dias…depois de muita caminhada sobre neve congelada cheguei naquele lugar fantástico, e absolutamente vazio, muito diferente do que acontece no verão. Passei o dia fotografando até o cair da tarde, gelado e na companhia de uma garrafa térmica com chocolate.

Não posso deixar de mencionar outra viagem à Patagônia, essa em companhia do Flávio Varricchio (maui) em outubo de 2009, quando fomos tentar dar a volta completa no maciço Paine no parque Nacional Torres del Paine (Patagônia Chilena) e claro, fotografar. Dos 12 dias de caminhada, 11 foram de tempo de ruim a péssimo, com neve em quase todos eles. Claro, sem esquecer-se da mochila contendo, além de material básico de camping, um corpo de câmera, 3 lentes, 5 baterias, filtros, tripé e comida pra duas semanas.

Com 32kg sobre as costas, muitos kms caminhados com um enorme esforço, fomos forçados a dar meia volta devido à neve, isso depois de 2 noites aguardando o clima daruma trégua. Por sorte encontramos nosso “ônibus mágico” (em referência ao ônibus onde Cristopher Maccandless, personagem real do livro na natureza selvagem, passou o inverno sozinho no Alaska), que na verdade era um refúgio com duas camas e um fogão à lenha.

Foto: Flávio Varricchio.

Foram dias bem solitários e totalmente dedicados à fotografia e à contemplação silenciosa….isso quando eu e o Flávio não estávamos comentando o que comeríamos quando voltássemos à “civilização”, hehe.

Depois destes dias de gelo, voei diretamente de Punta Arenas para Santiago – onde encontrei outro amigo – e Ilha de Páscoa, que lembro a todos, fica na Polinésia…bem, chegando lá o fenômeno el niño tinha feito um estrago com o clima, e foram 6 dias de chuva quase ininterruptas…haha meu sonho polinésio de praia não se concretizou, mas pude fazer fotos de que gosto muito.

5- Trota, e a Clarissa nesta história toda?
Te pergunto isto porque eu também tenho minhas preferências e muitas vezes sou, confesso, um pouco egoísta com elas.E minha esposa sempre me apoiou em tudo que faço, de modos que sei a importância de termos ao nosso lado alguém a nos apoiar nestas “maluquices”.
O espaço fica a seu inteiro dispor para, inclusive, render uma homenagem … ou uma declaração de amor … – risos

Conheci uma pessoa fantástica e me casei com ela… e minha sorte (talvez não tenha nada a ver com sorte, rs) é termos nossos interesses e visão de mundo muito semelhantes…nisso incluído nossa paixão por grande viagens, travessias, remadas, longas pedaladas…e não somente quando estamos nelas juntas, pois, quando não podemos juntos, Clarisa faz questão, quase me obriga a ir, mesmo que sozinho, pois ela sabe que isso me completa,faz de mim o que sou e o que quero ser…e a amo por tudo que ela é, pelo que ela abriu mão para estarmos juntos e pelo seu desprendimento e ausência de egoísmo…

Clari, te amo.

Parabéns pela esposa que tens e pelo apoio que ela lhe dá, isto é muito importante pra gente encarar esta pedreira que é a vida hoje em dia.
E uma belíssima declaração sua, com imagens muito bonitas dela.

Fazemos aqui um pequeno adendo para ouvir também a Clarissa, esposa do Trota e uma de suas grandes incentivadoras:

5- Clarissa, acabamos de ler uma bela declaração de amor do Leonardo e dá claramente para perceber o respeito, admiração e interação entre vocês.
Como é participar e compartilhar, além da vida em comum, das mesmas preferências e gostos?

Além da sorte de conhecer-nos em meio a uma viagem, nos confins da Bolívia, éramos muito jovens, desta forma acabamos moldando nossas preferências, hobbys, paixões,um em função do outro. Já éramos parecidos no nosso jeito de ver o mundo então, não foi difícil.

6- Você acha que esta convivência é facilitada em função disto?
De que forma a fotografia se insere na vida de vocês dois, o que ela trás de positivo e, também, por que não, negativo?

Facilita sim, mas não é o suficiente.

Acredito que confiança é fundamental. Aprendemos isso com de forma bem prática, poisnamoramos a distância por longo tempo.

Creio que baseados nisso temos um relacionamento respeitosocom relação à individualidade de cada um, deixando totalmente à vontade a outrapessoa…isso incluindo as viagens,fotografia, etc…

7- Creio que você participa destas aventuras junto com o Léo, que lembranças legais você poderia nos contar como curiosidade?Se possível inclua algumas imagens.

São tantas….a mais “curiosa” que eu me lembro agora foi uma caminhada que fizemos em 98 em torres del paine, na patagônia chilena. A caminhada poderia ser classificada de exigente, o clima é totalmente instável, chove, venta muito, etc…e são muitos e muitos kms, uns 70 eu acho. E fomos munidos de calça jeans, tênis de passeio, o Léo com um suéter de lã e blusas dea lgodão, eu não muito atrás em termos de equipamento…os sacos de dormir eram pra praia e a nossa barraca era uma capri, dessas que se compram em supermercado…ruins até pra acampar no quintal! Rsrsrrs pela noite ventava tanto que tínhamos que encher a barraca com pedras e amarrá-la em arbustos com o cadarço dos tênis…acabamos a caminhada depois de 6 dias são e salvos e definitivamente apaixonados pela patagônia, onde voltamos diversas vezes (o Léo mais ainda, se tornou um fanático).

Não tenho nenhuma foto dessa viagem digitalizada, infelizmente….então destaco três de uma viagem à patagônia em 2004, onde passamos 17 dias caminhando pelo Parque Nacional Los Glaciares, na região de El Chalten (Argentina).

Foram lindos dias, onde nossa barraca era nossa casa e nossos sacos de dormir nossas camas:

Passamos o natal acampados aos pés do monte Fitz Roy, essafoi nossa árvore de natal…rs

mas qualquer cansaço valeu à pena com paisagens como essa:

8- Trota, você vem falando sobra a sua quase necessidade em viajar e retratar todos estes lugares lindos que as imagens mostram.
Mas, curiosamente, você é residente de uma das cidades mais lindas do mundo, o Rio de Janeiro.
Já passou pela tua cabeça que você nem precisa ir muito longe para ter imagens magníficas?
Ou o costume de viver aí no Rio já te “cegou” para as maravilhas que a cidade oferece?

Agradeço todo santo dia por viver no Rio e nesse cantinho mágico que é a Urca…seja quando saio remando antes do sol nascer pela baia de Guanabara, seja voltando à pé do trabalho vendo as luzes do final de tarde pintarem o corcovado, os barquinhos na enseada, o pão de açúcar…

Aliás,quando se mergulha de uma canoa havaiana às 6:30 da manhã na “boca da barra” (passagem da baia de Guanabara com o mar), não há como não se pensar, ou mesmo ter certeza, que vivemos num planeta magnífico e temos que aproveitar cada minutinho que temos nele. (desculpe o clichê, mas além de pensar nisso, eu sinto).

Quanto à fotografia do Rio, tenho fases…fases das longas exposições noturnas em PB,fase dos retratos à beira mar, fase dos nasceres do sol….mas não possuo um trabalho mais consistente, não me dedico realmente a retratar algum aspecto da cidade. Recentemente ando fotografando mais com os olhos do que efetivamente coma câmera (risos), tenho visto cenas espetaculares, mas sem a câmera na mão…de qualquer forma, creio que são assim que as fotos surgem, não?

9- Seguindo na mesma linha da pergunta anterior, nos mostre algumas fotos de sua cidade natal que você tenha feito e que você entenda e pense que são imagens que lhe dão orgulho de ser um carioca da gema.
Nos mostre, se possível, que o Rio de Janeiro é realmente a “cidade maravilhosa”.

Vou tentarmostrar algumas fotos, divididas por “estilo”, em geral feitas aqui pelo bairro mesmo. Poxa, mas a enseada de botafogo e a urca são o Rio…as partes da cidadeque formam o que se imagina ser o Rio…o Rio imaginário, sem as grandes mazelasque ele possui.

” Recentemente ando fotografando mais com os olhos do que efetivamente coma câmera (risos), tenho visto cenas espetaculares, mas sem a câmera na mão…de qualquer forma, creio que são assim que as fotos surgem, não? “ – Leonardo Azevedo.

10- Não acha um pouco frustrante? – risos

Definitivamente não…simplesmente aceito a minha condição de “não portador no momento de uma câmera” e sigo em frente, muitas vezes bem rápido pra pegar a câmera em casa (risos).

Na verdade, me frustro fotograficamente quando não consigo colocar em prática uma foto da forma que a imaginei, me explicando melhor, quando não consigo traduzir na foto a imagem que gostaria de ter feito.

E agrego, sempre por culpa minha, esquecendo a carência de um equipamento que por ventura não tenha no momento, até porque, não poderia imaginar uma foto que não poderia ser executada com o que tenho à mão no momento.

Recordo-me, também, de algumas outras frustrações, mas agora por excesso de equipamento … lembro de uma viagem que levei uma DSLR digital, uma Nikon FM e uma Rolleiflex, acabei não fotografando direito com nenhuma das câmeras…

11- Trota, quais suas influências na fotografia e por quê?
Destaque algumas imagens destas pessoas que você considere importante para seu aprimoramento e/ou desenvolvimento, seja de linguagem ou até mesmo pessoal.

Peri, poderia citar centenas de fotógrafos, famosos ou não, mas vou me restringir a um punhado ou menos deles…

Vou começar por um bem conhecido nosso, que já desponta no cenário da fotografia de paisagens no Brasil, o Flávio Varricchio (maui). Aprendi muito, mas muito com ele e sigo aprendendo. Perseverança, dedicação, conhecimento absoluto das ferramentas que necessita para a fotografia que ele faz e talento, sensibilidade.

Apesar de já ter lido frases dele, no sentido que sua fotografia é muito técnica e descritiva da paisagem, eu discordo, pois muitas de suas fotos possuem grande carga de emoção…vou tentar postar algumas que exemplificam isso…


Laguna Capri, Parque Nacional Los Glaciares, Patagônia Argentina por Flávio Varricchio.


Cachoeira Véu da Noiva, Petrópolis, Parque Nacional da Serra dos Orgãos-RJ, por Flávio Varricchio.


Escalavradoe Dedo de Nossa Senhora entre as nuvens, Parque Nacional da Serra dos Orgãos -RJ por Flávio Varricchio.

E é bom que lembremos, o Flávio foi entrevistado também – Em foco: Flávio Varricchio(maui)

Um fotógrafo que admiro muito e possui grande influência no que quero pra minha fotografia é o Michael Kenna, com suas profundas e simples longas exposições em Pb…fotos tocantes, composições simples e muito emocionais. Adoro suas fotos.

Não posso esquecer o Nanã Sousa Dias e sua fotografia “marítima” da costa portuguesa, que são absolutamente inspiradoras…tanto por suas composições, quanto pelos tons fantásticos de cinza que ele consegue em suas fotos:

12- Hoje em dia vemos que toda a informação importante (e nos diversos assuntos disponíveis) vêm aos poucos convergindo à Internet.
Um bom exemplo disto é a extinção da edição física do Jornal do Brasil, um dos periódicos mais importantes deste país.
Seguindo esta linha, qual a importância que você percebe da Internet hoje em dia na fotografia?
E que importância você confere a fóruns e/ou listas de discussões neste processo?

A internet transformou de forma brutal a relação que temos com a fotografia e as fotos em geral e toda essa transformação, e o meu sentir, foi pra melhor. Pense no acesso que temos hoje à obra de qualquer fotógrafo, seja profissional ou amador. Pense na interação, troca de experiências, técnicas e aprendizado, tudo ao alcance de um teclado nos diversos fóruns de discussão.

Meu acesso à técnica fotográfica e informações fotográficas em geral, quando comecei a fotografar na década de 90 eram a revista fotografe melhor e as revistas National Geographic e caminhos da terra, estas duas últimas onde se podia ver, aprender e admirar fotografia de paisagem de boa qualidade.

E hoje? O acesso é infinito, basta querer e pesquisar.

13- Se realmente existe, qual é a mágica da fotografia para você?

A mágica fotográfica existe na medida em que ela me serve de estopim para estar e ir aos lugares que amo, fazendo as coisas que amo.

14- Léo, apesar de quase óbvio, por que “trotatorres”?De onde vem e o que significa este nick?

É simples e quase decepcionante a resposta, rs. Em 2001 fiz uma longa viagem pela patagônia pra fazer trekking e montanhismo. Na volta resolvi fazer um site com informações sobre as montanhas e trilhas da região. O primeiro nome para o site era trotramundos, mas já existia no HPG (servidor que na época oferecia gratuitamente a hospedagem), então substituí o “mundos” por torres, devido ao parque nacional TORRES del paine. Dai em diante passei a adotar o nick trotatorres somente como forma de divulgação deste meu site (já extinto). Simples né…

É … -risos.
Como eu tinha dito, simples e óbvio … mas eu não poderia de perguntar.
Realmente as imagens do Flávio são belíssimas e retratam bem o estilo de vida que ele resolveu levar.

15- Trota, andei olhando seu Flickr e me deparei com este álbum sobre o Caminho de Santiago:Camino de Santiago.

Abaixo algumas fotos do álbum como aperitivo:

Todos que fazem o caminho falam em revelações, em passagens, em experiências, etc.
Que coisas legais você poderia contar sobre esta aventura?

Essa era uma viagem que eu tinha na cabeça desde a infância, passando pela juventude, quando eu e a Clari passamos a pensarmos nela já como um sonho do casal…e felizmente, já adultos, conseguimos finalmente colocarmos os pés nessa estrada.Então, quando começamos a subir os Pirineus, ainda na França, aquilo era quase que irreal, algo pensando durante mais de uma década…foi uma sensação estranha caminhar aqueles primeiros kms…

O caminho de Santiago é quase que um sonho, uma grande suspensão de tudo. Você não faz nada durante um mês, que não seja caminhar pelo menos 25 kms por dia, atravessando um pais inteiro em direção à uma Igreja, do outro lado de uma península…é uma viagem pela história da Espanha, suas pessoas, vinhos,comidas…uma verdadeira jornada épica (haha).

Você perguntou por momentos, poderia lembrar de muitos, nossa entrada na praça do Obradoiro (a praça da catedral de Santiago), ao som de gaitas de fole, poderia lembrar das noitadas com cantoria ao lado dos Catalãs, mas algo realmente nos marcou foi um encontro com pequenos estudantes, voltando pra casa no final de uma tarde.

Estávamos na província de Rioja, já tínhamos caminhado pelos menos uns 25km e ainda faltavam uns 5.As pernas mal respondiam, os pés doíam demais, quando em um caminho de terra entre dois povoados, cruzamos com uma turma de crianças de uns 10 anos andando em fila indiana…um começou a dizer “buen camino” (expressão de incentivo muito comum no caminho, quase todos o dizem quando cruzam com um pelegrino, moradores, outros pelegrinos…), e foram-se seguindo os “buen camino”, até que se tornou quase uníssono, todos gritando!

Cara, meus olhos me se enchem d’água pensando naquele momento…aquilo nos deu uma força descomunal e chegamos com facilidadeao destino.

Puxa que barato isto, e lendo sua resposta me vem uma pergunta inevitável:

16 – Você acredita em Deus?Ou algo neste sentido?
E, se não acreditava, alguma coisa mudou a partir do momento que você fez a caminhada?

Peri, tá querendo me colocar numa enrascada hein … -rsrsrsr.

Penso nesses temas há pelo menos 20 anos, com nenhuma conclusão concreta, claro…. Aliás, quem tem?

Tento apenas levar uma vida tranquila, de compaixão, fazendo o bem e tentando entender a coisa toda…mais que entender de maneira formal, sentir e coisa toda, pois definitivamente a existência não é passível de entendimento como concebemos de forma racional

17- Alguma passagem no caminho em que você possa citar em que sentiu a presença Dele?
Ou não houve nenhuma experiência tão reveladora assim?

Não não…talvez na missa em homenagem aos Peregrinos (é realizada todos os dias uma missa ao meio dia em homenagem aos Peregrinos que chegaram à Santiago naquele dia, citando os nomes, País e local de onde começaram o caminho), ao mentalizar todas as pessoas que amo e pedir por elas, tenha sentido uma elevação… sei lá, mas credito isso mais que nada à emoção da chegada, as recordações daquele mês inteiro caminhando, etc…

18- Trota … ” o tempo destrói, cura, amacia…. ” ??? Por quê ???

Atribui-se tal frase a Buda, que teria dito aos discípulos: “ O que eu vos ensinei é comparável às folhas em minha mão, o que eu não vos ensinei é comparável à quantidade de folhas na floresta. ”

Qualquer coisa que eu disser aqui, creio eu, não fará sentido pra ninguém…. aliás, nem me lembro que escrevi isso … hahahahhaha

Você escreveu há pouco tempo aqui mesmo no BrFoto, mas não me recordo agora qual o tópico … por isto a provocação. – risos

19- Trota, achei um barato este bate-papo, descontraído e num ritmo muito agradável.
Alguma coisa que você ache que não foi perguntado e gostaria de acrescentar?

Gostaria de agradecer sua iniciativa com essas entrevistas que promove aqui e no digiforum, onde podemos conhecer um pouco mais dos colegas de forum, sua forma de pensar e o que move a fotografia de cada entrevistado.

Aliás, creio que foi o Ivan de Almeida quem disse isso – “cada um fotografa o que é”, … não tem como fugir.

Abraços, e muito obrigado pela paciência pra esperar minhas sempre atrasadas respostas.

Na verdade o agradecimento é mútuo e aproveito para deixar também um agradecimento especial à Clarissa, que também topou dizer algumas palavras.

Em foco: peridapituba, por Marcos Borges Filho.

Entrevista que eu dei ao Marcos Borges Filho ao DigiForum na seção ‘Por detrás das lentes’ e reproduzida aqui.

1-Fale um pouco de você e nos apresente uma foto sua para que possamos conhecê-lo melhor:

Brasileiro, casado, 40 anos, formado em economia com pós graduação em economia de projetos, atuo no ramo do comércio, agronegócios e um pouco também na construção civil (construção de imóveis próprios para locação e venda).

Fotos minhas é igual a cabeça de bacalhau … todo mundo sabe que existe, mas pra ver … -risos

Aqui tem uma num momento em que fotografava minha cunhada trabalhando nas horas de folga.

2-Como surgiu esse seu interesse pela fotografia?

Não me lembro bem há quanto tempo surgiu.
O fato é que eu sempre fui o cara com a máquina na mão, em viagens com a família e amigos.
Claro, no começo não era algo que eu me importava e nem algo que tivesse noção de ser uma atividade de importância, mas era algo rotineiro eu “ficar com a máquina”.
Lembro também que eu sempre comprava revistas por causa das imagens, de ver as fotos.
Hoje em dia com a importância que a fotografia ocupa na minha vida, reconheço nestas atitudes que eram apenas atos instintivos em um primeiro momento, que existia uma afeição à imagem, a produzir estas imagens.

Logicamente que quando se tem 10-15 anos isto não dura muito e as vontades se dispersam para outros canais, no meu caso os esportes, outro hobbie que sou aficcionado.
Mas o desejo então se voltava às imagens esportivas também, e as publicações que eu comprava então eram no mesmo sentido, ver fotos … lembro muito bem de sentar com amigos para ver determinadas revistas e
sempre reclamar: “poxa tem muito pouca foto aqui … que revista ruim …” – risos

Entretanto ainda não existia aquela análise mais sistemática e crítica das imagens no âmbito de construções de narrativas e mensagens, mas existia algo que talvez eu classifique como uma busca pelas imagens que me dessem mais emoções (o que traduz-se em sentimentos).

Eu via as imagens, gostava delas instintivamente mas não sabia o motivo … só iria descobrir isto anos mais tarde.

Quando comecei a trabalhar, com cerca de 15-17 anos, fui ser office-boy em um escritório de contabilidade do contador de meu pai.
Ao lado deste escritório existia um “foto”, que é como eram chamados os locais onde a fotografia na época eram tiradas e os serviços profissionais eram contratados … não me lembro o nome mas o dono do estabelecimento se chamava Toninho, um gozador nato.

E eu sempre ficava ali perguntando e rondando com uma pessoa chamada Marcelo (era o empregado do ‘foto’ e era meu parceirão) … me lembro também de quando surgiu o ‘motor drive’ para câmeras ditas profissionais na época.

Foi um frisson, todo mundo comprando os acessórios e instalando nas câmeras (ou trocando as câmeras antigas por novas já com o acessório), que agora não mais se passava o filme ‘no dedo’, a câmera que iria girar o filme para o próximo frame … me lembro de ir aos laboratórios ver algumas revelações, apesar de nunca tê-las feito.

Quer dizer … são lembranças de bastante tempo que me vêm agora e talvez desde esta época eu já tivesse um interesse mais profundo na fotografia, só que ainda não sabia disto.

Não sei precisar uma idade, mas talvez na passagem da infância para a adolescência já existisse alguma coisa, mesmo que muito incipiente e sem noção alguma de que existia este “algo”.

3-Qual foi teu primeiro equipamento?

Cara, não me lembro.
Talvez uma destas câmeras de filme que eram movidas a 2 pilhas e que todo mundo tinha.

O meu primeiro equipamento que eu comprei e tenho até hoje na área de produção visual foi uma filmadora JVC, onde eu sempre fazia alguns filminhos, principalmente em atividades esportivas.

Depois de muito tempo comprei uma Sony compacta, uma H5, que fiquei anos com ela fotografando de tudo o que vc possa imaginar.

De lua a quero-quero. -risos

Passei para uma Alpha 100, minha primeira dslr em que fiquei outros bons anos e há uns 3 anos atrás comprei uma Alpha 700 que tenho até hoje e me satisfaz plenamente.

Depois de muito tempo também comprei no e-bay uma câmera de filme, uma Minolta Maxxum 5, que ainda tenho lá em casa e de vez em quando ainda uso.

Neste meio tempo tive outras máquinas, mas era tudo muito esporádico e elas ficavam dando poeira e fungo em casa, e eu ia dando uma, jogando fora outra e etc … não era algo em que eu me importasse de verdade e que valesse a pena ter um zelo tão grande como quando a gente compra.

Agora um lance bacana foi há uns anos atrás quando o Pikyto [b]*[/b] me deu de presente uma Zenith 122 com uma Helios 44M7.

Esta máquina hoje foi mandada para um grande amigo que eu tenho em João Pessoa – PB. – risos

Fiz ótimas fotos com ela, algumas abaixo:

Esta do Mercado Municipal aqui de minha cidade, moro em Campos dos Goytacazes-RJ, a maior cidade do interior do estado em área territorial.

Estas 2 próximas em Búzios:

Como quase toda foto tem uma história, com esta quase acontece um incidente.
Tínhamos alugado (eu meu irmão e um amigo) uma casa num condomínio para passar a Semana Santa de 2007 ou 2008 … éramos os únicos estranhos lá, as outras pessoas eram todas proprietárias das casas
neste condomínio em Geribá.

Depois da praia fomos fazer um churrasco na área de recreação do condomínio e eu vi estas crianças brincando na piscina … estava c 2 câmeras, a Zenith e a digital.

Comecei a fotografar as crianças … mas como fotografava com a Zenith tive de chegar mais perto.

Cara … que merd* …
Uma das crianças viu e saiu fora, correu lá pra dentro de casa … na hora pensei : “Vai dar merd* isto …” … e voltei pro churrasco.

Não deu outra … c 1 minuto vem o pai de uma das crianças, passa pela gente e vai falar c o administrador do condomínio.

Saquei tudo na hora … quando ele estava voltando sozinho, cheguei perto dele e disse:

“Você é o pai das crianças?”
Sou.

“Olha, eu já imagino o que vc está pensando … queria te dizer que não fotografei tuas filhas … estava aqui fotografando meus amigos no churrasco e acho (??? – :mrgreen:) que tua filha achou que eu a fotografava e fotografava as coleguinhas dela … mas vou te mostrar as imagens que fiz.”

Peguei a máquina digital e liguei. :mrgreen:
O cara olhou,olhou e nada … Vc é fotógrafo?

“Sou” … com a maior cara de pau … tá fotografando o quê?
“Só uma confraternização com os amigos só nada demais… se quiser pode vir comer um churrasco com a gente …” – risos
Não precisa, fiquem à vontade … e desculpa qualquer coisa …
“Nada, cara .. tudo certo …” – risos

Quer dizer, tem horas que o bicho pode pegar geral se a gente não for safo.

Esta outra foi no mesmo feriado e eu dei de presente para meus amigos que tem casa lá.
Eles enquadrarm e puseram na sala de estar deles … fiquei amarradão de ver.
É uma foto que representa bem o local … simples, bucólico e de muito bom clima.

*– Acho que o Pikyto vai descobrir agora que eu dei a máquina que ele me deu … – risos

4-Qual foi tua trajetoria na fotografia até chegar ao estágio de amadurecimento fotográfico atual; e que fotografia sua, marca o início de sua maturidade fotográfica?

Trajetória ??? .. vc deve estar brincando, não tenho trajetória alguma.
Eu sou apenas um cara autodidata, que nunca fiz um curso de fotografia sequer e que aprendo dia a dia com os colegas e com meus próprios erros.

E que estudo muito.
Te diria que sou um excelente observador e que tenho certa facilidade em antecipar cenas e momentos, que são os pilares da minha forma de fotografar.

Eu não poderia precisar em qual momento eu saí de um”apertador de botões” para alguém que sabe o que está fazendo.
E isto não se trata de pretensão, mas de auto-crítica.

Hoje eu me encontro num estágio que sei o que quero, sei como fazer o que quero e tenho as ferramentas adequadas para isto em mãos, sabendo usá-las conforme o momento pede.
Com estas ferramentas sei jogar o jogo, porque a fotografia nada mais é que isto, um jogo.

Aprendemos técnicas e vemos outras imagens, mas se não conseguimos “entrar no jogo” nada acontece.

Para te dar uma resposta mais condizente eu não vou escolher uma imagem e nem um momento meu porque seria impossível saber, mas de um amigo que me influenciou demais (ainda influencia muitíssimo) e que vc conhece, o Ivan.

A minha fotografia mudou quando eu conheci o Ivan e passei a ver as fotos dele.

E o mais interessante, eu briguei tanto como Ivan, literalmente em palavras trocadas durante algumas vezes, que hoje em dia o certo seria ele me odiar.

Mas por algum motivo o Ivan viu em mim alguém em quem ele poderia “confiar” e passar dicas, que não foram muitas, diga-se de passagem.
E investiu nisto, não sei porque, talvez porque nós 2 (hoje tenho total consciência disto) darmos importância ao mesmo tipo de coisa.

Freqüentemente ele elogia minhas fotos e já me disse publicamente que se surpreende com os destinos (entenda destino aqui com a resolução dos problemas que o ‘pré-clique’ envolve) que dou as minhas capturas.

Como eu resolvo as questões que aparecem, é isto que ele quis dizer.

Sendo ele um cara que sabe muito de fotografia, e principalmente de composição (algo que falaremos adiante ) isto é algo que me satisfaz demais.

Certa vez ele me chamou de “Bresson campista” … risos … sabe o que isto significa??? Um cara do nível dele que viu em algumas imagens minhas algo que o surpreendesse a ponto dele falar isto.

O Ivan me ensinou a pescar (e me ensina a cada nova imagem que posta) … e eu tou aí pegando minhas traíras desde então. :mrgreen:

Qual a foto dele que me abriu os olhos?
Muitas e isto acontece até hoje, mas esta abaixo foi uma das divisoras de águas para mim:

Para quem olha não há nada demais.
Mas analise e veja que temmuita linguagem aí, muita coisa pra ser vista, desde a concepção da captura (a composição) até o momento decisivo que o Bresson tanto falou.


Autor: Ivan de Almeida.

Nas fotos do Ivan eu aprendi um caminho diferente e que muitos não percorrem, a fotografia familiar.
Aprendi que não adianta vc querer fotografar o mundo se antes vc não se voltar para si próprio, para os seus, para o que é realmente importante na vida … sua família seus amigos e as coisa que vc ama.

Fotografando constantemente minha esposa, meus pais, meus irmãos, meus amgos, minha afilhada, eu aprendo constantemente a dar valor ao que me cerca e consigo as fotos que faço, dando vazão a meus sentimentos.

E na verdade nada sai disto pois a fotografia sempre teve e tem algo de poético intrínseco nela … e apesar de não gostar de poesia escrita, gosto da “poesia visual”.

Gosto de transmitir isto nas imagens que faço … pelo menos é como tento fazer, sabe?

Com isto consigo imagens que me tocam muito, sejam por quem eu fotografei ou pelos momentos que consegui, como estas:

Minha esposa:

Minha afilhada com poucos meses de idade:

2 cachorirnhos na fazenda:

Uma cena na praia:

Uma outra foto com muito sentimento embutido:

Uma família, que mesmo com os percalços da vida dura do meio rural, permanece alegre com o simples fato de ter sido fotografada, de ter tido alguém que lhes desse o devido valor e respeito:

E disto também trata a fotografia, o respeito com quem fotografamos e a forma como usamos nossas imagens.

É por isto que eu critico tanto fotos de mendigos e não as faço (somente se houver um contexto muito amplo por trás das imagens) que são exibidas e mostradas como troféus em muitos lugares, inclusive aqui mesmo no fórum … são literalmente [u]exibidas[/u], e os autores então esperam ou louros de uma glória que não existe de fato, pois foram captadas em prol do sacrifício alheio.

Mas se a gente consegue de alguma forma passar sentimentos verdadeiros, como respeito, afeição, dignidade, entre outros, então podemos ficar contentes de que estamos num caminho legal.

Nem certo nem errado, porque isto na verdade não existe, mas em algum lugar que a gente possa prosseguir e saber que na hora exata o mundo vai nos ajudar, apesar dos pesares.

A fotografia não pode ser apenas o belo (e é onde muitos erroneamente se calçam), ela tem de ser antes de tudo o verdadeiro, o compromissado com a vida, o respeitoso … pois é disto que estamos tratando, da
vida.

E isto é muito sério para ser tratado com descaso ou em busca de reconhecimento próprio.

5- Já pensou em ganhar uma graninha com a fotografia, ou uma graninha a mais não é bom?

Pensar em já pensei, não vou te dizer que não, pois seria leviano de minha parte.
Mas a questão principal é: como?

Eu não gostaria de ser um profissional da fotografia, destes que fazem
casamentos, aniversários e etc … nada contra, mas não é meu perfil,
sou por demais tímido para entrar em uma cerimônia engravatado
portando uma câmera no pescoço como fotógrafo.

Apesar disto recebi sim alguns convites para fotografar festas, mas nunca aceitei, prefiro do meu jeito … fotografando sozinho e quando quero.

Então para não ser desta forma, apenas através de vendas de imagens em bancos de imagens ou em exposições ou algo do tipo.

Banco de imagem eu não mando minhas fotos, porque não confio e exposições, vernissages, etc … bem, ou se é do meio ou não se é.

É uma máfia, sabemos disto, como estou numa cidade de porte médio e onde estas coisas não são valorizadas e também não conheço um marchand para me ‘apresentar’ ao meio, babau, eu não vou nunca fazer dinheiro com fotografia … ao contrário, eu gasto é muito, pois imprimo muitas fotos e mando para os amigos e familiares.

Mandei aquelas das canoas para vc e para o Pikyto, mando sempre pro Ivan, mandei para a Lília Vinhas uma série legal de uns cachorrinhos e ela pôs na sala do ap novo dela … quer dizer, isto tem sempre um custo.

Ganhar $ dinheiro com fotografia?
Acho pouco provável no meu caso.

Uma vez eu tentei.
Uma firma de tratamento de água viu uma foto minha do Rio Paraíba do Sul no Flickr e pôs no seu banner de apresentação.
Depois me contatou querendo saber meu nome e tal’s para por os créditos.

Falei que não cederia de graça e rapidinho eles tiraram.
Estes caras querem tudo no mole … foi como disse a Sílvia numa pergunta parecida que eu fiz a ela.
Ninguém se importa como vc tem de fazer para conseguir sua produção, se vc tem de investir tempo e dinheiro, se vc tem de ficar vendo ângulo de captura, trocando lente ou fotometrando câmera.
Se eles puderem pegar no mole, vão pegar … o Brasil é o país dos espertinhos, quem não sabe disto?

Aliás, eu sou é explorado até. -risos
Uma vez eu fiz umas fotos de minha afilhada e dei de presente a meu irmão.

Vc sabe que a mulher dele descobriu onde as fotos estavam e foi lá no lab e mandou imprimir mais umas 200 pra dar de santinho no aniversário de 1 ano dela?

Fiquei put* da vida.
Não com minha cunhada, porque eu as daria sem problema algum e não iria cobrar nada … depois ela disse que não me pediu para que eu não gastasse mais com as imagens …

Mas com o lab, que não poderia ter feito isto e ainda lucrou com isto … na época não falei nada porque iria prejudicar a menina do
atendimento e foi algo que foi feito com minha cunhada e poderia criar um mal estar danado, então deixei rolar.

Agora imagine o que não acontece em maiores centros e os autores das imagens não sabem…

Além disto não sei se alguém pagaria pra ter minhas imagens, tem muita … muita gente com mais valor por aí.

O Eduardo Buscariolli, outro amigo que tenho, me disse para eu pendurar algumas fotos na praça da cidade … e eu lá tenho coragem de fazer isto?

Capaz até de eu ser apredejado – risos

O Julio Paiva me perguntou se eu estava expondo minhas imagens.
Falei que sim, cada imagem é uma exposição diferente dependendo da luz. :mrgreen:

Mas pra te falar a verdade eu não estou me importando com isto.
Eu não fotografo pensando no retorno financeiro que eu possa ter.

A fotografia funciona pra mim como um hobbie e como uma forma de expressão de minha vida e do que eu vivo diariamente.

6-O que te dá prazer em fotografar?

Tudo e nada.

Eu acho que tudo é fotografável quando se consegue imprimir uma marca visual própria e uma linguagem coerente com o assunto fotografado e o que se obtem como resultado disto.

Pensando então por este lado, tudo me daria prazer.

Antagonicamente, nada me dá prazer quando não estou disposto a fotografar.
Então posso ter cenas maravilhosas acontecendo em minha frete e dizer:
“Larga esta merd* pra lá … não estou a fim …”

O que dá prazer é vc pegar na cam e vir aquele sentimento que te deixa em transe quando vc põe o olho no visor.

O prazer está aí, para mim, no antes, na concepção.
Porque eu entro num estado de espírito tal, ou num transe, ou como se queira chamar, que não sossego enquanto não vejo a imagem pronta.

E eu te digo com certeza que meu prazer vai da captura à pós-produção.
Adoro tratar meus raw’s e vê-los tomando corpo diante de minha tela, é a realizaçao do trabalho, o fim de um ciclo que, se for bem feito, se transformará no prazer.

Podemos adiantar um pouco e falar dos assuntos que inspiram e trazem ainda mais prazer quando estamos dispostos.

No meu caso eu gosto muito de explorar cenas com pessoas, sejam trabalhadores, pessoas desconhecidas, retratos, cenas furtivas, cenas de cotidiano, o dia a dia simples de pessoas comuns, cenas familiares … etc

Claro que dentro destes assuntos sempre tem a forma de abordar cada um deles e isto também é uma fonte inesgotável de prazer.
Conceber uma imagem de forma correta, optando por composições e narrativas firmes e justas é também uma inspiração no meu caso.

Sou obcecado por isto, por composição, então tento adicionar esta obsessão nos assuntos que me inspiram a serem fotografados.

Me encanta quando tem gente … e quando tem gente, eu tô junto -risos

7- Nos apresente pelo menos duas fotos suas que te encantam, e qual a força dessas fotos?

Vou postar algumas das quais gosto muito.

Sem dúvida alguma uma de minhas fotos que eu mais gosto.
Além do envolvimento que tenho com o retratado (chama-se Juca e é o seleiro que faz alguns serviços para mim), tem toda a ambientação, o assunto muito interessante e os elementos todos contidos na imagem com muitos detales para serem vistos, além de uma luz linda, o foco cravado.

Esta é uma foto que tem um simbolismo muito grande por trás da imagem.
Há uma correlação entre as estavas em 1º plano e os cavalos ao fundo e tem o pb que deixa a mensagem ainda mais enigmática neste caso.
O 1º plano focado e o fundo levemente desfocado propositalmente.
É uma imagem que me remete a simbolismos, correlações e mistério.
Acho-a muito interessante.

Esta é outra que adoro.
Tecnicamente falando para mim é perfeita … em todo ponto forte da imagem tem informação importante para a cena.
Terços, diagonais, pontos áureos, cruzamentos de pontos chaves, todos explorados.
E tem o assunto muito fotogênico e muito bem ambientado.
Olha-se a imagem e nada precisa ser dito, tudo entendido e com uma técnica exata e precisa.

Mas é muito difícil escolher na própria produção apenas 3 imagens que gostamos … acho que esta é a pergunta mais capciosa das entrevistas feitas na seção.

No meu caso que gosto muito de fotografia e fotografo muito, me encanto por muitos detalhes em minhas próprias imagens e cada uma tem uma particularidade que gosto, seria impossível escolher apenas uma ou outra.

É uma imagem que gostei muito de fazer.

A força dela está na inocência infantil, na pureza de uma criança que transforma um ato quase obsceno (se fosse praticado por um adulto) numa poesia, numa imagem de admiração, alegria e curiosidade.

Será que alguma coisa neste mundo paga o registro de um momento como este?

A fotografia é como uma magia, parece até um clichê, mas é exatamente isto.

Até porque minha melhor foto é a próxima … estas não são as melhores, mas talvez estejam entre as que me deram muito prazer em
fazê-las.

Agora esta foi uma das mais especiais dos últimos dias.
Uma foto de street, um tema dificílimo de fotografar, com uma mensagem forte, um momento pleno e na hora exata.
Aliado à técnica o pb, que reforça a mensagem de forma sublime.
Eu simplesmente fico bobo comigo mesmo ao ver esta foto:

8- Quais suas influências na fotografia, e de que maneira esses
fotógrafos marcaram sua fotografia?

Acho que é impossível não falar dos clássicos como HCB, Cappa, AA, McCurry, Salgado, Dorothéa Lange, Thomas Farkas, Richard Avedon,
Ródtchenko, Elliot Erwitt, entre outros .

Para ficarmos no âmbito do DF gosto do Botelho, do Flávio Varrichio (oz), dos pássaros do Danilo e do Ed (apesar de pouco entender e não fotografar o tema), gosto do trabalho do Ed Galazzio que faz uma pós-produção muito boa, do Pablo Albino (apesar de ter tido uma rusga com ele que até hoje não foi desfeita, eu indiquei o nome dele como possível entrevistado na seção, e é uma pessoa que tem um trabalho bem consolidado), gosto muito das fotos do Edmar Ivo.

No clube Sony tem um cara que vem fazendo um trabalho legal, que é o Yubokumim, que eu carinhosamente chamo de Yubo-San (pois ele está no Japão).
Ele se beneficiou de uma técnica que eu uso, o UniWB, e vem conseguindo resultados excelentes fotografando com uma NEX e lentes
mecânicas adaptadas nela.

O trabalho dele, pelo que eu vejo, ainda não consolidou, mas te digo que é uma das surpresas que eu tive nos últimos tempos aqui dentro, como uma evolição espantosa em muito pouco tempo … além disto é um cara que eu me dou muitíssimo bem e eu vejo na fotografia dele muito da minha, é uma espécie de simbiose e que me estimula muito acompanhar.

Tem o Gabriel que deslanchou de uma hora pra outra.
Tem muita gente boa que não conheço também, ou talvez tenha esquecido.

Mas apesar disto eu vejo aqui dentro do fórum muito poucas pessoas desenvolvendo um trabalho sistemático de produção visual, com
regularidade que eu digo … ao menos nas salas onde ando.

Era pra ter muito mais disto pois aqui é um fórum de fotografias; uma vez fazíamos (um colega do clube Sony) uma estatística de quem postava mais … sim,eu estava nas primeiras posições – :mrgreen: – sou um compulsivo, vc deve se lembrar pela sala interna de fotos da Moderação que tínhamos.

Eu fotografo muito …

Freiras …

Fotografo dirigindo, na estrada …

Pessoas que vão em minha casa fazer serviços de carpintaria …

Quase nada escapa, então é natural que eu goste muito de ver produções
alheias … e como não vejo, acho ruim. -risos

Mas isto talvez seja apenas uma impressão minha tb … não sei … o Magoo, agora me lembro, é uma destas ótimas exceções, ele tb posta demais.

A nível próximo tem o Ivan, do qual fico bobo com as imagens que produz.
Agora mesmo ele chegou de viagem de NY e fotografou lá com uma compacta e em jpeg … quem o conhece sabe que ele detesta o formato e é uma das assumidades no formato raw a nível Brasil, tendo inclusive um blog ótimo sobre o assunto, o ABC da fotografia em raw.

Cara … tú tem de ver as fotos e o que ele fez com uma compacta …
Só fotografou bobagem, como ele mesmo diz, foi só brincadeira.

Mas a ‘bobagem’ que ele fez … putz, dá gosto de ver.

Então um cara deste adquire um nível tão alto na fotografia e tão rapidamente, e que se adapta de maneira tão singular e cabal a vários formatos. que é bom que deitemos o olhar nesta produção se quisermos aprender algo.

Tem o Alex M. de Souza, tem o Bucci … cara é muita gente … não dá para falar de todos, pois até corremos o risco de sermos injustos.

A fotografia de outras pessoas se incorpora na nossa (na minha também, claro) de diversas formas.

Dos clássicos pego muito de composição e neste quesito nada melhor que o Bresson.
Do McCurry pego muito da cor e dos tratamentos, dos retratos, da saturação forte.

Do Erwitt a forma simples de capturar cenas cotidianas e lançar isto ao observador.

Do Salgado o respeito ao próximo e a forma como ele idealiza um projeto fotográfico.

Claro, o meu nível é nada se comparado a estes caras e minhas limitações de tempo não me deixam me aprofundar ao ponto que gostaria.

Mas a gente vai pegando uma ideia aqui, outra acolá e vai incorporando à nossa forma de fazer.

E sempre de olho em novas coisas, porque a velocidade é muito grande hoje em dia e a renovação não para nunca.

Mas eu acho que a influência não vêm apenas de fotográfos consagrados que gostamos, mas de qualquer pessoa que esteja produzindo a um nível regular ou não.

Da lomografia ao estúdio, da fotografia de natureza à fotografia de cotidiano, da fotografia de polaroid ao médio formato … não importa.

O que importa é termos a mente aberta para aceitarmos a produção alheia e saber que ali pode ter algo “novo” que nos dê subsídios para produzirmos as imagens da maneira que gostamos e nos assuntos que nos interessam.

Com a quantidade de imagens produzidas hoje em dia em todas as mídias disponíveis (e aí pode ser orkut, flickr, multiply, facebook e os diabos) e câmeras aos borbotões brotando no mundo e à nossa volta, a influência pode vir de um ‘Bresson’ da vida ou de um menino de 3 anos … ou até de um macaco, por que não (já não fizeram experiências neste sentido)?

O que temos de ter em mente é que não importa quem produza, todos têm seu valor e devem ser respeitados por isto, e podem sim servir de influências a qualquer momento.

9- Nos mostre fotos de terceiros que te encantam, e qual a razão da força dessas fotos?

Eu me encanto com muita coisa e da mesma forma que a pergunta acima, é impossível mostrar apenas 2.

Aqui tem minha lista de favoritas do Flickr, mas mesmo assim vai faltar fotos pois tenho outros canais que não o Flickr e tenho predileção por muitas imagens.

Mas desta lista do Flickr vou extrair 2 para resumir.

Uma sua, esta abaixo (não é ‘fazer média’, a foto é mesmo especial):


Autor: Marcos Borges Filho.

É uma foto fantástica.
O olhar com um misto entre espanto e medo, o pb granulado fino, a opressão que as grades do berço promovem …

Mas só que é tudo uma fantasia, e por quê?

Porque a pessoa não está oprimida, não está com medo, não está presa … talvez tenha apenas se assustado ou se surpreendido com sua
presença.

Esta fantasia de ser o que não é, esta mágica de mostrar algo de forma diferente, esta atitude de fotografar é que me encanta e que me cativa.

A outra é esta:


Autor: R’eyes.

Por curiosidade este autor apareceu pouquíssimo tempo aqui no fórum, tempo suficiente para fazer um duelo na seção Duelos.
Acho que eu fui o único a votar na foto dele.
Fiz elogios rasgados na oportunidade e ele me adicionou no Flickr como contato, depois sumiu.

Adorei a foto.
Gosto da luz dourada, do contraluz, dos flares, da menina linda e super charmosa, destes óculos enormes no rosto dela, dos cabelos
cacheados realçados pelo dourado do sol.
Tudo me agrada, é uma imagem cativante para mim e de muito bom gosto.

As outras estão lá por motivos diversos … erotismo, luz, serem diferentes, coisas surreais, momentos delicados e surpresos, poética, composições justas, etc.

É difícil fazer uma análise padrão e apenas olhando-as novamente uma a uma eu poderia precisar o porque de cada uma delas agradar, cada pormenor eu posso falar, mas aí não haveria espaço no banco de dados do fórum.

Abaixo estão algumas imagens clássicas das quais gosto muito.
Creio ser desnecessário falar sobre elas em função do caráter que cada uma delas ocupa na história contemporânea visual.


Autor: Marc Ribould

Para finalizar 2 do HCB que simplesmente adoro e que não poderiam faltar:

E 2 do McCurry, outro de meus fotógrafos clássicos favoritos.

10-Vais em busca da foto ou a foto te encontra no meio do caminho?

As duas coisas.
Às vezes saio para fotografar, às vezes estou de bobeira e uma foto pinta na minha frente.

Não há regras e o bacana é isto, ser livre para escolher o que fazer e na hora que der na telha.

A única escolha quase pontual é estar sempre sozinho.
Não gosto de andar com outras pessoas e estou sempre só com minhas ideias.
Nunca fiz uma saída fotográfica, até porque isto não existe por aqui que eu saiba, aliás, li algo neste sentido sim dias destes.
Mas eu vejo estas saídas muitas vezes como tudo, menos como um compromisso c o fotografar de fato.
É um tira dúvidas, uma apresentação de marcas e modelos de cam, uma conversaria em torno de tudo … menos de fotografia.

Então prefiro ficar sozinho e assim seguir, além disto posso ficar mais concentrado para conseguir o que eu quero.

Veja bem, não condeno as saídas fotográficas (vejo umas paradas bacanas do pessoal em SP que fazem muito isto), mas apenas é algo que não se encaixa com o meu estilo de ser.

Mais de 3 pessoas juntas pra mim já é bando. -risos

11- Gosta de ser fotografado, ou em casa de ferreiro o espeto é de pau?

Definitivamente não.
No meu caso casa de ferreiro, espeto de pau.
Não me acho nem um pouco fotogênico.
Entretanto não me importo de me fotografarem, mas como gosto de imagens não posadas e tiradas espontaneamente preferiria que fosse
desta forma.
Como no meu círculo de amigos e familiares não tem ninguém que fotografe com a mesma regularidade que eu, fica mais dificil de se
conseguir imagens minhas.
Se me pedirem para posar então … fica uma bost*, tenho plena consciência disto.

Tenho esta minha também, feita por mim mesmo. -risos

12- Qual seu equipamento fotográfico?

Corpo:

Sony Alpha 700, digital.
Minolta Maxxum 5, filme.

Lentes:

SMC Takumar 28/3.5.
Super Takumar 35/3.5.
CZJ Flektogon 35/2.4. -> tenho 2 iguais.
Mir 1b 37/2.8.
SMC Takumar 50/1.4.
Industar 50/2, 50/3.5.
Helios 44M6, 58/2.0.
Jupiter 9 85/2.0.

Tenho também 2 lentes digitais Sigma que vieram como ‘brinde’ quando comprei a câmera de filme.
Uma 28-80 e uma 80-300 que está com problema no motor de foco.
Ainda não vendi porque de uma hora pra outra minha esposa pode querer fotografar algo e como minhas lentes são todas fixas e mecânicas, ela pode se beneficiar de uma destas digitais.
Mas eu mesmo não as uso, apenas as mecânicas.

E não uso flash.

13- Como o equipamento que você usa influi no tipo de foto que você faz?

Influi de todas as formas possíveis.

A escolha de lentes claras em momentos onde a luz não é boa, de lentes mais wide para tomadas mais amplas, de lentes com distância focal próximas ou iguais a 50mm para retratos e/ou closes e por aí vai.

O fato de eu usar apenas lentes fixas me dá uma versatilidade de conhecimento que não se consegue facilmente usando lentes zoom.

Quando vejo uma cena que me interessa de antemão sei que lente por e como me posicionar para registrar, e isto é muito prazeroso.

As lentes zoom são uma mão na roda, não nego, mas elas muitas vezes ajudam aos fotógrafos a “não pensarem” muito antes do clique.

Eu penso demais antes de apertar o botão, e gosto disto.

Cada clique é um problema a ser resolvido, gosto disto e de poder dar soluções a estas questões, e isto sem dúvida alguma provêm da
influência que o equipamento que eu tenho em mãos promove.

14- Porque essa predileção por lentes mecânicas?

Sobretudo pela qualidade que me oferecem e ao baixo custo disto.
Sou um negociante e gosto de investir o menos possível e ter o melhor resultado possível. :mrgreen:

Eu nunca pagarei 1.000 – 1500 dólares numa lente, não tenho coragem.

Mas cada um é cada um e investe da forma que melhor lhe cabe.

E por todo o aspecto antigo e romantico que envolve a fotografia com lentes manuais e fixas.

Gosto de ver no visor as áreas entrando e saindo do foco, gosto de girar o anel de foco de forma macia e ver como se comporta a imagem, gosto de fotografar de maneira calma e consciente.

Meu estilo se adapta como uma luva ao formato “mecânico” e antigo da fotografia.
Mesmo quando tinhas lentes digitais eu usava o foco manual, sempre gostei disto e me adpatei de tal forma que hoje eu te diria que é
quase impossível voltar atrás.

Talvez em alguns momentos, por diversão, eu fotografe com uma lente digital ou uma lente zoom; mas se eu tiver fotografando à vera
certamente será com uma fixa e da maneira ‘mais manual’ possível.

15- Quais as grandes virtudes de algumas dessas suas lentes?

Cada uma tem a sua, mas sobretudo qualidade de imagem e retenção de detalhes como contrastes e micro-contrastes, nitidez abundante e uma apresentação visual que as lentes atuais não dão.

Gosto deste apelo visual que um vidro produzido há 30-40 anos mostra.
Nada se compara a isto para mim e eu, por enquanto, não vi isto em lentes modernas.

Digo lentes de preços acessíveis, não lentes como uma Summicron, por
exemplo, que pode custar até mais de US$ 8.000,00.

Aí já estamos falando de outro nível que nem compensa comentar.

16- Como você define uma boa foto?

Uma boa foto é sobretudo aquela que te toca, independente de que técnica há envolvida ou por quem foi feita.
Lógico, podendo-se unir as 2 coisas é bom, mas não necessariamente uma boa foto é a que tem a melhor técnica.

É difícil definir isto, pois são fatores subjetivos demais para serem rotulados, simplesmente não há fórmulas e ainda se envolve muito de gosto pessoal nestas escolhas.

Mas se eu pudesse mesmo definir o que é uma boa foto, seria aquela que lhe fala ao coração e à alma.

17- Porque, frequentemente, suas fotos não estão em harmonia com a estética apreciada pelo senso comum? Existe uma impossibilidade de uma interação entre a beleza aceita pelo senso comum e uma composição mais apurada?

Geralmente o senso comum e pessoas que não se dedicam ao estudo mais profundo da fotografia, mas que mesmo assim fotografam, buscam temas, digamos, esteticamente bonitos para suas capturas.

Fotografam flores, fotografam paisagens, por do sol, mulheres bonitas.
E nisto ficam a sua vida inteira fotografando temas e assuntos repetitivos e sem sair do lugar comum.

Isto é, na minha opinião, uma espécie de fotografia que tem seu valor, claro, mas que é passageiro quando vc começa a ir mais a fundo.

É como eu às vezes digo, a beleza não está no que é mostrado, mas da forma que é mostrada.

Para mim, seria muito simples chegar no Rio de Janeiro, por exemplo, deixar o sol ir caindo e partir para o Corcovado e fazer aquela imagem de cartão postal.

Seria uma foto feia, ou uma foto que sem valor?
Absolutamente que não … eu nunca diria isto …

Mas que desafio tem produzir uma imagem desta?
O que eu mostraria de diferente, uma vez que já é uma foto “pronta”?

O meu desafio é mostrar meu olhar sobre coisas incomuns, “feias” (entre aspas porque eu não acredito em assunto feio), diferentes e até desconhecidas mas de uma forma harmônica, para que esta estética não usual ganhe valor diante deste senso comum que vc diz.

Além disto, falando com toda a sinceridade, assuntos como por do sol, flores, paisagens lindas e deslumbrantes não me estimulam a
fotografar, simplesmente porque acho algo comum e que todo mundo faz.

Eu sou uma pessoa diferente por minha própria natureza, talvez isto explique o porquê de certas escolhas que faço.

Veja bem, eu não estou afirmando que não fotografo assuntos que se encaixam na estética do belo (abaixo uma foto minha que eu considero bonita), eu até os fotografo sim, mas o meu desfaio maior não está aí, nestas “belezas”.

Estes cenários não me estimulam * pelo simples fato de serem “fáceis” de fotografar e por não desafiarem minha capacidade de adaptação perante o que não está ligado a esta estética da beleza.

* Não me estimulam ao ponto de eu deter meu olhar sempre e apenas a estes locais, diga-se.

“Existe uma impossibilidade de uma interação entre a beleza aceita pelo senso comum e uma composição mais apurada?” – -Marcos Borges Filho.

Não, de forma alguma, ao contrário.

Mesmo quando se fotografa algo batido, algum clichê, algum assunto já fotografado à exaustão, existe espaço para uma composição diferente e um olhar diferenciado por parte de quem fotografa.

E isto deverá partir sempre de quem está ‘Por detrás das lentes’.
O fotógrafo deve sempre lançar seu olhar particular para as coisas que registra, e é este olhar o diferencial entre cada um de nós.

Uma prova disto é o caso particular de Ansel Adams que passou uma vida fotografando o parque de Yosemite com regularidade e conseguiu várias imagens belíssimas dretratando sempre o mesmo local … o olhar diferenciado dele e o estudo apurado e constante foi o mote para as imagens que produziu … então veja que é possível haver esta variação e diferenciação, basta estudo e empenho.

Mas, geralmente, quando falamos em senso comum as pessoas vão as mesmos lugares e repetem as mesmas fotos, dos mesmos locais, nas
mesmas posições e ângulos, sempre procurando o mesmo apelo estético de fotos que já foram consagradamente expostas, mostradas e aceitas em épocas/períodos anteriores.

E então têm-se uma avalanche de fotos de pessoas de braços abertos aos pés do Cristo Redentor, de imagens do Corcovado, do Pão de Açúcar, ponte estaiada em SP, das cachoeiras de Foz do Iguaçú e outros tantos lugares magníficos que existem no mundo.

Talvez isto sirva para eles como troféus, ou como uma mostra de que estiveram em tal lugar e fizeram uma foto idêntica à de Fulano de tal, que é um fotógrafo consagrado, entende?

Não há mal algum nisto, afinal somos pessoas únicas e diferentes em nossas motivações e gostos pessoais, mas definitivamente não é este tipo de imagem que eu busco fazer e nem busco esta estética que o senso comum tanto admira.

Em várias de suas composições, encontramos objetos, aos quais você chama de “desnecessários”; porém, muitas vezes estes objetos assumem, em suas fotos, o papel de protagonistas. Fale um pouco sobre esses objetos e como eles são incluidos em suas narrativas fotográficas?

Veja que o termo ‘desnecessários’ encontra-se entre aspas, o que lhe atribui um valor gramatical diferente do que o próprio termo quer dizer.

Na verdade quando coloco a expressão “desnecessários” o que eu quero dizer é o contrário (dentro de umcontexto de uma frase por exemplo, mas que aqui foi cortada), eles são primordiais em minhas composições e exprimem uma maneira muto particular de compor e de registrar cenas.

Como é sabido por você eu sou muito criterioso com todos os aspectos em minhas imagens, do que eu registro e da forma como faço isto.

Tudo o que eu mostro tem um motivo, qualquer foto que eu faça tem uma explicação detalhada de porque cada coisa está sendo mostrada, tenho esta consciência … mais uma vez reafirmo que não é pretensão, mas auto-crítica, e por causa desta auto-crítica desenvolvi um critério absurdamente obcecado com estas composições.

Um destes aspectos (os demais falaremos mais à frente) no qual sou enfático e intransigível é:

Eu não mexo uma palha do que a cena que está a minha frente me mostra.

Se tem uma vassoura na frente, por exemplo, eu não vou lá tirá-la da cena para fotografar.
Se tem uma garrafa pet, idem … não mudo composições e nem “arranjo” cenários.

Se eu for registrar algo, portanto,estes objetos aparecerão, mas entretanto eu vou dar meu jeito de deixá-los na cena de forma que eles agreguem na imagem que eu capturo.

Isto é ponto pacífico e é imutável na fotografia que faço.

Não condeno as pessoas que agem de outra forma, mas a minha é esta e ponto final, sem discussões.

Este termo surgiu e virou um mini artigo em meu WordPress depois de uma foto que mostrei em uma seção aqui no fórum e que aconteceu um tremendo bate-boca por causa de uma garrafa pet que havia no centro da imagem.

Poucas pessoas na ocasião entenderam a proposta.
Alguns poucos sacaram a provocação que eu tinha feito, outros mesmo não entendendo sabiam que existia uma intenção de minha parte no
registro e outros tantos meteram a lenha mesmo, sem dó.

Tranqüilo, isto não me abalaria porque tenho isto muito bem resolvido dentro de mim.

Esta é a foto em questão:

O que aconteceu na cena?

Minha afilhada pediu refrigerante e lhe foi dado um Guaraná.
Ela gosta mais de Coca-Cola e no momento que ela tomou ela não gostou e ficou brincando com o refrigerante na boca, tentando fazer bolhas.

A funcionária lá da casa de minha mãe pôs o copo abaixo, por prevenção, antecipando-se ao pior, mas nada aconteceu e ela acabou de
engolir o refrigerante normalmente, e que mais tarde foi trocado pelo que ela gostava.

Pois bem, a foto está aí.
O que foi capturado?

Uma intenção da criança, um cuidado e prevensão de uma pessoa com um possível ato (no caso um vômito ou um descarte do líquido, por assim dizer) e a preocupação de minha mãe na esquerda com a cena.

Aliado a isto as garrafas desfocadas propositalmente para ambientar a cena, pois elas faziam parte do contexto.

É uma foto familiar retratada com extremo cuidado e dando total atenção ao momento em que minha afilhada faz o gesto, à composição das
pessoas preocupadas com o ato dela (veja que as faces estão todas visíveis e não tem suas expressões bloqueadas) e os objetos
“desnecessários” fechando a narrativa.

Como estavam na frente da imagem, ficaram, porque eu não iria me levantar pra tirar nada da frente. – risos
Isto, para mim, é uma imagem completa.
Não estamos falando aqui de gostar-se ou não da cena … não estamos tratando aqui de um possível vômito da criança (aliás só o gesto já coloca a imagem em uma classe de ‘repulsa’ automática por muita gente).

Estamos falando aqui do momento, de uma narrativa fotográfica em que objetos que o senso comum não fotografaria ( te digo com quase 100% de certeza que provavelmente muitos iriam lá tirar as garrafas da frente ou deixariam de registrar a cena) estão sendo usados para agregar informação em uma imagem.

Estes objetos, que para muitos são desnecessários e “enfeiam” uma cena, são primordiais para o tipo de imagem que eu produzo e gosto de fazer.

São parte de nossa vida, são objetos que futuramente (daqui 20 anos por exemplo) ambientarão uma época e nos trarão recordações, são
objetos que precisam estar aí.

…são objetos que futuramente (daqui 20 anos por exemplo) ambientarão uma época e nos trarão recordações-“peridapituba”

O que vc me diz quando nos dias de hoje vê uma antiga foto de seus pais quando vc ainda nem era um espermatozóide e estão eles 2 lá
juntinhos, seu pai com uma costeleta enorme e ambos com aquelas calças LEE pantalonas?

Que tipo de sensação uma foto desta te trás?Entende o que eu digo?

Provavelmente ao ver a foto vc diria:

“Poxa pai, como vc era feio …poxa mãe, vc tinha os cabelos mais bonitos quando eram compridos … como os costumes mudaram … que bacana eram as calças” … e por aí vai …

Então, muitas vezes, estes objetos funcionam até mesmo como algo a nos estimular e trazer sentimentos bonitos de uma época que se foi.

A fotografia também tem esta função e na minha maneira de ver estes objetos são sim necessários neste auxílio.

Nós não nos sensibilizamos quando vemos uma foto do Cappa de uma guerra espanhola de anos atrás?

Ou de um cidadão comum lutando sozinho na praça da paz em Pequim?

Ou até mesmo vendo os aviões terroristas explodindo no WTC de NY?

Claro, deve-se guardar as devidas proporções pois o nosso ambiente exemplificado é o familiar, mas a função parece ser a mesma, entende?

Eu penso hoje, fotografo hoje, mas o futuro talvez já possa ser agora em alguns casos … e eu penso rápido e penso na frente, me
antecipando … mesmo que em anos.

Uma prova desta cronologia que eu me refiro e que muitas vezes eu também penso é esta matéria:

Fotógrafo passa 36 anos fotografando irmãs para mostrar como o tempo age sobre nós.

Fonte: O Buteco da Net.

Olhe que coisa bacana isto.

Será que a fotografia não deve também ter uma função deste tipo, de trazer-nos estas recordações maravilhosas de tempos vividos?

Ou de nos mostrar, através de imagens e de uma cronologia que nos mostre nossa vivência o quão pequeno somos diante do Criador, e assim nos tornarmos pessoas cada dia melhores em nossa passagem aqui neste mundo?

É algo a se pensar … e eu tenho tido experiências muito plenas e reveladoras depois que passei a observar certas coisas em minhas
próprias imagens … depois que me voltei primeiramente ao meu mundo, entende?

A fotografia também me proporcionou isto.

Outra coisa que talvez explique certas decisões que tomo.

Veja bem, isto é apenas um dos diversos exemplos que eu poderia te dar para justificar meus atos e minha maneira particular de fotografar, mas que absolutamente deve ser vista como verdadeira sempre … apenas é a forma que eu faço e que eu gostaria que fosse respeitada.

Em um outro exemplo a foto abaixo:

Minha sogra, em um café da tarde lá em casa.
Veja as cascas das bananas que ela acabara de comer.
Os postes de biscoito … a garrafa de café … os talheres dentro do prato …

Como, em sã consciência, eu poderia deixar isto de fora?

Que narrativa sustentaria uma imagem deste tipo se eles não estivessem presentes?
Como eu contaria esta história?

Então, é sobre esta necessidade que eu trato, sobre a inclusão deste tipo de coisa nas imagens que faço, onde nada é por acaso e tudo tem sua função.

———-

PS: Leiam o artigo no WordPress, é só clicar no link lá de cima que
cai direto na página.
É um artigo pequeno, mas que talvez possa levar a outras direções.

18- Para onde aponta essa sua afirmação:

“Ter uma câmera na mão – mesmo que seja uma simples câmera de 2 MP e sem controle algum – é sempre bom.”

Isso impresiona porque você é um fotógrafo que sempre tenta ter o máximo controle sobre suas fotos.

Isto é algo interessante e que passa até mesmo pelo meu estilo de vida, uma curiosidade.
Eu dou muito pouco valor a uma coisa que a garotada gosta muito, telefone celular.

Então como estou sempre andando em estradas interioranas e onde o sinal é ruim eu sempre usei celulares com tecnologia CDMA, analógica.
E tinha um destes celulares bem antigos, pequenos em tamanho, mas muito antigo que me atendia perfeitamente, sobretudo em sinal.

A operadora que uso vai abolir dentro de alguns meses esta tecnologia que passará a ser unicamente GSM para meu estado e estava dando um bônus para troca de aparelhos.

E assim, lá fui eu trocar o meu.
Fui comprar um novo né? … nada mais óbvio que tivesse câmera. -risos

E aí tou eu todo bobo com um celular de uma câmera vagabunda de 2MP, sem controle algum.

Um dia destes estou na fazenda e não tinha levado a câmera … mas eu tinha um celular com câmera ora bolas !!! – :mrgreen:

E fiz algumas fotos das quais gostei do resultado … mesmo que totalmente automatizadas pelo aparelho, pois eu não tive trabalho algum a não ser compor as cenas.

E aí me veio a expressão que vc citou.
Na falta de um equipamento melhor, a gente se vira c o celular mesmo.

É uma forma de se estar sempre disponível a fazer algumas fotos.

E mesmo que não se tenha recursos algum (no caso de um aparelho de celular que não nos dá direitos de escolhas) é possvel sim conseguir boas imagens, basta ter um pouco de comprometimento.

Isto também rendeu um pequeno artigo: Fotografias com celular.

Esta é uma foto feita com o meu aparelho:

Não é uma imagem totalmente bem acabada e uma câmera com mais recursos traria sem dúvida alguma um resultado melhor.

Mas dá para se divertir e isto já vale muito.

A afirmação então aponta para isto, estar disponível, pensar e usar o que se tem em mãos, pois só depende de nós.

19- Uma de suas predileções na fotografia são fotos de teu cotidiano.

Apesar de você priorizar a composição, aspectos técnicos como o foco e nitidez não são relaxados. Como conciliar foco e nitidez com lentes de foco manual em fotografias de cotidiano, não posadas, em que as pessoas nomalmente não ficam estáticas?

Primeiramente antecipando-se às cenas.

E tendo um olhar aguçado para as possibilidades.

Também é preciso ter uma certa dose de sagacidade e conhecimento para saber o que uma cena pode render, e nunca preocupar-se com as fotos “perdidas”, mas com as fotos que vai-se fazer.

Na fotografia de cotidiano, ou familiar que acho ser a que vc se refere, as cenas acontecem a nossa frente a todo momento.

Então, se vc não pegar um momento legal agora vai pegar daqui há pouco.

Se não pegar nada … aí a culpa é mesmo da peça atrás da cam. -risos

Aspectos como foco (que entrelaça-se à nitidez por conseguinte) é algo mais fácil.
Se tem boa luz a gente trabalha com uma abertura menor para ter um profundidade maior e aí não errar neste ponto e ter uma margem de segurança.

Se a luz é pouca, aí tem de ter mesmo alguma habilidade porque a abertura vai ser maior e talvez o dof encurte muito dependendo da lente, mas isto é a coisa mais fácil, e com o tempo se pega.

Mas há de se saber que mesmo em fotografias não estáticas, existe um momento em que as pessoas “param” de se mexer.

Nesta fração de segundo também aproveito para clicar, sempre atento para momentos interessantes.

É um jogo de perseguição, por asssim dizer.

20- E, nessas fotos de nossos cotidianos, qual o segredo para o fotógrafo se manter “invisível”, apesar de estar com uma DSLR apontada para o pessoal, e assim, obter fotos extremamente naturais?

O segredo é exatamente o contrário, é deixar-se notar.

Se uma pessoa sabe que vc vai fotografá-la é muito maior a chance destas imagens serem o mais natural possível.

Eu acredito que ser invísivel com uma dslr não é uma coisa fácil.

Eu pelo menos não tento ser, prefiro que as pessoas saibam que as fotografo.

Em um ambiente familiar com o tempo as pessoas aceitam isto e tudo soa mais natural.

Em um ambiente não familiar uma boa conversa sempre ajuda.

21-Em sua fotografia você radicaliza em algums aspectos: não usa flash, não se permite fazer um corte (na edição), não altera uma cena. Qual a razão dessa radicalidade?

Eu não vejo isto como algo radical … :k

… talvez esta palavra seja muito radical. -risos

Eu vejo e entendo como uma metodologia já enraizada na minha maneira de fazer.

Sobre o flash eu sinceramente não vejo motivos para o uso dele no tipo de fotografia que faço.

Além disto em um retrato, quando o pré-flash pipoca não há cristão que mantenha a espontaneidade.
Tente fazer.
Além de ser uma luz feia, chapada, quando é mal usada.

Vale lembrar que não estamos fotografando em um estúdio, onde o controle é total, então o resultado pode ser previsto e potencializado ao máximo.
Sem contar que se a luz mudar … lá vai vc mudar a regulagem do flash.
Acho isto um saco e realmente não uso e nem vou usar flash.

Sobre crops em edições …

É por isto que minhas composições são tão afiadas.
Eu corto na hora, no visor e componho ali.

Se vem dando certo até aqui, não vou mudar isto.
É a minha forma de fazer e disto não abro mão.

Mas cada um que use sua ferramenta da forma que mais lhe convier.

Quer cropar?
Cropa, mas saiba que o costume vai se apoderar de vc de tal forma, e vc vai ficar tão dependente disto, que ao invés de vc fazer sua composição de forma mais eficaz, vai ficar perdendo tempo com isto na edição.

E vai sempre fotografar com isto em mente … “… Ah, se der errado depois eu cropo …”

Sem contar que, agindo assim, vc pode perder uma informação importante porque não foi suficientemente atento na hora do clique e o crop vai eliminar aquilo que não poderia ser eliminado.

Cada um que faça a sua escolha, vira um cropador nato e submete-se a esta escravidão ou procura fazer um trabalho de melhor qualidade.

22- Em sua fotografia você radicaliza em algums aspectos: não usa flash, não se permite fazer um corte (na edição), não altera uma cena. Qual a razão dessa radicalidade?

Eu não vejo isto como algo radical, talvez esta palavra seja muito radical. -risos

Eu vejo e entendo como uma metodolia já enraigada na minha maneira de fazer.

Sobre o flash eu sinceramente não vejo motivos para o uso dele no tipo de fotografia que faço.
Além disto em um retrato quando o pré-flash pipoca não há cristão que mantenha a espontaneidade.
Tente fazer.
Além de ser uma luz feia, chapada, quando é mal usada.

Não estamos fotografando em um estúdio, onde o controle é total, então o resultado não é o mesmo.
Sem contar que se a luz mudar … lá vai vc mudar a regulagem do flash.
Acho isto um saco e realmente não uso e nem vou usar flash.

Sobre crops em edições …

É por isto que minhas composições são tão afiadas.
Eu corto na hora, no visor e componho ali.

Se vem dando certo até aqui, não vou mudar isto.
É a minha forma de fazer e disto não abro mão.

Mas cada um que use sua ferramenta da forma que mais lhe convier.
Quer cropar?
Cropa, mas saiba que o costume vai se apoderar de vc e ao invés de vc fazer sua composição de forma mais eficaz, vai ficar perdendo tempo com isto na edição.

Sem contar que, agindo assim, vc pode perder uma informação importante porque não foi suficientemente atento na hora do clique.

Cada um que faça a sua escolha.

23- Já quanto aos cortes na captura você os faz sem o menor constrangimento.

24- Certamente você atribui a esses cortes força compositiva. Qual o limite entre um corte que agrega na composição e um corte inapropriado?

Não existe limite, assim como não existe regras.
O limite está em nossa mente e as regras são para serem quebradas.

Nada mais clichê, mas é muito verdadeiro.

Um corte que agrega é quando vc, por exemplo, pode aplicar uma teoria de Gestalt na imagem e isto fazer sentido.

E um corte inapropriado geralmente vem acompanhado de uma composição fraca e sem sentido, onde os objetos cortados interrompem a narrativa fotográfica e não dão lógica ao restante da cena.

É difícil explicar com palavras, mas quem estuda um pouquinho consegue enxergar quando um corte extremo é feito de forma consciente e faz sentido na imagem e quando não é.

Eu vou aos extremos, corto sem dó se tiver de fazer isto, mas sempre a favor da mensagem intrínseca na imagem.

Esta que vc postou como exemplo é uma delas.

Veja que a intenção é situar o observador a respeito do que existe dentro do barco, mostrar isto, e aplicar uma Gestalt onde a própria mente se encarregará de completar as informações pendentes, aqui neste caso os barcos cortados.

Os cortes então tem proporções suficientes para que esta “mensagem” se complete inconscientemente, sem que a gente perceba.

Há os cortes, mas a nossa mente “completa” a informação e sabemos que são barcos (esta é apenas uma forma mais simples de exemplificar, mas há muitas outras variáveis envolvidas).

Mas a eficácia destes cortes estão numa composição em que são exploradas regras gerais da fotografia, regras estas que todos conhecemos.

24- Normalmente você faz suas capturas em raw e com um balanço de branco peculiar. Poderia, em linhas gerais, nos explicar esse processo?

Uso o raw há anos e o motivo é a qualidade que se consegue na pós-captura sem que haja comprometimento no arquivo original captado.

O WB segue o padrão normal, não tem mistério e é como a maioria faz, procuro seguir a temperata de cor que me dá a visualização exata de como a cena era no momento da captura.

A única diferença é que uso como WB o sistema universal para captura em raw, o UniWB.

Salvando-se apenas os casos em que pode-se aplicar efeitos como sépia (que praticamente não uso), simulações de processo cruzado, de características de algum filme específico, pb’s mais suaves ou mais contrastados, e etc, o WB de minhas imagens tenta seguir o padrão real de cores das imagens retratadas.

25- Em função da utilização do UniWB, como se dá o trabalho de pós-produção?

Não há diferença alguma, a única diferença é que o UniWB mosta as imagens raw convertidas com aspecto esverdeado e isto tem de ser corrigido.

No meu caso eu passo a imagem pra “Grayscale” e escolho com o conta-gotas uma área de cinza médio.

Se for ficar em pb continuo o processo de edição normalmente.

Se for passar para cor, saio da aba Grayscale e retomo o processo normal de edição, agora em cor.

Pode-se pprecisar de novos ajustes de temperatura e tint, se precisar eu refino o wb neste momento.

Eu uso o LR como editor de imagens.

26- A foto abaixo, feita sem uso de flash, tem uma fotometria que impressiona; pois, apesar do contraluz, e das grandes latitudes envolvidas, tem uma exposição extremamente bem resolvida. Qual a importância do WniWB para se alcançar esse resultado?

A importância está exatamente no fato de que o UniWB possibilita visualizarmos a real latitude que o sensor digital tem.

Como funciona isto?

Quando se fotometra uma cena usando-se como parâmetro o sistema jpeg, geralmente todo mundo expõe subexpondo um pouco para se resguardar de estouros que não possam ser corrigidos na edição.

A fotometria para raw é diferente, porque o sistema admite recuperações maiores das altas luzes (o calcanhar de aquiles da fotografia digital, pois a latitude do sistema é menor do que o sistema de película/filme quando se fotografa em jpeg).

Então se vc fotografa em raw sua fotometria tem de levar em conta isto, pois vc poderá ir além na exposição se souber fazer isto.

Alguns estudiosos do sistema raw conseguiram ver que existia espaço para aumentar ainda mais esta captação de luz e se recuperar estas informações, de forma a dar aos arquivos captados melhor qualidade.
Como?

Passaram a basear-se pelo histograma da imagem e viram que mesmo fotometrando para raw ainda existia espaço para “encher” o histograma.

Encher o histograma significa dizer ter mais informações na imagem.
Mais informações significa melhores imagens.

O máximo possível que vc puder ir à direita do gráfico, enchendo-o, desde que se pare antes do estouro das luzes que se mede, é bom ir.

Como saber se o histograma que vemos é o real para o sistema raw?

Setando-se o UniWB.

O UniWB na verdade, é apenas uma forma de ter na sua cam um histograma que seja o verdadeiro para o raw ( porquequando fotografamos em raw o histograma que vemos é o do jpeg gerado pela cam para nos mostrar a imagem no LCD, pois o raw é um arquivo de dados que não é visível).

E então tendo este histograma verdadeiro, a gente expõe a imagem baseando-se nele e levando a curva do histograma o máximo possível à direita, desde que não haja estouros.

Eu escrevi um artigo aqui no fórum sobre isto, inclusive com imagens demonstrativas.

É só clicar no link acima que tem as informações necessárias para fazer, além de todas as conversas que se desdobraram a partir dele.

Só peço um favor, leiam o artigo e as páginas, porque todas as explicações e os desdobramento que se seguiram estão lá, são cerca ed 8 páginas de discussões.

Muita gente não quer ter o trabalho de perder um tempinho se informando e se aprofundando e então fica perguntando repetidamente sobre algo já dito sem ler atentamente o tópico.

Então, para já me prevenir de novas MP’s sobre o assunto, fica a dica.

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Publicado originalmente em: Por detrás das Lentes.

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Em foco: Alex M. de Souza.

O Alex é um grande amigo que fiz através do Multiply.

Dono de uma gentileza e educação ímpar, eu o chamo carinhosamente de
‘Sir’, dada a elegância e personalidade gentil e serena, de trato
amigável.

Sua produção pode ser encontrada em seu Multiply , em álbuns
criteriosamente construídos com extremo bom gosto e capricho e em duas
línguas, Português e Inglês.

Ou então em seu Flickr onde ele
também divulga parte de seus trabalhos (e aleatoriamente foram
“pescadas” as imagens abaixo) e onde pode ser visualizado seu perfil.

É inegável a pluralidade de suas imagens, a carga sentimental que
algumas carregam e a qualidade técnica que demonstram.

Foi uma experiência renovadora bater este papo com o Alex e poder
conhecer mais de suas ideias, seus conhecimentos e de sua trajetória
de vida, incluindo aí a fotografia.

Desfrutem da entrevista de uma pessoa que tem muito a nos mostrar e ensinar.

Abraços.

OBS:

Todas as fotos de autoria de Alex M. de Souza, excetuando-se as citadas
Todos os direitos reservados.
Proibida a reprodução e execução pública sem o prévio aviso e
autorização explícita do autor.

1- Alex, fale-nos um pouco sobre vc, se possível inclua uma foto.

Brasileiro, 64 anos, ávido por conhecimento. Viajei muito e tive a
oportunidade de conhecer boa parte do mundo.
Hoje, dedico-me a observar a vida ao redor aproveitando as
circunstâncias favoráveis de viver no interior do nosso país.
Minha vida é simples, dedicada à família e cercado de animais.
Profissionalmente, já ‘aposentado’ na minha profissão principal, atuo
como consultor de empresas de engenharia nas áreas de dragagem e
projetos de estaleiros, aquavias e usinas geradoras de energia limpa
por ondas e correntes marítimas.

2- Como começa seu interesse pela fotografia?

Nasceu da curiosidade a respeito do mundo à volta porque a cada 2 anos
eu vivia em uma cidade diferente durante a infância. Eu fotografo para
entender melhor o que vejo, como as imagens se formam e para aprender
sobre o mundo à volta. Curiosidade e memória foram os fatores
motivadores, portanto. Naturalmente isto levou ao financiamento da
primeira máquina aos 12 anos de idade. Foi um tempo de máquinas
fotográficas apelidadas de ‘caixotes’… Filme preto e branco e pouco
dinheiro…

3- Após eu escrever um artigo
no WP
vc fez o seguinte comentário lá no Multiply:

“Boas perguntas.
Creio que depende do meio onde você se insere.
Aqui no Multiply ‘compartilho’ apenas o que gosto, aquelas imagens que
vi e tentei fotografar com qualidade.
É questão de gostar e ‘compartir’. É ótimo. As preocupações, se
existirem, ficarão circunscritas à percepção do belo e às filigranas
técnicas.
Quando os caminhos fotográficos passam pela busca das ‘imagens que
interessam’ aí tudo se torna muito complexo. Passei por esta
experiência no Shutterpoint. A empresa tem até farta documentação
sobre este e assuntos correlatos. Aqui é difícil. Algumas vezes me
perguntei:
– ‘Como fotografar imagens que não me atraem, nada me despertam?”

Alex M. de Souza.

3.1- Eu gostaria que vc aprofundasse mais o assunto, inclusive
comentando a experiência do Shutterpoint, se possível.

Boa parte da minha trilha na fotografia foi no ambiente de trabalho e
o gênero era o que se denomina hoje de ‘foto de ação’. Era muito
disparo com os ‘motor drivers’, 250 fotos por rolo de filme, e uma
constante: a necessidade de desenvolver algo como uma intuição para se
antecipar à cena. Consequentemente, a preocupação com a técnica e com
o exercitar o uso dos equipamentos de fotografia e filmagem se tornou
impositiva. Enfim, os ‘temas’ das minhas fotos, por muito tempo, foram
ditados pelo trabalho. E isto estava em desacordo com o meu sentimento
pela fotografia…
Claramente eu me sentia ‘dentro’ de uma crítica que li a respeito de
Ansel Adams: ele era tão técnico no que fazia que algumas das suas
fotos simplesmente não ‘aqueciam’ o coração das pessoas.
Este ‘aquecer corações’ a que me refiro é o principal fator
psicológico, intelectual ou afetivo que determina o meu proceder na
fotografia. E, neste caso, o coração a ‘aquecer’ era o meu…
Felizmente, há alguns anos pude me libertar e me dedicar ao lado
ardente da fotografia.
A experiência com Shutterpoint foi bem produtiva. Algo como uma nova leitura.
Aprendi muito e pude conhecer fotógrafos, especialmente ingleses e
alemães, que ampliaram os meus horizontes.
A minha avaliação desta experiência foi simples: não devo dedicar
tempo naquele tipo de atividade pois significa uma submissão às
necessidades do mercado de imagens. Há uma grande diferença entre
atender a um comprador ou acatar os fatores psicológicos, intelectuais
e afetivos que representam a minha motivação.

4- Alex, eu percebo uma força compositiva muito grande em suas fotos.

Apenas para citar alguns exemplos vou postar 3 fotos suas que vi
ultimamente que se beneficam muito explícita e fortemente de técnicas
compositivas (diagonais, busca de pontos áureos, utilização de terços
e pontos notáveis, momentos decisivos, etc)

4.1- O que vc pensa sobre isto e que peso os aspectos compositivos
têm em suas imagens? É algo que vc busca ou vc acha que estas questões
não possuem tanta relevância assim?

Não me preocupo em seguir as regras tradicionais para composição. Há
muitas, como sabe. Entretanto, para ver melhor o mundo através das
lentes é interessante conhece-las, saber usar a luz e ter uma idéia de
como as imagens são formadas no olho humano.
Enfim, as regras tradicionais poderão ser convenientes, mas raramente
prioritárias.

5- Você tem predileção por algum tema especificamente? Qual e por quê?

O gosto por este ou aquele motivo existe e posso citar a ‘natureza’
como o favorito.
As aves, os insetos e as flores me cativam. Tecnicamente são 3
segmentos distintos da fotografia, exigindo equipamentos e técnicas
diferentes. Dentre todos, considero o mais difícil a fotografia de
flores, onde somente um sólido conhecimento da luz e da técnica
permitirá obter cores fiéis à realidade.
Enfim, o meu tema é ‘vida’, em movimento e em cores, esta interminável
coleção de momentos e impressões.

6- Remetendo à pergunta anterior, qual a importancia de seu
equipamento na captura de suas imagens?

Da máxima importância. Os meus temas são exigentes no que tange à
resolução e fielidade a cores. Estas exigências determinam a escolha
criteriosa do equipamento fotográfico, tanto das máquinas quanto das
lentes, e seus acessórios (tripés, filtros e flash eletrônico,
principalmente).

6.1 – O que vc tem usado ultimamente?

Migrei definitivamente para a fotografia digital em 2005.
Experimentei, portanto, o amadurecimento desta nova forma de capturar
imagens. Consequentemente, os equipamentos (especialmente as câmeras)
tiveram de ser atualizados a cada 2 anos para me permitir alcançar o
nível de qualidade de imagem desejado.

Hoje, o material mais importante da minha ‘tralha’ é composto por:

I) DSLRs da marca Canon, modelos EOS 40D, EOS 50D e EOS 5D Mark II.
II) Filmadora Canon Vixia HF S20.
III) Câmera compacta Canon Powershot S95.
IV) Lentes: Canon EF 17-40mm f/4L USM, Canon EF 70-200mm f/4L IS USM,
Canon EF 50mm f/1.4 USM, Canon EF 135mm f/2L USM, Canon EF 400mm
f/5.6L USM, Canon TS-E 45mm f/2.8, Canon MP-E 65mm f/2.8, Canon EF
100mm f/2.8L Macro IS USM e Sigma 150mm 1:2.8 APO Macro DG HSM.
V) Flash eletrônicos: Canon Speedlite 580EX II e Canon Macro Ring Lite MR-14EX
VI) Tripés e monopés: Manfrotto 055XProB + 410 + 454, Manfrotto
190XProB + 486RC2 e Manfrotto 334B + 234RC.
VII) Controles: controle remoto com fio Canon TC-80N3 e controle
remoto sem fio Canon WC LC5.

Dentre tudo isto citado acima, o que mais uso são sistemas formados
com as lentes Canon EF 135mm f/2L USM, Canon TS-E 45mm f/2.8, Canon
MP-E 65mm f/2.8, Canon EF 100mm f/2.8L Macro IS USM. Em situações de
pouca luz e baixo contraste priorizo o uso da 5D Mk II. Para os poucos
retratos que faço, recorro à ‘veterana’ Canon EF 50mm f/1.4 USM.

6.2- Você tem um set de equipamentos muito diverso e variado.Me
parece completo, inclusive no que tange ao processamento pós
captura.Falta alguma coisa, Alex?

Sempre faltará. A ‘falta’ é sempre uma função do tempo quando se lida
com eletrônica. A evolução da ciência de imagens digitais é
vertiginosa e me levará a modernizar equipamentos (câmeras) no final
de 2012, certamente. A crescente sofisticação dos sensores eletrônicos
é a alavanca que move estas modernizações.

7- Alex, sei de sua busca pelo aperfeiçoamento de suas imagens e
pela importância que vc dá ao aspecto de apresentação delas.

Tocando especificamente neste ponto, fale-nos sobre seu fluxo de
edição, incusive mencionando editores de imagens de sua
preferência.

Primeiramente é preciso deixar claro que somente uso o formato RAW
para fotos. Raramente uso JPEG. Também, normalmente uso as DSLR em
modo Manual ou Av. Não sou adepto da automatização da fotografia.
A escolha dos software foi um aspecto complexo até 2007: não haviam
boas ferramentas de software especializadas porque a fotografia
digital ainda estava na puberdade tanto em hardware quanto em
software. A minha tendência, portanto, era usar os sistemas Canon
Digital Photo Professional (DPP) e o Adobe Photoshop (AP).
Dois aspectos me desagradavam: a interface canhestra do DPP e a
destinação principal do AP que desde a sua criação foi trabalhar
imagens digitalizadas. Daí que o DPP, embora especializado na
fotografia digital, era (e ainda é) uma ferramenta desagradável de
utilizar. E o AP, apesar de todo o seu fantástico leque de funções,
nada mais é do que uma tentativa de ser um verdadeiro sistema para a
era da foto digital além de exigir muito do usuário na curva de
aprendizado. Sou usuário de AP desde a versão 7…
Assim, abandonei os 2 sistemas (DPP e AP) tendo adotado o Phase One
Capture One (CO) e o Adobe Lightroom (LR) depois de muita paciência,
estudo e pesquisa. Inegavelmente, estes são 2 verdadeiros sistemas
para fotografia digital. Uso-os diariamente desde 2007.
Enfim, os sistemas principais que utilizo são o CO e o LR.

Há, entretanto, tarefas específicas que não podem ser executadas por
estes 2 sistemas: montagem de panoramas, stack de imagens para a
ampliação da profundidade de foco, comando remoto por computador de
lentes macro para controle milimétrico da focalização, reduções de
ruídos em macrofotos acima de 1x, recuperação de detalhes e cores,
HDR, ampliação de imagem e alguns acabamentos de fotos para publicação
(molduras, redimensionamentos simples, etc…). Nestes casos utilizo
outros 7 sistemas: PTgui Pro Photo Stitching Software, Helicon Focus,
Helicon Remote, Topaz DeNoise, Photomatix Pro, BenVista PhotoZoom Pro
4 e FastStone Photo Resizer.

Sumarizando, então, o fluxo de posprocessamento segue as seguintes etapas:

I) Interpretação do arquivo RAW por meio do CO.
II) Os ajustes básicos de Balanço de brancos, Balanço de cores,
Alcance dinâmico e Níveis são feitos no CO.
III) A imagem é exportada no formato TIFF 16 bit, espaço de cores
ProPhoto RGB ou PhaseOne PC Monitor e em 300 px/pol.
IV) A partir do LR são feitos os trabalhos de ‘denoising’ com o Topaz
DeNoise e, conforme o caso, seguem-se o PTgui e o Photomatix. Tudo
isto dentro do ambiente do LR.
V) Em seguida, no mesmo LR são feitos os pequenos ajustes finais de
Temperatura de cor, Recuperação, Luz de preenchimento, Clareza
(traduzido erradamente como ‘Claridade’ no menu…), Vibração, Realce
em seus matizes e saturações, Sombras em seus matizes e saturações e
ajustes de nitidez e Reduções de ruídos. Em poucos casos é necessário
aplicar as funções de Correções da lente e a aplicação de Efeitos.
VI) A exportação da imagem concluída é feita pelo LR e o parâmetro
básico é o formato JPEG a 300 dpi e 100% de qualidade.
VII) Redimensionamentos e aplicação de molduras e textos explicativos
são feitos pelo FastStone Photo Resizer.

A organização dos arquivos RAW é feita em uma estação de trabalho e
duplicada (backup) para um HD externo e mídias DVD. Este trabalho é
efetuado pelo Canon ZoomBrowser. Fotos prontas, no formato JPEG a
100%, 300 dpi e 100% de qualidade permanecem em álbuns do LR e também
passam por ‘backup’ diário para HD externo.

“Foi um tempo de máquinas fotográficas apelidadas de ‘caixotes’…
Filme preto e branco e pouco dinheiro…
Alex M. de
Souza.

8- Ainda há lugar para a fotografia com filme, ou o formato agora é
visto apenas com nostalgia e/ou inviabilidade na maior parte das
vezes?A tecnologia digital realmente veio para ficar?

No momento atual não posso apontar o filme fotográfico como uma
tecnologia ultrapassada. Entretanto, as modernas tecnologias
eletrônicas usadas na formação de imagens superarão em breve o
desempenho dos diversos filmes que conhecemos e utilizamos.

9- Que influências inspiradoras te ajudam, ou te ajudaram, a obter
melhores imagens?

Contribuiram direta e indiretamente para a elevação do nível de
qualidade de imagem os trabalhos de Klaus Schroiff, Michael Reichmann,
Dr. Klaus Schmitt, Dr. Castleman da Universidade da Florida, os textos
disponibilizados por Lexar Media Inc, a literatura técnica da
Universidade de Cambridge e as instruções da AGFA e da Carl Zeiss AG.
Sem dúvida deixei de mencionar mais alguns porque são muitos. Minhas desculpas.

“Claramente eu me sentia ‘dentro’ de uma crítica que li a respeito
de Ansel Adams: ele era tão técnico no que fazia que algumas das suas
fotos simplesmente não ‘aqueciam’ o coração das pessoas.
Este ‘aquecer corações’ a que me refiro é o principal fator
psicológico, intelectual ou afetivo que determina o meu proceder na
fotografia. E, neste caso, o coração a ‘aquecer’ era o meu…
Felizmente, há alguns anos pude me libertar e me dedicar ao lado
ardente da fotografia.
AlexM. de Souza.

10- Que exemplos de fotos, suas e de outros, lhe fizeram o ‘coração
arder’?

Prefiro apontar uma que considero inesquecível e sempre me gratifica.
Não sei quem é o autor:

Nota: A fotografia acima pode ser encontrada no seguinte
endereço.

11- Por que ‘NightGoose’ e ‘De nihilo nihil’ (2 nicks mostrados em
seu Multiply)?

‘Night Goose’ foi um ‘nickname’ necessário na década de 1980 durante
atividades na área de TI que exigiram uma identificação única no
mundo. Esta expressão é uma inconsistência em sua essência: gansos não
voam à noite. Nos idos de 1980 havia referências a apenas mais um
‘nick’ similar, na Austrália, e redigido ‘Nightgoose’. Hoje há um
monte por aí…
‘De nihilo nihil’ é uma expressão ligada à natureza das coisas, parte
da física epicurista. O seu significado é ‘nada vem do nada’ sugerindo
que ‘não se pode esperar que uma mente sem brilho produza pensamentos
brilhantes’. A frase é atribuída ao poeta romano Tito Lucrécio Carus.
Para mim os dois ‘nicks’ combinados bem que podem ser um conselho:
estude, pesquise sempre e tente o impossível!

12- Há autores (fotógrafos) que te inspiram? Quais?

Tenho grande admiração e respeito por Alfred Eisenstaedt e Yousuf
Karsh, 2 brilhantes ‘retratistas’, com fantástico talento para ‘usar’
a luz. Curiosamente a fotografia praticada por Eisenstaedt e Karsh se
situa em segmento diverso daqueles que abracei.
No segmento de fotografia da natureza sou grato a Juza, um jovem e
talentoso fotógrafo italiano, e a Piotr Naskreck, zoólogo de Harvard,
pela enorme quantidade de conhecimentos que me transmitiram.

13- Alex, sendo um espaço com mote em fotografias, nada mais justo
que queiramos ver imagens, não achas? -rs

Levando-se em conta a resposta anterior, mostre-nos algumas imagens
das 4 pessoas citadas que você ache interessante compartilhar,
independente de motivos pré-estabelecidos.

Algumas imagens daqueles que apontei se encontram em:

Eisenstaedt.

Yousuf Karsh

Juza

Piotr Naskrecki

14- Seguindo na mesma linha eu gostaria que você apontasse em sua
própria produção algumas imagens que te tocaram de alguma forma ao
ponto de você se sentir com o ‘coração ardendo’.

Imagens que tenha para você um significado especial, e se puder faça
alguma explanação sobre estes motivos.

Prefiro ‘ aquecido’ a ‘ardendo’…

Relembrando que a minha motivação tem por base fatores psicológicos,
intelectuais e afetivos em permanente mutação, eu apontaria hoje as
seguintes fotos compartilhadas no Multiply e no Flickr:

Nota: Foram selecionadas apenas algumas imagens dentre
as enviadas pelo Alex.

Não tratam-se das melhores imagens e foram escolhidas dentre as
inúmeras que compõe seu acervo, acessíveis nos link’s citados no
início da entrevista.

São imagens belíssimas que passeiam por diversos temas, da natureza ao
macro, passando por retratos e abstratos.

Vale realmente à pena visitar as galerias.

15- Alex, lhe agradeço a paciência e o tempo dispensado neste
agradável bate-papo.

Gostaria de acrescentar algo mais?

Foi um prazer.
Em relação à fotografia eu me sinto como Eisenstaedt disse:

“Eu sonho com o dia em que os processos entre a minha mente e o
meu dedo não mais serão necessários. E simplesmente piscando os meus
olhos baterei as fotos. Então, acredito, estarei começando a ser um
fotógrafo.”

16- Por último, deixe uma mensagem aos leitores que por aqui passarem.

Como ainda estou longe de ser um fotógrafo amador, prefiro voltar a
Eisenstaedt :

“Quando a abordagem ingênua e a humilde vontade de aprender
desaparece do amador, o espírito criativo da boa fotografia morre com
ele. Todo profissional deve permanecer sempre em seu coração um
amador.”

Em foco: Rostev – Rodrigo Teófilo.

1- Fale um pouco de você e de sua atividade enquanto fotógrafo. Poste uma foto sua para que possamos conhecê-lo melhor.

Sou natural de Cruzeiro/SP, cidade onde moro até os dias atuais.
Me formei em Administração de Empresas e estou cursando atualmente a faculdade de História. Devido atuar na área jornalística desde 1994, consegui um registro no Ministério do Trabalho para trabalhar como jornalista. Exerço minhas atividades profissionais no Jornal Regional, semanário que circula em 16 cidades do Vale do Paraíba paulista e 30 cidades do Sul de Minas Gerais. Sou responsável pela editoria fotográfica e artes digitais.
Apesar da fotografia estar diretamente ligada ao meu trabalho, acabou entrando em minha vida como um hobby, impulsionado principalmente pela minha avó paterna, Marilha Pereira da Silva, responsável por tradição de todas as fotos da família.
Quando garoto minha avó me presenteou com uma belíssima Olympus Trip35, ao qual considero uma das grandes ferramentas fotográficas do meu iniciar nesta área e desde então não parei mais, principalmente quando adentrei ao universo digital, me beneficiando com a redução no custeio das imagens que fazia.

2- Como se define:
– fotografo profissional,
– profissional amador,
– amador profissional.
E por quê?

Não costumo me preocupar com esses rótulos, porque para mim o que separa o profissional do amador é o simples fato do primeiro ganhar a vida com a fotografia e o segundo fazer a coisa por pura paixão. Neste universo fotográfico cansei de ver amadores dando show de competência em muitos que se dizem profissionais, inclusive naqueles que possuem uma larga escala de bons trabalhos apresentados.
Mas já que é para tentar me definir, atualmente me vejo como um amador profissional, justamente porque o amor pela fotografia é maior do que a minha ânsia de ganhar dinheiro com ela.
A fotografia sempre esteve ligada a minha pessoa, só que nunca consegui viver somente dela e adianto que não fiz questão que isso acontecesse. Sou uma pessoa que leva tudo que faz com muito amor e intensidade e, sempre que sinto a obrigação ficar mais forte do que a paixão começo a perder interesse pelo assunto. Para mim isso é fato.
Vez ou outra faço trabalhos profissionais como fotógrafo, atuando nas mais diferentes áreas (social, documental, conceitual e institucional), mas sempre pela vontade maior de estar me reciclando e tentando ganhar “algum” que colabore com meus próprios investimentos na área.

3- O que te dá prazer em fotografar?

Gosto de me definir como um cara que ainda busca se definir. rs.
Parece estranho, mas é exatamente como me vejo na fotografia. Estou sempre testando e buscando assuntos diferenciados e que de alguma forma me force a conseguir ângulos, perspectivas e olhares novos, mesmo que seja de um assunto que tantas vezes já fotografei.
Claro que possuo as minhas predileções, mas em geral tenho o mesmo prazer em fotografar macro, como eventos sociais e imagens institucionais. O momento de captura das imagens é uma terapia que me faz bem. Gosto de ficar pensando na cena, levando vários minutos para concebê-la, pois acredito que a foto já deva estar pronta na sua mente antes de você transformá-la no quadro finalizado. Acredito que essa forma de concepção tenha vindo da minha experiência com filmes, já que a quantidade de frames é limitada em relação ao sistema digital que usamos atualmente.
Em contrapartida é extremamente válido o feeling e o momento, onde não dá para ficar pensando como gostaríamos que a foto ficasse, sob pena de perder aquilo que realmente interessa, parafraseando o “instante decisivo” que o mestre Bresson tanto propagou.
A minha frustração na fotografia fica por conta de retratos, books e ensaios relacionados a estúdio e externas. Se bem que não sei se posso colocar como frustração, porque ainda procurei mergulhar de cabeça neste universo. Apesar de considerar lindos os trabalhos, não consigo gerar imagens nesta área que possa dizer com certeza que me agradem.

4-Quais suas influências na fotografia, e o por quê?

Existem fotógrafos que gosto muito e em cima dos trabalhos que vejo deles, espero um dia poder captar 1% daquilo que conseguem transmitir. Sei que é chover no molhado, mas sou um verdadeiro apaixonado pelas fotografias de Henry Cartier-Bresson. Sempre me vejo maravilhado ao admirar o seu olhar, a forma como capturava as cenas e o cotidiano popular. Sem falar da limitação que ele possuía, por conta de usar uma lente fixa, fotografar em preto e branco e com uma câmera que nem fotômetro tinha. Era muito feeling e técnica para pouco equipamento (mesmo usando Leica com lente de boa ótica, existia a limitação tecnológica da época).
Buscando algo mais contemporâneo, o gostoso desse mundo plugado de hoje é que podemos conhecer o trabalho de grandes fotógrafos que antigamente ficariam a margem do esquecimento por não terem o devido reconhecimento na mídia especializada. Algumas destas pessoas norteiam bastante o meu universo e sempre dedico um tanto da minha atenção ao trabalho que eles desenvolvem, servindo de grande inspiração para mim. Sei que estarei cometendo grandes injustiças, porque a minha lista de fotógrafos preferidos é enorme, mas gostaria de citar alguns deles:

Alberto Nogueira Júnior – pela beleza estética e bem expressa nas suas fotos. Composições muito bem estudadas (dá para sentir o quanto ele pensa para fazer), ao mesmo tempo com ótimos momentos que consegue capturar, sobretudo nos trotes de cavalos.

Juca Filho e Janine Bergmann – Essas grandes figuras possuem um olhar muito apurado do nosso cotidiano. Suas fotos são carregadas de conceitos e idéias que nos levam a pensar sobre aquilo que estão mostrando. A meu ver é impossível passar indiferente pelas suas imagens. Extremamente favoritos.

Fabíola Medeiros – Para mim é uma inspiração quando se fala em retratar pessoas. Seja em fotografias externas ou estúdio, Fabíola é detentora de muita criatividade e apuração. Suas fotos além de explodirem qualidade, nos deixa curiosos pela forma como foram concebidas. Conceito, técnica e muito feeling são aquilo que consigo sentir do seu trabalho.

Alexandre Grand – Esse cara é sem dúvidas um dos mais descolados na área que conheço. Quando se quer ver imagens impactantes, artísticas e com uma dramaturgia bastante puxada, é impossível não perambular pelas galerias do mestre Alê. O que mais me impressiona em seus retratos é a cara de pau dele em fazer qualquer foto que lhe dê na telha. Ele tem cara, coragem e peito para assumir qualquer desafio e quem duvida disso, só passar em seu flickr.

Paulo Magoo (digital / película) – De todos, acho que é o que mais se assemelha ao meu modo de fotografar, pois é do tipo “venha qualquer coisa que nós traçamos” rsrs… Seja fotografando perspectivas, luzes, arquiteturas, cotidiano; ele sempre consegue aliar ótimas técnicas ao seu feeling da mais pura paixão pelo exercício da fotografia. Outro fator interessante é o fato de usar tanto o digital quanto o analógico (assim como eu) e mesmo assim consegue se garantir em ambos os padrões.

5-Duas fotos suas que te deixam de queixo caído (esquece a modéstia), e qual a razão da força dessa foto?

Essa imagem me agrada pelo momento. Foi bem ao estilo “momento decisivo”. Estava na praça central de Angra dos Reis fotografando com a minha esposa. Tínhamos sentado para descansar um pouco e eu estava com a 70-300 encaixada na câmera. Tomando uma água e observando o movimento, enquanto seguíamos conversando. Ao olhar para o lado vi a mãe conversando com o garoto de forma bastante séria. Parecia que ele estava sendo repreendido e como ele parecia estar distante da conversa, me deu uma encarada rápida. Foi o tempo de empunhar a câmera e fazer o disparo. A forma como registrei a cena, mantendo a privacidade do garoto me agradou muito, porque nesta imagem é um tanto difícil dizer quem ele é, por ter um de seus olhos quase fora de quadro e o restante do seu rosto tampado pela mãe a sua frente. Joguei num tratamento sépia, com um pouco de granulação e ficou desde então uma das minhas preferidas no set.

Essa foto é a da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, de São João Del Rey/MG. Busquei retratar a igrejinha de um ângulo que trouxesse imponência e ao mesmo tempo elegância, já que ela é bem pequena e fica em uma colina bem interessante no centro da cidade. Tive que deitar na escadaria para conseguir o efeito pretendido e às vezes fico pensando que ela poderia ser uma montagem, dado ao destaque que acabou recebendo na composição. Busquei equilibrar os elementos presentes na cena de forma que eles não competissem entre si e a meu ver consegui o resultado pretendido. Ela foi feita originalmente em cores, mas já tinha a idéia de transformá-la em PB.

6-Duas fotos suas que deixam a galera em geral de queixo caído (esquece a modéstia), e qual a razão da força dessa foto?

Para mim essa não faz parte das melhores que já tive a oportunidade de fazer, mas por incrível que pareça é a minha fotografia mais popular na internet. Inclusive foi com ela que ganhei o prêmio público do Festimage (Festival Internacional da Imagem da cidade de Chaves, em Portugal) em 2007. Acredito que o apelo ecológico que ela traz deva falar alto, por conta de uma vistosa árvore ao lado de outra seca, praticamente morta. O interessante desta imagem é que foi feita com uma camerazinha compacta (Casio Z750) da janela do apartamento de um amigo meu no bairro Aquarius, em São José dos Campos. Levo comigo como exemplo de que equipamento não é quem garante uma boa foto.

Essa foto é bastante popular no meu photostream (conta até agora com 163 comentários e 104 favoritos) e apesar de não ser uma pessoa religiosa, tenho bastante orgulho de tê-la feito. Acredito que as pessoas sejam motivadas pela fé ao interpretarem a idéia desta foto, além é claro da técnica usada para a captura das luzes que inundavam a capela das velas, na Basílica de Aparecida. Tem ainda a projeção no chão e como os contrastes são bem definidos, o PB carrega muito mais a idéia de impacto do que se estivesse em cores.

7-Duas fotos de terceiros que te derrubam o queixo, e qual a razão da força dessa foto?

Essa pergunta faz parte daquelas que acabamos fazendo injustiça diante de tantos trabalhos interessantes e super bem elaborados ao qual gostaríamos de mostrar (sobretudo lembrar para trazer para cá). rsrs.
Deixando de fora imagens dos colegas já citados, trago duas fotos que gostei bastante:

Parece uma foto simples de ser realizada, mas para quem gosta e tem uma boa noção sobre enquadramentos, sabe que é necessário uma boa olhada para conseguir algo interessante. Primeiro essa imagem me remete a um futuro high tech, como se o homem chegasse num patamar ainda mais evoluído para viagens interplanetárias e novas conquistas. Segundo que o indivíduo posicionado ao centro da imagem, me assusta. Parece um senhor soberano, sempre observando o que os seus comandados estão fazendo. Esta foto me remete ao livro “1984” de George Orwell, que retrata o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo no ano homônimo, sob a ótica do grande “big brother”, a quem tudo vê, ouve e repreende. Esse livro serviu inclusive de inspiração para o reality show BBB da Rede Globo.
Voltando a foto, adoro a simetria, as luzes e os reflexos muito bem explorados. Uma belíssima imagem da colega Cláudia Castro.

Essa foto da Solange Moreira me agrada pelo momento totalmente inusitado. É com certeza uma daquelas que se você não for rápido no gatilho, deixa passar batido num piscar de olhos. As cores bastante puxada, bem como a distorção da cena fora de foco ficou bastante impactante. E o momento em si foi muito feliz, como se o novilho fosse dar uma bela lambida na lente. Talvez o momento tivesse mais para assustar do que se registrar e a fotógrafa conseguiu isso muito bem. A área de foco super bem definida no nariz e a língua num desfoque bacana, ainda garantiram uma leve idéia de movimento.

8-Qual seu equipamento, e por que esse equipamento?

Já fui um cara muito ligado a equipamentos. Daqueles que viviam trocando de câmeras, comprando e vendendo lentes, além de outros acessórios, querendo sempre estar atualizado. Faz mais de dois anos que não troco de câmera, pois acredito que para as fotografias que tenho realizado, estou muito bem equipado. Aprendi durante os últimos anos que só devemos trocar de equipamento quando aquele que possuímos deixa de nos satisfazer. Tenho deixado a necessidade guiar os meus investimentos e não mais aquela ânsia em estar atualizado pela pura obrigação de acompanhar o mercado.
Atualmente possuo um set bastante simples e de certa forma um tanto defasado frente as novidades à disposição no mercado. Estou com uma Nikon D200 e uma D50, dois flashes (SB800 e SB600) além de algumas lentes mais modestas ainda, como as Nikkor 18-70mm, 18-105VR e 50mm f1.8. Tenho duas Sigmas 70-300mm APO Macro e o meu xodozinho, que é a 10-20mm.
Possuo ainda uma Nikon FM (35mm), com uma lente fixa Pré-AI 24mm f2.8, que de vez em quando carrego para brincar com alguns filmes diferentes e difíceis de se achar por aqui e que ainda mantenho guardados na geladeira.

9-Como o equipamento que você usa influi no tipo de foto que você faz?

Em geral, sou fascinado por perspectivas, distorções e angulações diferenciadas. Sou do tipo que gosta de ver grande (enquadrar muita coisa)… Tenho uma predileção enorme por lentes grande angulares/fisheye em relação as zooms.

Seguindo essa temática é muito difícil conseguir tais resultados sem o equipamento certo que consiga entregar aquilo que você pensou para a sua imagem (o pensar a foto deve vir antes). É por isso que atualmente tenho mantido minha lente grande angular o maior tempo na câmera. Jamais conseguiria esse tipo de fotografia utilizando lentes que não fossem específicas e nesse ínterim é necessária uma câmera que possibilite esses manejos. Mas vale ressaltar a velha idéia de que a câmera não faz o fotógrafo, mas sim o seu olhar apurado e sensibilidade necessária para captar o belo. Tenho comigo que fotografia boa pode ser feita tanto em uma câmera ultra-mega profissional, quanto em uma consumer, assim como fotografia ruim também pode vir da mesma relação. Tanto que possuo no meu blog uma série de artigos que fiz para tentar ajudar quem está começando nessa área, sempre focado na necessidade que você terá para escolher o seu equipamento:

http://blog.rostev.com/2010/03/escolhendo-camera-parte-i.html
http://blog.rostev.com/2010/04/escolhendo-camera-parte-ii.html
http://blog.rostev.com/2010/05/escolhendo-camera-parte-iii.html

10- Qual a importância da edição para suas fotos?

Faço parte do time que considera a fotografia um produto final e o que você faz para torná-la melhor faz parte do processo de concepção da mesma. Não tenho absolutamente nada contra puristas que consideram um absurdo a edição de fotos, mas para mim isso não funciona. O processo de edição é algo tão velho como a própria fotografia, afinal de contas a câmera é um meio de captação da cena e o seu resultado nunca é 100% fiel aquilo que estamos vendo a olho nu. Então, se a fotografia é uma interpretação de uma realidade impressa por equipamentos, porque não aplicarmos também o nosso toque pessoal no pós câmera?
Sou favorável a edição e assumo que praticamente 100% das minhas fotografias colocadas na internet passaram por algum processo de ajuste, sobretudo para adequação ao meu gosto. Quem acompanha os meus trabalhos sabem que adoro saturação e contrastes puxados e aquilo que consigo direto da câmera (mesmo afinando suas configurações) não chegam perto do que gosto de ver impresso nas fotos. É justamente ai que faço as minhas edições. Sem falar o fato de passá-las por processos artísticos como tilt-shift, cut-out, solarização, x-process (muito realizado inclusive na época das películas) high-key, low-key, etc…
Quando quero fotografias em preto e branco, jamais as faço direto na câmera, apesar de conceber várias delas pensando neste tipo de apresentação. Todas as minhas fotos PB foram convertidas através de processos de edição. E olha que dou uma importância ímpar para este tipo de fotografia, porque na minha concepção, quando bem apresentadas garantem um impacto bem mais forte que as coloridas.

Em compensação existe para mim um antagonismo neste assunto. Há alguns tipos de edições que não me permito fazer como por certo capricho, como por exemplo, realizar cortes abruptos na foto além de ficar inserindo e retirando elementos presentes na composição, até porque para mim isso deixa de ser edição e passa a ser manipulação.
Nas fotografias 35mm também não me permito transformar em preto e branco imagens que foram feitas em filmes coloridos, até porque se eu quisesse-as em PB, teria utilizado um filme próprio, sobretudo porque os resultados das películas PBs são muitas vezes imbatíveis, ainda mais quando falamos em boa latitude. TriX 400 puxado para 1600:

11- Sabemos que idealmente sensibilidade e técnica devem andar juntas, mas como é complicado alcançar o ideal sempre se tende mais para um lado ou para o outro. Então: o que é mais forte em sua fotografia: sensibilidade ou técnica?

Essa é uma verdade quase absoluta na fotografia. Perfeito seria conseguir esse equilíbrio e infelizmente pouquíssimas pessoas conseguem atingi-lo na maior parte dos seus trabalhos, ao qual não acredito fazer parte. Mas também devemos pensar que esses parâmetros são muito interpretativos. Inclusive o bacana da fotografia e o que a faz ser uma forma de expressão artística é justamente o fato de podermos interpretar aquilo que estamos visualizando. O que é algo extremamente sensível para uma pessoa, acaba passando despercebido para outras e isso é muito normal.
Acredito que em algumas fotografias consigo fazer a técnica sobressair. Em outras a sensibilidade e em alguns outros tantos eu simplesmente acabei fazendo registros sem quaisquer compromissos, porque apesar de ser salutar buscar aquele “algo mais que chame atenção”, às vezes queremos apenas garantir um registro sem se preocupar em agradar os espectadores. Claro que o fazer fotos é uma ação social que existe para que outros apreciem, pois do contrário ninguém manteria portfólios online. Se você traz a público é porque quer mostrar e logicamente poderá ter suas fotos julgadas por isso. Costumo me relacionar bem com esse fato e assumo que algumas delas só agradam mesmo a mim e nem sempre pela técnica ou sensibilidade.
Para não passar direto sem julgar o meu trabalho, acredito que esteja inclinado mais para a técnica.

12- Vais em busca da foto ou a foto te encontra no meio do caminho?

As duas coisas… Por sinal, alguém responde diferente disso? rsrs.
Claro que o interessante é você buscar a fotografia, afinal você é quem sabe a imagem que quer fazer. Contrário a isso é deixar com que comandem o seu olhar, o que não colabora em nada para o seu próprio engrandecimento.
Mas qual fotógrafo não esteve na hora certa, no lugar certo e com a câmera em mãos (melhor ainda quando já bem ajustada)?
Comigo já aconteceu e obviamente não perdi a oportunidade de fazer a foto. Cito por sinal essa imagem abaixo que acabei registrando por conta da oportunidade:

Ela é tanto velhinha (feita em 2006). Estava fotografando o fim de tarde da sacada do meu apartamento, quando de repente apareceu um beija-flor na minha frente. A câmera já estava toda regulada e precisei somente ajustar o enquadramento e realizar a captura. Resultado: acabou sendo uma das fotos mais populares no meu flickr. Já aconteceu algumas dezenas de vezes isso comigo, mas em geral eu é que corro atrás da fotografia que quero fazer.

13-Gosta de ser fotografado? Ou em casa de ferreiro o espeto é de pau?

Olha, teve uma época que eu detestava ser fotografado. Há algum tempo não tenho mais problemas com isso. Até porque faço parte de alguns grupos de fotografias, dentre eles o Vale Foto Clube e mensalmente realizamos passeios fotográficos em cidades da nossa região e nessas movimentações todas é impossível você não virar alvo das lentes. Encaro isso com bastante naturalidade, apesar de achar que não sou um belo exemplo daquilo que se queira fotografar. ehehehe…

Gosto de ficar pensando na cena, levando vários minutos para concebê-la, pois acredito que a foto já deva estar pronta na sua mente antes de você transformá-la no quadro finalizado. Acredito que essa forma de concepção tenha vindo da minha experiência com filmes, já que a quantidade de frames é limitada em relação ao sistema digital que usamos atualmente. – Rostev

Rodrigo, sei do seu envolvimento com a fotografia em filme.
Inclusive você é, junto com o Magoo, um dos mais ativos na área 35mm aqui do DF, tocando o espaço de forma bem regular e trazendo ainda novos usuários a descobrirem o prazer do filme, como o Gabriel e o Montoia, por exemplo.

14- E aí lhe pergunto: filme ou digital? Por quê?

Primeiramente obrigado pelas simpáticas palavras. A fotografia analógica é uma paixão que não consigo me desvencilhar, mesmo com toda as vantagens e constante melhora do sistema digital. Na realidade sou adepto dos dois formatos, mas o “conceber clássico” da fotografia de película ainda me cativa muito. Como já havia mencionado, o meu pensar fotográfico foi lapidado em cima deste formato e como boa escola, trago esse padrão para as minhas atuações no digital.
Existe todo um romantismo em fotografar com filme, pois os resultados são bastante diferenciados de acordo com a película que se está usando. A fotografia analógica ao meu ver cobra mais do nosso conhecimento, porque exige que você conheça características dos filmes para ser implementado de acordo com a utilização. Cores, saturações, latitudes, velocidades, granulações, compensações de exposição/revelação, entre outros fatores são determinantes para garantir uma boa foto.
No digital é tudo muito mais fácil… Você determina sensibilidades diferentes para cada tipo de foto. Te da oportunidade de ver os resultados na hora e no analógico não. Você precisa saber o que vai fotografar e usar o filme certo. Sem falar naquela expectativa toda de esperar o filme ser revelado. As surpresas são muito maiores, assim como as decepções (uma eterna faca de dois gumes). Enfim, a fotografia analógica me ajuda a buscar um conhecimento maior, ao mesmo tempo que me obriga a ser certeiro em um ou dois shots, afinal não dá para ficar clicando a esmo com quantidades limitadas de frames.
Vale salientar que para volumes de trabalho atualmente, deixou em muito de ser vantajoso a utilização das películas, tornando o digital imbatível, sem falar na constante melhoria tecnológica deste sistema. Na minha opinião não vale mais a pena fotografar cromos e com alguns negativos coloridos. O digital suplanta isso muito bem. Agora na fotografia preto e branca, a minha adoração pelos filmes ainda é enorme.
Infelizmente tenho estado muito afastado da fotografia por conta de vários compromissos pessoais e por este motivo não tenho mais conseguido dedicar tempo a minha paixão a fotografia de filme, ainda mais porque eu mesmo digitalizo as minhas fotos. Me consome tempo, dinheiro para o filme/revelação e mesmo assim não deixo de gostar. Saudosismo que alimento com muito amor.

15-Rodrigo, indo no sentido da questão do Peri. Com a capacidade das atuais DSLR em fazer várias fotos em um só segundo estaremos decretando o fim do momento decisivo aos moldes do Bresson, estaremos decretando o fim do pensar para se obter a foto desejada?Marcos Borges Filho.

Marcos, na minha concepção infelizmente a popularização da fotografia digital, sobretudo no mercado da comunicação, tem produzido um tipo de profissional que muitas vezes está mais preocupado em estar em vários lugares ao mesmo tempo, atuando em todos os tipos de frente e com isso se interessando menos em criar o importante impacto para transformar uma foto apenas em algo que possa se tornar o marco de um período (ou situação).
Se em determinado lugar acontece uma situação interessante, os fotógrafos do digital ativam o burst de suas câmeras e criam verdadeiros filmes, com frames sequencialmente tão completos que fazem com que deixem de pensar naquele que seria o ápice do instante. A comodidade do digital garante isso, além de quê, a fotografia que antes pertencia apenas ao fotógrafo, passa a ser escolhida e definida não por este profissional, mas pelo editor que irá escolher aquela que PARA ELE será instante decisivo.

O “instante decisivo” continua existindo (talvez não mais naqueles moldes estabelecidos por Bresson). Em uma daquelas imagens sequenciais deverá (ou deveria) estar o momento mais importante. Aquele que define em apenas um quadro toda a informação do instante. A diferença é que um profissional que ainda se mantém preocupado com o alinhamento do seu olhar e a precisão do momento do disparo, consegue distinguir o instante perfeito, daquele que necessita de toda a sequência para se garantir. O adepto do instante decisivo é dono DA FOTO ou quem sabe DO PRÓPRIO MOMENTO, já que foi necessária a sua percepção sensorial para registrá-lo.
Este momento é muito mais amplo do que disparar a esmo… Tem toda uma aura intrínseca que vai além da própria movimentação: olhares, expressões, enquadramento, luz, aquilo que se quer mostrar (até por conta do inconsciente coletivo)… São tantas variáveis que somente aquele que se mantém em um estado de permanente aperfeiçoamento consegue se sobressair.
Mesmo no digital, com todos os seus avanços, acredito que ainda podemos ter fotógrafos que consigam “alinhar – nas palavras do mestre Bresson – a cabeça, o olho e o coração” (pelo menos quero crer nisso).

16- Partindo do pressuposto da forma comportamental na utilização do filme (pensar, compor, esperar e clicar, além do fato já descrito por você de não poder se ter o luxo de queimar vários frames por uma única foto – fator custo ) você acha que um fotógrafo que veio da era filme é mais bem preparado que um que se inicia já no sistema digital?

Em termos gerais, quem veio da escola dos filmes acaba valorizando mais os quadros que tem disponíveis para queimar. Mas a bem da verdade, os fotógrafos do digital também podem implementar este pensar a fotografia. É aquela questão de valorizar a melhor forma de captação. Não é porque temos o cartão de memória como limitante quase infinito da quantidade de fotos que precisamos sair clicando tudo sem se preocupar com a qualidade do resultado final. Não vejo validade na quantidade suplantando a qualidade. O aperfeiçoamento do olhar, na busca da maior sensibilidade ainda é o melhor caminho para visualizar trabalhos de destaque.

17- Por outro lado o fotógrafo do sistema de filme também teve de se reciclar, sobretudo no que diz respeito a tratamento pós-captura, algo que não existia de forma tão presente como agora.

Como você vê estes 2 lados da moeda?

Essa é uma questão muito pessoal. Alguns puristas não aceitam essa nova tendência e eu respeito isso, ainda mais aqueles que ainda sentem a fragilidade do sistema digital frente ao analógico. Conheço amigos fotógrafos que se sentem desamparados ao ver suas imagens convertidas em arquivos digitais. Sem a presença do físico, ou seja, do negativo em mãos se sentem fragilizados, com a idéia que podem perder o seu trabalho numa situação de pane (falando dos atuais sistemas de armazenamento disponíveis atualmente). Sou de uma geração que vivenciou essa migração e consigo aceitar com maior facilidade o atual sistema. Minha atuação na área analógica é um pouco difícil de ser entendida. Gosto das cores e nuances que cada filme pode entregar, mas acabo no final digitalizando tudo que faço com películas. Poderia muito bem me servir de softwares que simulam tratamentos e filmes diversos, mas gosto de sentir ainda o gosto da antiga tradição nos resultados. Quem não se lembra das cores mais quentes puxadas em boa parte das películas Kodak? Ou dos tons mais frios predominantes no sistema Fuji? Sem falar das baixas faixas de erros com chromos. É gostoso ainda hoje poder sentir isso. Uma pena que cada vez mais esteja caindo em desuso, já que filmes interessantes nem se encontra mais para comprar (pelo menos no Brasil). Sem falar nas brincadeiras de processo cruzado com os cromos, as reversões expressas no redscale ou ainda as puxadas de ISO que tanto intensificam os contrastes dos PBs químicos (contando inclusive com filtros coloridos em diversas aplicações). É ótimo poder inovar com o antigo. Espero ainda durar um bom tempo.

18- Quando se passa a se tomar a fotografia como arte, não se começa com um certo preconceito, colocando-se num lugar inferior o fotógrafo do fato, do documento (não me refiro aqui ao 3×4, claro!!!)? – Marcos Borges Filho.

Não necessariamente… A famosa foto da menina afegã fotografada por Steve McCurry em 1984 num campo de refugiados no Paquistão é um exemplo de fotografia que ao mesmo tempo que demonstra a menina com seu olhar duro em relação a momento em que vivia, garante uma arte incrível, como se fosse uma pintura com a mais bela luz, momento e expressividade:

A boa fotografia factual, pode gerar uma gama de representações que muitas vezes superam a própria realidade. Acredito que os grandes fotojornalistas conseguem capturar a importância do momento e ao mesmo tempo expressar arte. Volto a frisar a importância da interpretação das imagens, que culmina em algo extremamente pessoal.
Temos muitas outras imagens assim, como o famoso beijo na Times Square (fotografado por Alfred Eisenstadt simbolizando a comemoração do fim da segunda grande guerra)

E a foto “o soldado caindo” de Robert Capa, tirada em Córdoba em 1936 durante a Guerra Civil espanhola, registrando o momento em que o soldado feriado cai com o fuzil na mão.

Todas essas imagens garantiram momentos incríveis e ao mesmo tempo são proprietárias de uma plástica artística muito impactantes na minha concepção.

Para finalizar, gostaria de agradecer imensamente o convite feito pelo Peri em poder falar um pouco sobre a minha atuação na fotografia e como faço para concebê-las no meu dia-a-dia.
É uma honra fazer parte de um hall de fotógrafos tão interessantes como os que temos aqui no fórum, que por sinal é uma escola para todos nós. O Digiforum está e sempre esteve presente durante muito tempo em minha vida e foi em cima de tanta coisa que aprendi aqui, que acabei criando um blog para mostrar o meu trabalho e consequentemente ajudar alguns colegas com suas dúvidas. Tenho estado um pouco ausente devido aos meus compromissos pessoais, mas faço questão de sempre dar uma passada por aqui e me inteirar das discussões que andam acontecendo (muitas vezes sem opinar). Quem não se atualiza, acaba ficando no esquecimento.

Um forte abraço a todos.

Rodrigo

Meus links na internet – http://www.meadiciona.com/rostev

—–

Participação: Marcos Borges Filho, nas partes citadas.

—–

Em foco: Paulo Machado.

Dr. Paulo, sempre inciamos assim:
Me trace um breve perfil, se possível c a inclusão de uma foto.

Vamos lá, Peri.
Tenho 45 anos, nasci no Rio e sempre morei aqui, sou médico cardiologista, formado há 20 anos.
Comecei a fotografar com uns 12 anos, quando ganhei uma câmera da kodak, série Istamatic, que usava filme 126 que vinha em cartuchos, coisas de museu. Sempre fui o “fotógrafo” da família.
Com o tempo houve altos e baixos com relação a fotografia, umas épocas mais ativo, outras mais devagar. Com a minha primeira digital, em 2004 se não me engano, ficou bem mais fácil, e de lá para cá nunca mais parei.

2- Por que médicos gostam tanto de fotografia? – rs

Acho que é só para desestressar. vale qualquer coisa. Conheço quem corra, quem veleje e até quem fotografe. rs

3- Dr.Paulo, sei do seu envolvimento c a fotografia de filme, inclusive vc me mandou há algum tempo uns químicos de revelação.
Com o avanço e a popularização do digital a que estágio vc acredita que o filme está, especificamente no Brasil e lá fora?
Ainda vale à pena usar filme?

Acho que no mundo o filme está com os dias contados, será um mercado de nicho para poucas pessoas.
Para mim a digital já substituiu o cromo e o negativo, não por ser melhor, mas por ser muito mais prático. Cromo é caro, difícil de ter onde revelar e o escaneamento no meu scanner caseiro não dá resultado muito bom. Com o negativo a gente fica refém do laboratório, que frequentemente tem um resultado ruim. Já filme PB é outra negócio, posso revelar e escanear em casa, ficando dono de todo o workflow, além do resultado ser muito melhor do que digital.

4- Que equipamento você tem usado e como ele influencia em seu modo de fotografar?

A minha câmera atual é uma Sony A100, com mais lentes do que realmente preciso, e uma Panasonic LX3. Além das câmeras de filme, claro, uma Minolta Maxxum 5, uma 7 e uma Yashica mat.
Mas o equipamento para mim não é muito importante, o que tiver em mãos está ótimo. Mais importante é a busca pela melhor luz, pela composição, como diz o ditado “F8 and be there”.
O que não pode faltar é uma grande angular.
E ultimamente a compacta me dá mais prazer do que a DSLR. Por ser menor e mais leve dá para carregar para todo o lado e as pessoas não ficam intimidadas com uma compacta como ficam com a A100.

5- Há algum tempo atrás, quando o Clube Sony foi iniciado no DF, vc foi um dos primeiros a adquirir uma Sony Alpha.
À época vc sentiu na pele alguma espécie de discriminação por usar equipamento Sony?
E hj em dia, como vc vê a relação Sony x Canon x Nikon em termos de qualidade de imagem e equipamentos?

Na verdade eu comprei uma Sony por causa das lentes que eu tinha, usava em uma Minolta 5D que deu defeito e até hoje está largada aqui no armário.
Escolhi a Minolta, e depois a Sony por consequência, por causa da estabilização no corpo e por causa das famosas cores da Minolta.
Discriminação nunca senti, só interesse de conhecer a marca por parte dos colegas.
Acho que a qualidade de imagem hoje em dia é muito alta e as marcas se diferenciam por detalhes. Tenho certeza que qualquer das marcas me satisfaria completamente.

6- Depois de escolhida a Sony (por causa da Minolta) vc achou que valeu à pena, foi o que vc esperava?

Valeu porque foi uma câmera usada e estava no meu orçamento.
Como eu já conhecia os pontos fortes e fracos dela não fo inenhuma surpresa. Os fracos não atrapalham o meu estilo de foto.
A Sony tem uma qualidade pouco comentada, que são as cores. Não são todas as câmeras, mas a A700, 850 e 900 são muito boas, assim como as NEX agora. Eu considero melhor do que a Nikon e bem melhor do que a Canon neste quesito.

7- Mas se isto for dito numa roda de fotografia vai causar uma polêmica …

Ainda bem que o Iliah Borg concorda comigo, pelo menos quanto a A900.

http://forums.dpreview.com/forums/read.asp?forum=1021&message=31131813

8- Dr. Paulo, falando de influências fotográficas, quais são as suas?
Baseado nestas influências, o que você acha que transmite delas para o tipo de fotografia que você faz, e que tipo de fotografia mais lhe agrada em fazer?

Os fotógrafos que mais gosto são Ansel Adams, Cartier-Bresson, Sebastião Salgado, Galen Rowel, Araquém Alcântara, Evandro Teixeira, só para ficar nos famosos.

Um site de fotos que gosto muito é este, fotos de paisagem.

http://www.outdoor-photos.com/

E uma revista que merece destaque para mim é a National Geographic. O trabalho dos fotógrafos que eles fazem é maravilhoso
Estes fotógrafos conhecidos ou anônimos me inspiram na busca pela melhor luz, pelo local especial, nada como uma caminhada e depois um por do sol em um local especial.
O tipo de foto que mais gosto é de paisagens.

9- Voltando nossa atenção para a parte de equipamento.
Você comentou da provável extinção do filme.Se não extinção uma dificuldade maior em função de todo o processo que o filme envolve.
Fotografar, revelar, escanear e aí a mídia internet em si, levando-se em conta que grande parte da fotografia feita hj em dia ter como destino final a web.
Agora vamos na outra ponta e vemos o enorme desenvolvimento da fotografia digital, mais prática, rápida e “disponível ao mundo” (em visualização) em segundos.
Agora a Sony lançou a NEX e tem investido no campo da eliminação do espelho nas DSLR’s.
O que vc acha disto?
Onde vc aha que pode ser o limite de desenvolvimento das DSLR especificamente?
Fale tb um pouco sobre suas impresões sobre a NEX (se quiser poste algumas fotos).

Engraçado que recentemente a Kodak lançou um novo filme, o Portra 400, otimizado para ser escaneado. Quando a gente acho que está acabando, o filme mostra força. Falta aos grandes fabricantes investirem em desenvolvimento de scanner e câmeras de filme novas, quem sabe tem mercado para isto.

O que mantém os usuários fiéis as DSLR e por consequência ao espelho é o viewfinder ótico com sua enorme clareza da imagem. Mas e se um EVF chegar lá, como justificar o espelho? E nas DSLR de entrada, em que o viewfinder não é lá estas coisas?
Já li fotógrafos que defendem o espelho e os que são céticos com relação a ele. Pessoalmente acho que em um futuro não muito distante as câmeras de entrada serão sem espelho.
A Sony deu um passo ousado. Aparentemente não terá mais câmeras aps-c com espelho. E pela resposta as NEX a linha irá continuar a se desenvolver com um possível corpo mais parrudo, a NEX 7. Posso dizer que gostei muito das novas A33 e 55 pelo tamanho e pela responsividade e adoraria experimentar uma destas. E o vídeo também é um grande atrativo. Com uma câmera menor, sem aquela cara de “profissional” as pessoas ficam mais relaxadas. Quando a gente vai tirar uma foto e levanta a câmera até o olho a primeira coisa que a pessoa que está na mira faz é olhar para vc com aquela cara: o que que ele está fazendo?
Já as NEX eu acho que falta um viewfinder. Compor pelo LCD tem suas limitações, especialmente em dia de sol. Mas a cara de compacta junto com o LCD móvel ajuda nestes casos também.

Engraçado que recentemente a Kodak lançou um novo filme, o Portra 400, otimizado para ser escaneado. Quando a gente acho que está acabando, o filme mostra força. Falta aos grandes fabricantes investirem em desenvolvimento de scanner e câmeras de filme novas, quem sabe tem mercado para isto.

10- Tenho uma ligeira impressão que lá fora a coisa é mais simples e o mercado bem mais forte, e as facilidades, maiores … vc acha que a questão do filme é mais complicado em nosso mercado apenas?

Tudo lá fora é mais simples, rs.
O mercado aqui é nanico comparado com Europa, EUA, Japão. Estamos na mão de poucos fornecedores de serviços e mercadorias, impostos enormes. Duvido muito que a Kodak vá lançar este filme por aqui, como também não lançou o seu último filme, o Ektar.

11- Me mostre uma foto sua feita em filme, ou mais de uma, em que vc acha que se fosse em digital não teria a mesma força.

Por causa do compromisso que a gente tem que fazer para não estourar e baixa latitude as sombras ficam com pouco detelhe. E as cores do filme, a riqueza dos tons de verde, vermelho, são bem melhores.
Claro que tem os problemas, balanço de branco, granulação em ISO maior do que 400 e o mais chato, ficar na mão dos labs. Olhe uma foto de exemplo. Em cima uma digitalização do lab em baixo a minha caseira. Isso que desanima.

E o vídeo também é um grande atrativo.“Paulo Machado”

Isto é algo que eu pessoalmente não vejo como uma boa coisa.
Acredito que são mídias que não podem conviver bem em excelência.

E acho tb que a pessoa que busca uma câmera fotográfica com recursos superiores (a nível pró ou semi-pró) não quer ver nela recursos de vídeo.

São mídias diferentes, com propostas diferentes e que são mais atraentes em equipamentos diferentes.

12 – O que vc acha disto?

Tudo que vier é lucro. Se a câmera é boa e além disto tem vídeo melhor ainda. Assim como o auto-HDR, panorama e o que mais aparecer. Claro que eu faço um panorama melhor com o computador, ou HDR, mas não é todo mundo que quer aprender a mexer nos programas e pagar por eles, o que não se aplica muito por aqui.
Assim como certamente uma câmera de vídeo especilizada é melhor, mas custa milhares de dólares e o consumidor final teria medo até de mexer nela.
A tendência atual é a convergência, é isto que o mercado quer e os fabricantes estão atendendo.

Pessoalmente acho que em um futuro não muito distante as câmeras de entrada serão sem espelho.
A Sony deu um passo ousado. Aparentemente não terá mais câmeras aps-c com espelho. E pela resposta as NEX a linha irá continuar a se desenvolver com um possível corpo mais parrudo, a NEX 7.

13- Não seria melhor ( sobretudo em termos de qualidade de imagem) que os fabricantes investissem mais em popularizar as FF do que investir numa nova tecnologia (a retirada do espelho)?

Melhor e uma palavra difícil. As câmeras FF tem vantagens em relação as APS, como o controle do DOF e ISO alto com menos ruído, por exemplo. Mas estas mesmas vantagens podem ser encaradas como desvantagens para alguns tipos de foto. Em paisagens que acabam precisando de f16 para deixar tudo em foco, vc terá que usar tripé, porque as velocidades ficam muito baixas. Ou o fator de crop das APS que potencializa a sua lente 500mm em uma poderosa 750mm. Por outro lado que quer tirar fotos praticamente no escuro com um DOF curto com uma full frame é mais fácil.
Outro limitante é o tamanho do equipamento. Uma Nikon D700 comparada com
uma A55.

Não sei se é a idade, mas acho que hoje em dia estou preferindo as menores. -rs.

Com uma câmera menor, sem aquela cara de “profissional” as pessoas ficam mais relaxadas. Quando a gente vai tirar uma foto e levanta a câmera até o olho a primeira coisa que a pessoa que está na mira faz é olhar para vc com aquela cara: o que que ele está fazendo?

14- Já passou por alguma situação desagradável ou curiosa que possa contar?

Nada de muito diferente. Gente que vira a cara, que reclama, que pergunta em que jornal vai sair, que diz que vai cobrar, estas coisas.
Até nas fotos em que vc pergunta se pode fotografar e a pessoa concorda ela nao fica muito natural.

15- Paulo, pesquei 3 fotos em seu álbum do Flickr em Infrared (para quem não sabe uma técnica de fotografia em Infra Vermelho).

1-

2-

3-

Gostaria que vc comentasse sobre a técnica em si e o que te interessa nela.

Seus experimentos c a técnica IR terminaram ou não necessariamente é um experimento?

Se não é um experimento, em que situações vc acha viável se utilizar do IR?

O sensor das câmeras digitais é sensível a uma faixa de luz não visível, tanto no infra-vermelho quanto no ultra-violeta. A faixa sensível ao infra-vermelho é a proximal, principalmente a luz do sol refletida pelas plantas, e não o infra-vermelho termal, como em equipamentos militares.
Para não haver interferência desta luz não visível nas fotos os fabricantes colocam um filtro anti-IR na frente do sensor, junto com o filtro low-pass. Então dependendo deste filtro a sensibilidade nativa das câmeras ao infra-vermelho varia muito, mas em geral são bem pouco sensíveis, necessitando de exposições na casa dos segundos.
É muito comum lá fora se retirar este filtro anti-IR para poder ser feitas as fotos com uma exposição normal.
Eu me interessei na primeira vez que vi uma foto IR. É como uma terra de sonhos, uma paisem que a gente não consegue ver. Não considero um experimento e sim um tipo de foto que gosto muito, mas não faço por não ter uma câmera adequada. Tem que sempre levar o tripé, fazer a composição sem o filtro, com ele não dá para enxerga nada, colocar o filtro e tirar o foto para depois conferir no histograma. É um pouco demorado.
Os melhores resultados são em em dia de sol e um com nuvens. O céu fica escuro com as nuvens contrastando e a vegetação brilhando com a luz IR. Só de escrever aqui sobre isto me deu vontade de sair para tirar umas fotos IR.

16- Acompanhando a movimentação do DigiForum, o que você tem visto de interessante em termos de fotografia?

Na verdade não acompanho muito o fórum, só a sala do clube Alpha mesmo.

17-Existe algum membro que você se inspire ou acha interessante
indicar sua obra para nós?

O Danilo Shincke que está mostrando um trabalho muito consistente, cada vez melhor. Acho interessante que ele mostra naturalidade para fotografar com grande angular ou tele, geralmente as pessoas ficam mais presas a um tipo de foto, usando mais um tipo de lente e ele não.

18- Nos fale sobre sua participação no Mundo Fotográfico e quais as diferenças que existem entre ele e o DigiForum …

Eu já frequentei mais o Digifórum, mas diminuí bastante há algum tempo. Por ser moderador no MF e acompanhar mais lá não sobra muito tempo para o Digifórum.
O público me parece semelhante, mas nos últimos meses houve um incremento de usuários de DSLR e de filme. Já o BRfoto e o Esquina da Foto tem usuários com outro perfil, mais experientes com outra discussão sobre fotografia, menos focado em equipamentos. Nós é que ganhamos com vários fóruns diferentes.

19- E sendo Moderador lá, provavelmente seu trânsito aos espaços é maior, até pela própria função.
O que vc destacaria de legal que os usuários daqui não tem, e poderiam ver no MF?

Eu acho as salas no Digifórum meio confusas, pelo próprio tamanho do fórum. O MF por ser menor e com menos salas acho que o pessoal circular mais. O que houve lá é que alguns usuários mais antigos estão postando menos e alguns mais novos aumentando a participação, uma renovação.

20- Paulo, onde podemos ver mais de sua produção?

Infelizmente sou preguiçoso para fazer upload das fotos.

Tem algumas no Flickr, http://www.flickr.com/photos/p_machado/,
no Usefilm http://www.usefilm.com/photographer/17672.html e espalhadas
pelo Digifórum e Mundo Fotográfico.

21- Dr.Paulo, gostaria de agradecer a oportunidade e deixar o espaço
aberto para qualquer consideração que vc queira fazer.

Obrigado pela oprtunidade e a mensagem que gostaria de deixar é:
vamos fotografar, não tem nada melhor.

E uma frase do Ansel Adams que gosto muito:

“When words become unclear, I shall focus with photographs. When
images become inadequate, I shall be content with silent.”

Em foco: Eduardo Buscariolli.

Eduardo,

Um breve perfil, se possível com a inclusão de uma foto.

Creio que vai ser necessário dar a ficha completa: Eduardo Buscariolli, 48 anos, nascido em São Paulo capital, passei a infância e adolescência em Igarassu-PE e Recife-PE, morei também em São Paulo-SP, Ilha Solteira-SP, São Carlos-SP, Ann Arbor-MI e, finalmente, deitei raizes em Ribeirão Preto-SP. Sou formado em engenheiria eletrônica e atualmente trabalho com marketing e venda de produtos eletrônicos especiais.

1- Como um engenheiro começa a se interessar por fotografia?

Creio que a “arte” veio antes da engenharia. Desde de que me entendo por gente, eu gosto de desenhar e pintar. Escolhi fazer engenharia porque gostava de música e queria aprender projetar equipamentos de audio.

Além do meu pai que gostava de fotografar, tive vários amigos na faculdade que fotografavam. Porém, apesar deles tentarem ensinar, veja só: não gostava de fotografia. Erroneamente considerava fotografia como uma coisa menor, pois entendia que a fotografia era dependente do que está na frente da objetiva e, portanto, seria amarrada a isso, sendo limitada na capacidade de expressão. Por outro lado o desenho e pintura eram muito mais poderosos, pois o único limite era a capacidade de imaginar e os sentimentos que cada ser humano carrega.

Entre 1998 e 2002, já fazia algum tempo que já havia me graduado e pós graduado em engenharia, eu tocava minha empresa, e tinha que rodar bastante pelas estradas do estado de São Paulo. E nessas andanças comecei a ver coisas que valeriam a pena serem registradas – cenas, paisagens, etc… – e é claro que não dá para registrar isso desenhando. Além disso, comecei a perceber que já tinha morado e passado por diversos lugares e não tinha nada que registrasse todos esses lugares. Assim nasceu a vontade de ter um digitalzinha, como as que começaram aparecer no mercado. Uma digitalzinha funcionaria como uma espécie de alívio para a memória. Comprei uma Polaroid de 0,7MP com capacidade de 16 fotos por 150 dolares.

Assim começou: primeiro vem a câmera, aí a gente se pergunta como fazer para os registros mediocres tornem-se algo bonito, capaz de falar alguma coisa: estuda-se composição, observação da luz, técnica fotográfica, etc… em pouco tempo a gente vai consolidando o que foi aprendido, ganhando eloquência e estofo. Entretanto, ainda não tinha me livrado do conceito que tinha até então: fotografia era limitada ao registro do que estava na frente da objetiva e portanto incompleta, assim, cedo ou tarde teria que voltar aos pincéis. Mas graças aos exercicios autorais criados aqui no Digiforum e a alguma literatura pude dar uma grande salto e enterrar os pinceis.

2- Considerando a fotografia como algo”menor” em algum momento isto lhe voltou à cabeça e vc pensou: “Poxa, fotografia … que besteira, larga isto pra lá … “

Não me recordo de ter pensado dessa forma: “besteira, esquece”… Olha só, cada forma de arte – fotografia, pintura, gravura, música, poesia,vídeo, cinema – encompassa uma parte do gama de idéias, conceitos, questionamentos, sentimentos intrínsecos ao ser humano. Por pura ignorância, eu considerava, que escala inerenteà fotografia, limitada em relação a outras formas de expressão visual.

Deixe-me explicar melhor. Creio já ter contado isso diversas vezes: creio que foi em 1981, tive a oportunidade de ver alguns quadros do René Magritte. Ver ao vivo, podendo quase encostar o nariz no quadro, ver nunces da textura do quadro e, sobretudo, vier ali tudo o que tinha imagina fazer.

Ora, a não ser você faça uma escultura, use o photoshop ou faça uma montagem, você não consegue fazer ou expressar coisa similar com uma câmera. O surreal de Magritte foi uma comparação rasa, é possível apontar uma série de limites tanto temáticos como técnicos. Mas o principal limite, que eu via, era a liberdade: a mente vai mais longe que a câmera.

Reforço, hoje já não penso assim, existem limites, mas eu faço diversas trapaças. E com essas trapaças, chego até onde queria chegar com a pintura: a câmera continua espelho do real, mas distorço esse real. Além disso, são esses limites que fazem a fotografia ser o que é.

3)Eduardo, Isso que você aponta é muito interessante. Me parece que a fotografia vai ganhar respeito, num primeiro momento, em função de sua característica de documento “autêntico”; e a pintura perde “respeito”, exatamente por ser intermediada pelos aspectos subjetivos do autor. Ou seja, numa fotografia se podia “confiar”, já numa pintura não…
Com a possibilidade de se alterar a autenticidade de fotografias em laboratórios ou computadores a fotografia perde sua confiabilidade como documento confiável.
Se isso está correto, o que se perde e o que se ganha com essa modificação do status da fotografia????
– “Marcos Borges Filho

Pergunta complexa essa, mas vou dar meu pitaco. Não creio que seja por aí.

Até onde sei, historicamente, desde que foi inventada, a fotografia se alterna nesta discussão: espelho do real ou não. Steinglitz e, antes dele, Alfred Lichtwark entenderam que a evolução da fotografia era relacionada ao deslocamento de instrumento de registro para objeto de arte. No caso de Steiglitz conhecemos os desdobramentos, no caso de Lichtwark, os desdobramentos foram muito interessantes: os fotografos que ganharam espaço ignoravam completamente o processo “dry-plate” – que era a tecnologia mais fiel – e adotavam impressões em, por exemplo, goma bicromatada. Isso porque a perícia ou intervenção do artista na elaborção das cópias eram mais valorizadas que a fidelidade a cena. Assim, a foto era considerada um objeto resultante da ação de um artifície, portanto um objeto de valor.

Então o que aconteceu? Tenho uma hipótese: se tomarmos os nomes que todos tem na ponta da línqua e estão no pináculo da fotografia arte, desde o pós segunda guerra, é possível rastrear suas a influências ao fortalecimento do fotojornalismo, que tem por principio básico a fidelidade à cena e a não intervenção do autor.

É também possível rastrear as influências dessa turma, que todos temos na ponta de língua, que é chamada por alguns historiadores de “Exact Camera” – nada a ver com a marca Exakta, e sim com a exatidão das fotografias – às raizes do modernismo. Sendo que o modernismo, de certa forma, valorizava ou convergia para a erradicação do “eu” na obra, a extadidão da câmera e algumas vezes até sobrevalorizando maracutaias perceptivas em detrimento do assunto.

Nesse segundo momento, a foto não é mais considerado um objeto. A cópia não tem valor, pois os elementos dos processos são insumos industriais produzidos em massa. O valor está na informação contida na cópia ou não – a assinatura, a legenda. O objeto é o conteúdo.

A partir disso pode-se intuir que não haja ganho ou perdas a partir de alteração do status de espelho do real da fotografia. Pois, fora do raio de alcance de Bresson e afins, existiram/existem diversos outros fotógrafos contrários a essa linha de pensamento que são valorizados – só não são conhecidos por aqui por causa do peso sobrevalorizado do cadáver modernista.

Para mim, valorizar a fotografia como arte, é relacionado a tranformação da fotografia seja a cópia ou o conteúdo, em objeto. Não depende dessa relação de fidelidade ao real.

“pude dar uma grande salto e enterrar os pinceis.” – “Eduardo Buscariolli.”

4) Poste uma ou mais fotos que marcam essa passagem.

A foto decisiva foi essa:

Sim trata-se de uma escada de piscina. Porém sob a superfície agitada pelo vento pude entender que a fluidez que pensava ser impossível de se conseguir com usando uma máquina fotográfica, poderia ser conseguida usando a água como espelho ou meio ótico. A partir do entedimento que dava para subverter a câmera foi um passo rápido para realizar idéias pendentes a muito tempo.

E depois veio essa série, um pouco mais dificil de realizar, mas que gosto muito.

O espaço entre as fotos é de duas semanas.

5) Eduardo, apesar de eu saber e entender que muitas destas fotografias têm valor mais para os autores do que p os observadores (devido ao caráter pessoal, devido ao caminho mais íntimo proposto e até pela dificuldade de entendimento mesmo) onde vc acha que estes “experimentos” (entre aspas porque eu acredito que na verdade não são puramente experiências) podem levar?

O que podem acrescentar a quem vê?

Fale um pouco sobre estas suas “experiências”.

Não entendi sua pergunta. Onde que eu quero chegar? Ou para onde o que faço pode levar?

De qualquer forma são perguntas interessantes. Existem diversas facetas, gosto de experimentar abordagens diferentes. As vezes uma idéia aparece, faço tentativas, mas as guardo para um momento melhor, em que julgo que poderão se encaixar no processo de busca pessoal.

Apesar das facetas, há uma linha mestra: gosto da incerteza, da introspeção. De olhar para as fotos, minhas e de outros, e reconstruir, conectar os pontos, reconstruir a imagem.Nas minhas fotos, isso não se limita à organicidade expressa por uma metodologia ou por um conceito estético. Este, o método, é a saída adotada como meio de expressão de um ponto de vista.

Eu vejo fotografia, como uma relação entre dois vetores, do objeto para a câmera e o fotógrafo para câmera. Muitas vezes, para mim, o segundo vetor tem mais força. É claro, não me furto a fotografar a um por-de-sol, uma paisagem, gatos admirando o mundo, etc… mas preocupa-me a realção que tenho com isso ou o que quero com isso. Embora, estaria mentindo se dissesse que sempre consigo expressar o que penso, creio que me aproximo mais da vontade original, com os trabalhos “experimentais”, do que com as fotos “descritivas”.

Porém é importante não colocar o carro na frente dos bois: a vontade é a mola mestra da estética. Não é o contrário, pois o contrário é a falsidade. É claro que antes de se entregar à vontade, há o estudo, o desenvolvimento tanto técnico como conceitual. Assim, o que faço não é simplesmente jogar a câmera para ar e ver o que acontece. Tenho método, há uma lógica construtiva, ou pelo menos tento. Ao invés de entregar um um texto completo, prefiro entregar pontos aos quais espero que o expectador os conecte. As pessoas, TODAS ELAS, são dotadas de inteligência e sensibilidade, e portanto são capazes de conectar estes pontos.

A minha lógica de trabalho, baseia-se no fato que temos respostas institivas comuns. Deixo o detalhamento disso aos especialistas em semiologia ou coisa parecida, mas tento usar essas repostas como diretivas na leitura da imagem. De modo simplista: pode-se registrar um céu nublado ou expressar as relações causa/efeitos emotivos provocadas pelo céu nublado. Prefiro a segunda. Estas repostas emotivas, embora dispersas, são delineáveis e de senso mais ou menos comum. Com isso, através destas repostas ou impressões, tento ou gostaria de compartilhar com o expectador uma opinião sobre o mundo, que não é certo ou sólido e cuja compreensão foge da lógica do real.

Você aponta uma dificuldade de entendimento. Eu aceito essa dificuldade em aceitar a abstração. Eu mesmo muitas vezes tenho essa dificuldade. Isso é uma caracteristica da lógica modernista enraizada na mentalidade geral, que ignora essa capacidade do ser humano de conectar os pontos, e que parte do principio da negação da individualidade, procurando cercar ao máximo a interpretação. Ora, tal coisa não é completamente verdadeira, não é possível conseguir tal nível objetividade. Essa afirmação não é minha, muitos críticos – Franz Roh, criador do Realismo Mágico, por exemplo – e artistas afirmam que algo emana da imagem e esse algo é relacionado a capacidade do ser humano de abstrair ou sonhar. Isso para não entrar no papo de experiência fenomenológica…

Assim, mesmo nas fotos, digamos convencionais, valorizo mais o “mood” do o que eventualmente pode se encontrar impresso.

Antes que alguém jogue pedras, é salutar frisar que tudo o que escrevo, passa longe da fotografia comercial. Esse é outro departamento, em outro andar de outro prédio.

6- Pois é!!! Pegando carona na pergunta acima do Peri.
Me parece que uma fotografia só ganha sentido a partir do olhar de um outro. Fotografar pode até dar prazer, mas não me parece real que o fotógrafo se satisfaça fechado numa mônoda com sua foto. Ou seja, pra que olhares você hoje fotografa? Assim como na música, na fotografia exitem os fotógrafos banda Calypso e os fotógrafos Renato Borghetti (pra não radicalizar)?
– “Marcos Borges Filho.”

Marcos, eu recentemente optei por separar os trabalhos em albuns diferentes e deixei de me preocupar com divulgar os trabalhos. O fato de separar os trabalhos em dois albuns o experimental e convencional fez com que eu perdesse um pouco o controle em termos numéricos e qualitativos.

Eu deixei de divulgar os trabalhos porque o meio online deixou de ser o meio primário. Devagarinho, um coisa exposta aqui, outra ali, mas o mais importante é que não é o meio online, pois a fotografia, não importa o conteúdo, só se fecha quando é impressa e exposta – fotografia comercial não conta. A minha meta expor em praças públicas.

Quanto ao público, como disse anteriormente a fotografia atualmente tem uma dimensão diferente, ela não pode mais ser abordada tal como vinha sendo feito anteirior a digitalização. Tanto a fotografia em si, como a sua divulgação foi facilitada. O problema é que estamos falando de milhões de milhões de pessoas que agora podem se dedicar a fotografia, que não vão somente tirar algumas fotos da familia. Uma parcela dessa pessoas querem se aprimorar um pouco mais. Para uma parcela destes, os cânones praticados até o momento ou estão saturados ou não correspondem as expectativas pessoais – ou seja vão preferir Uakti a Axé.

Daí não é surpresa que cada uma das fotos acima tiveram 600 visitas no JPG Magazine, que é não orientado para relacionamento, tal como é o Flickr. Ou a publicação online Sentido Vago, feito em conjunto com outros fotografos com visão similar, do Câmara Obscura, teve mais de 2000 downloads e olha que estamos falando de um tijolo com mais de 20MB.

Ou a publicação online Sentido Vago, feito em conjunto com outros fotografos com visão similar, do Câmara Obscura, – “Eduardo Buscariolli.”

7-Recentemente vc desenvolveu um trabalho muito interessante de pesquisa histórica, publicado em conjunto em seu Multiply e no Câmera Obscura.

O que foi esta pesquisa e o por quê dela?
Existiu alguma diretriz anterior para que vc se aprofundasse nestas questões, ou foi algo simplesmente de sua curiosidade mesmo?

Fale um pouco também sobre alguns pontos especificamente:

7.1- A sua participação e a orientaçao para o concebimento da publicação on line “Sentido Vago”, inclusive com a indicação do link para que possamos apreciar o conteúdo, e,

7.2- Sua contribuição junto ao Câmera Obscura.

Primeiro com relação ao “De Weimar a Gursky” que na verdade ainda não acabou, ainda estou devendo mais alguns capítulos.

Sabe, sempre tenho muitas perguntas e algumas quase-certezas no tocante a fotografia. Uma dessas quase certezas é que a preferência estética, apesar de uma certa universalisação, é fruto de um série fatores que vão desde a conjuntura histórica, sócio-politica, até mesmo particularidades geográficas. Assim, para mim, o individuo se expressa conforme o meio onde está imerso. Assim motivador inicial dessa pesquisa foi o “ECO – Encuentro de Coletivos”. Para corroborar essa relação estética/conjuntura fui dar uma olhada em cada um dos trabalhos publicados nos sites de cada um dos coletivos: e sim, existem diferenças estéticas e de temática entre europeus e latinos americanos. As vezes são sutis, mas existem. Outro motivador inicial desta pesquisa, como o próprio texto explica, partiu do interesse na música de alguns grupos alemães da década de setenta. Música é sempre inspiradora. Uma vez satisfeito o interesse discográfico, veio o interesse na fotografia praticada nesse período.

Comecei a escrever sobre isso e submeti a algumas pessoas. O João Menna Barreto alertou-me que para provar essa relação estética/sócio-política, eu deveria me aprofundar nas conexões, pois não dava para ficar no meio do caminho, sob o risco de ser um amontoado de achismos. Então o que era algumas páginas de um texto, cresceu e ganhou corpo e, suponho, alguma consistência. Eu sou engenheiro, não sou sociológo, filósofo ou coisa parecida, assim optei por adotar uma linguagem fácil ou que eu uso. O mais importante, entretanto, não foi publicá-lo, o mais importante é a possibilidade de entender muita coisa na linguagem da fotografia, antes e depois dos periodos analisado.

Como você mencionou está sendo publicado pelo Rodrigo Pereira no Câmara Obscura e no Zeitgeist! Eu Acredito! , um blog que eu criei para conter esses textos, direcionados para aqueles que assim como eu tem dificuldades com letras pequenas – é sério, quando se estar perto de dobrar a esquina dos cinquenta, essas coisas começam a pesar…rs… Mas indubitávelmente o blog Câmara Obscura tem repercussão maior.

O Grupo Câmara Obscura é um projeto tocado pelo Rodrigo F. Pereira como parte do blog dele, é quase uma espécie de coletivo, direcionado a discussão aprofundada sobre fotografia, autores, linguagens e desenvolvimento de projetos em grupo ou pessoais.

De lá já sairam dois livros ou publicações online. A primeiro foi o Sentido Vago e o segundo foi Transformações . Embora menos estruturado, considero o Sentido Vago melhor, pois tem mais pegada, é mais rock-n-roll. O nome Sentido Vago, surgiu porque o livro era um apanhado dos trabalhos de cada, não havendo um direcionamento ou sentido específico. Transformações já é um trabalho mais complexo, onde foi discutido um tema e fechado um projeto. Cada um dos participantes se propos a trabalhar em cima dessa tema, dando a sua visão sobre o tema Transformações. O f/508 foi convidado para participar e foi escolhido o Humberto Lemos como curador. O interessante foi que, uma vez escolhido o tema, até a data limite para apresentação dos trabalhos, o assunto foi fechado, ou seja, ninguém podia mostrar os trabalhos ou comentá-los. Os trabalhos só foram compartilhados, após a curadoria. Esse cuidado foi tomado para evitar influência interna, forçando cada um dos participantes a expor somente a sua interpreção, sem referências cruzadas.

Trabalhar com um curador foi uma experência interessante. O curador não diz se sua fotografia é boa ou ruim, mas ele diz quais as fotos, dentro de um conjunto, se enquadram dentro de uma proposta global. Então aprende-se não se apegar aos seus parâmetros, uma vez que as fotos que consideramos boas, podem não ser necessariamente adequadas ao projeto. E uma vez que entrou no jogo, deve-se acatar a preferência do curador.

8-Eu sempre vejo você muito “pesquisador” enquanto ser pensante da fotografia.Talvez esteja errado, mas percebo que você mais pesquisa que publica.
Que peso o ítem “Pesquisa” tem em seus trabalhos no campo da fotografia especificamente?

Sim, pesquiso bastante. Primeiro, é óbvio, porque eu gosto de fotografia. A fotografia, ao contrário do que pensei um dia, é algo que abrange uma gama muito grande de situações. Pode parecer que não há muito sentido discutir ou ficar esquentando a mufla sobre “minesis da fotografia”, “o traço do real” ou outras conversar arenosas. Mas são essas discussões que promovem, pelo menos para mim, e estimulam idéias, validando as visões e opções adotadas na fotografia – não que precise de validação, mas é interessante ter um suporte teórico para as vontades.

Além disso, quando a gente resolve aprender sobre fotografia, a gente corre atrás todos os aspectos técnicos: fotometria, composição, blá, blá… mas se esquece de aprimorar ou destilar os motivos. Não que o aspecto técnico seja irrelevante, absolutamente, o aspecto técnico é fundamental, mas eles sozinhos são tão emocionantes quanto uma esferográfica gasta. A pesquisa serve para encontrar o contexto que levaram outros a se expressar de uma determinada forma, e assim encontrar paralelos ou referências para o que faço ou pretendo. Acredito essa seja uma forma de fazer a fotografia ganhar nervos e sangue.

Acho que fica mais fácil com um exemplo. Tomemos essa foto de Weston.

“Uma bela foto do deserto?”. Sim uma bela foto de deserto, mas há mais aí. Weston, até onde eu sei era um cara que amava as mulheres, várias, – desculpem o machismo – não no sentido bíblico. Não é um chute longo, supor que que aí ele não está somente fotografando o deserto. Com essas formas, ele está fazendo uma representação do corpo femino. Para mim, o interesse em fazer esse tipo de afimação ou leitura, está em entender que elementos ele usou para expressar o que queria, mas isso requer se pesquise motivos do autor.

9-O seu projeto de expor em praça pública (que você uma vez sugeriu que eu fizesse) ainda está de pé?Tem caminhado no assunto ou ainda é algo incipiente, só no campo das idéias?

Sim, continua de pé e vai sair, entretanto por conta do trabalho estou postergando para o ano que vem.

Talvez fosse necessário dividir com os amigos do DF o que lhe falei: uma vez tive a oportunidade de ver minhas fotos expostas numa praça, por iniciativa dos Amigos da Fotografia de Ribeirão Preto. Vinte fotos minhas expostas para gente que não está acostumada a ver fotos fora do contexto comercial ou jornalistico. Foi uma experiência reveladora, o trabalho assume outra dimensão. E assim propus ao Peri que fizesse o mesmo, principalmente nos locais onde vivem os seus fotografados, para compartilhar essa paixão pela fotografia, como uma forma de retribuição às pessoas que ele fotografa e para sentir a reação das pessoas. Pois assim ele faria suas fotos completarem um ciclo.

Aproveito para fazer uma convocação aos amigos do DF: praticar fotografia requer um certo nível de engajamento. Façam cópias 25×38 de suas fotos, cópias de minilab dá jogo – não precisa ser cópias em papel de algodão caro. Escolha uma praça movimentada num final de semana, estique um pedaço de barbante e pendure suas fotos. Não tem coragem de fazer sozinho? Melhor, junte a galera que participa desses encontros fotográficos para fazer isso. As pessoas que não tem experiência em fotografia são as melhores expectadoras, pois não tem a blindagem técnica para julgar as fotos. Se puder ser num lugar mais simples melhor ainda. Mas o importante é expor as fotos fora do contexto do computador, onde todos vêm, mas ninguém enxerga. Garanto: compartilhar suas fotos dessa forma será uma experiência reveladora.

10- Vou pinçar uma frase sua … ela está fora do contexto, mas é isto mesmo que eu quero.

… praticar fotografia requer um certo nível de engajamento.-“Eduardo Buscariolli

Esquecendo do contexto em que ela foi dita e lendo apenas a frase, discorra sobre ela.
É algo que sempre falo e que eu gostaria de ouvir mais opiniões sobre este aspecto.

Hum, ficou fora de contexto, porque usei a expressão “certo”. Se é algo que você sempre fala, então estamos de acordo. Fotografia, assim como qualquer forma de arte requer engajamento. A arte não deve ser um discurso fechada em si mesmo.

É necessário está engajado com a luz. É necessário o engajamento emocional ou empatia com o que fotografa e com os resultados . É necessário estar engajado com a vida e seus nuances, porque somente dessa forma é conhecer seus motivos pessoais, criando essa empatia com cena e dotando o trabalho de humores. É necessário colocar-se em eterno estado de aprendizado, não só com a fotografia, mas com tudo que se relaciona a cultura, porque é necessário saber o que será dito e é preciso saber como fazê-lo. Somente através dessas formas de engajamento, é possível, deslocar a fotografia do simples registro inócuo, em algo maior.

A fotografia mais prazeirosa acontece quando tudo entra em fase: percebe-se o alinhamento de todas as variantes contidas na cena, técnicas e pessoais, e se consegue antever o resultado desejado.

11- Eduardo, qual sua opinão sobre a crítica da fotografia de Vilem Flusser? – “Vítor Chaves

Em diversos aspectos a crítica fetia por Flusser é bastante pertinente. Em “A Filosofia da Caixa Preta” o ele aponta e critica o enrosco causada pelo dogma que estabelece a “verdade” como algo intrínseco ao aparato fotográfico. Esse dogma que era compatível com lógica do “coletivo-exato”, plantada em conjunção com a massificação ensejada pela era industrial no periodo do entre guerras. Isso foi multiplicado e prolongado até os dias atuais. Concordo que isso foi multiplicado a tal ponto que a visão do mundo passa a ser intermediado pela “imagem-técnica” (fotografia), o descritivo, em substituição ao texto, que substitui a imaginação.

Já virou a coisa mais natural, quase instintiva: “uma imagem vale mais que mil palavras”. Aliás costumo brincar: a palavra corrompe, logo uma imagem corrompe mil vezes mais.

Observo com frenquência, o que Flusser critica, quando as pessoas mostram fotos para compartilhar o mundo que elas veem, que é muito diferente de usar a fotografia para compartilhar a opinão sobre o mundo que vemos. Contentamo-nos em reproduzir o mundo, munidos de um aparelho que usamos, inconscientes de sua existência, quase como uma extensão do corpo– coloco na primeira pessoa porque não sou diferente.

O advento das digitais, torna a crítica de Flusser ainda mais pertinente, porque distancia o homem da imagem tradicional. Erroneamente julga-se haver controle sobre o que é feito, mas sob um ponto vista macroscópico não existe tal controle. Quem algum dia viu uma cópia surgir numa cuba ou lavou a goma não fixada pelo bicromato entende minimamento a imaterialidade das digitais. Por isso acredito fortemente que fotografia só se completa quando impressa, quando tornam-se objetos.

Discordo um pouco que de Flusser, em “A Filosofia da Caixa Preta”, quando ele argumenta de modo imperativo que somente o experimentalismo poderia quebrar esse paradigma. Primeiro, parace-me que ele não previu, o fim da fotografia como imagem-técnica. Sim, fotografia tal como vemos hoje está com os dias contados: não está longe o dia onde sistemas de reprodução de vídeo mais eficientes e tão baratos quanto uma cópia. Essa será a proxima etapa da imagem-técnica. Isso não será ruim – note que não falei que fotografia vai morrer – acontecerá o que aconteceu com a pintura: apesar de Baudelaire e muitos outros, sapaterarem sobre a cueca, a pintura saiu mais forte do processo. E assim a fotografia sairá mais forte, sem o peso de ser necessariamente espelho do real.

Segundo, para mim, não é somente o experimentalismo, pois a visão crítica sobre a fotografia e seus limites, também, atuam nos sentido de quebrar esse modelo criticado por Flusser. Qualquer um que pretenda se colocar como emissor de sua opinião sobre o mundo ou usar conscientemente a fotografia com veiculo da imaginação, vai, em certo momento, se impor sobre esse modelo e seus limites.

Não sei se é necessário, para os amigos que não conhecem Flusser.

A Filosofia da Caixa Preta está disponível para donwload legal – Link.

12- Eduardo,

O que vc tem visto de interessante em termos de fotografia que possa indicar pra gente?

Primeiro, é legal uma vista ao galeria do Paris Photo 2010 – link . É uma mostra marcada pela pluralidade, tanto em termos temporais, como em termos de nacionalidades ou modos de ver o mundo.

Para mim é um tanto dificil de falar de artistas, pois na medida do possível procuro ver o máximo de coisas possível, concentrando-me no que vejo, ora procurando o que quero ver, ora, simplismente, apreciando. Assim convidar-me para falar de artistas que gosto é um risco, porque posso encher páginas e páginas

Bernd e Hilla Bercher

Seria o engenheiro falando forte? Pode ser. Bernd e Hilla Bercher estão na raiz da fotografia alemã contemporânea. Ao contrário do que poderiamos supor, seu trabalho não se reduz a uma espécie de arquelogia industrial. Não existe uma proposta nostalgica nos trabalhos. Não é nada disso. Bern e Hilla Bercher na verdade fazem um inventário de formas, um catálogo tipológico de formas funcionais, retomando o avant gard e fornecendo uma ponte, sobre a turbulência do periodo nacionalista e o auge do fotojornalismo do pós guerra. Abaixo está a forma correta como os trabalhos devem ser apresentados.

Peter Cornelius, era foto jornalista, é considerado um dos primeiros fotojornalista do a trabalhar de modo não experimental com cores (não tenho como confirmar essa informação). Gosto de suas fotos, principalmente de esportes naúticos, por causa de leveza e da dinâmica, sendo que as vezes promovem uma camada de leitura adicional, que fala de formas. Vale uma visita ao site, é só buscar na web.

Auguste Sander, este é um deste fotografos que por muito pouco – muito pouco mesmo – não sumiu da história sem deixar rastros na história. Os nazistas destruiram uma parte de seus arquivos, outra parte foi destruida pelos bombardeios aliados, o que restou de seus negativos de vidro, quase foi esquecido, até ser redescoberto e adquirido por um banco. Para mim, é a prova cabal que, em se tratando de retratos, quanto mais objetivo se tenta ser, mas a objetividade pretendida lhe escapa. A postura distante e imparcial, que ele adotava, para mim torna suas fotografias mais reais, mais humanas, ´pois os fotografados mostravam como se viviam no mundo – vestiam as máscaras que acreditavam melhor representá-los.

Chega de velharia: Melanie Wiora, com formação acadêmica em artes e design gráfico, é classificada na europa como a geração dos 30-40 anos, portanto a nova geração. No site existem duas séries de trabalho, “outside is in me” e “eyescapes”, ambos carregados de simbologia. Em “Outside is in me”, ela trabalha com arquétipos e o espaço, ambos idealizados em sentidos opostos. Porém, rostos, reduzidos a seus traços, e o espaço, se fundem, interligando o seus personagens e o espaço. Com os rostos proximos a objetiva e o espaço, ela monta um dialogo entre o interior e a percepção do mundo.

Acho que “eyescapes”, dispensam explicações.

Hiroshi Sugimoto e Toru Aoki , ainda não os estudei adequadamente, por hora penso que ambos apresentam soluções que podem ser incorporadas ao meu trabalho. São mais viscerais, dispensam ou não cabem palavras. Sugimoto, acho que todos conhecem, ou deveriam, já que é capa de um álbuns mais fracos do U2 – uma foto boa, para muito ô-Ô-ô-Ô… rs… e tem também a clássica série de fotos em cinemas.

Hiroshi Sugimoto

Toru Aoki

Por fim, David Glat , creio que suas Pérolas Imperfeitas dispensa explicações.

13- Há algum tempo atrás, fizemos parte de um grupo no DigiForum que redefiniu alguns rumos na seção FC’s.
Numa destas decisões, praticamente por uma idéia sua, a seção foi subdividida e foi criada a FC-Clínicas, que é onde gostaria de me concentrar.
A proposta era uma sub-seção para Novatos ou Iniciantes, ou que mesmo não os fossem, mas que tivessem um espaço onde pudessem partir do “zero” e desenvolver-se na fotografia.
Um local, quase que especificamente, de auxílio e direcionamentos, progressos.

13.1- Como você vê a seção hoje depois de criação, acha que o proposto naquela época surtiu efeito?

Eu acho que sim. Agora pouco vi que a Fotoclinica tem 2426 posts contra 2906 posts na Fotocritica e 216 post na Fotocritica Avançada, que obviamente não deu certo. Eu só conheço outros dois forums, fora o DF, em um deles eu tenho certeza que se algum iniciante postar uma foto, vai ser esculhambado por gente que tem ego maior que a capacidade de fazer fotografia. Aqui no DF não tem isso.

A fotografia segue uma curva de aprendizado. Fotografar não é um ato natural, ninguém nasce sabendo, assim é normal que as primeiras fotos de alguém que está iniciando resultem em questões e dúvidas. Se essa pessoa postar no flickr ou qualquer outro album, orientado para o relacionamento, vai ser muito dificil obter um feedback válido. Na FC, ainda que a foto receba somente um comentário, o iniciante vai terá um feedback que será direcionado a fotografia. Portanto, eu vejo um efeito aí um efeito positivo, sim.

13.2- Que espécie de ajuda pode-se dar a estas pessoas e quem são os que podem ajudar especificamente?

Recapitulando o que conversamos quando a Fotoclínica foi concebida: ao expor uma foto, o usuário muitas vezes quer ouvir como poderia melhorar. É um tanto diferente de submeter uma foto a julgamento. Penso que qualquer um pode ajudar, não precisa ser um fotografo com anos de experiência, basta olhar uma foto e ver, ou tentar ver, o que a foto está falando ou poderia falar. Para mim, nenhum aprendizado técnico ultrapassará isso: saber ver ou ouvir o que os outros veem.

Não precisa de muito, para ajudar na FC, basta concetrar-se no que é o objetivo da fotografia, o objetivo da fotografia não é a composição ou a fotometria. O objetivo da fotografia é o sentido da visão e interpreção do que é visto – seja o resultado validado como “belo” ou não. Claro, que composição ou fotometria não se chegará longe. Muitas vezes, mesmo sem conhecer a pessoa, com duas ou três olhadas nas fotos percebe-se onde essa pessoa quer chegar e o poderia fazer para chegar lá.

13.3- O que uma opinião como a sua, notadamente um estudioso da fotografia, pode acrescentar, e que peso tem, a um Novato por exemplo?

Esse “notadamente” denota… Tá tirando onda da minha cara, mano?…rs…

Ainda, neste exato momento, 28/08/2010, 20:30Hrs, temos 26 posts na primeira página da FC, uma delas tem pretensão comercial, ou utilitária. Isso dá aproximadamente 3%. Vamos ser conservadores e supor que 25% posts tem proposta utilitária. O que são os outros 75%? São pessoas que por alguma razão, que por motivos diversos, resolveram que é importante registrar o mundo que lhes cerca, na medida do possível enquadrando essa visão, dentro dos cânones determinam a beleza – ainda que essa beleza seja saturada e muitas vezes irrelevante.

Muitas vezes, quando alguém decide fotografar, há um processo de transformação em curso, um processo de tomada de consciência para o mundo que nos cerca. Quando alguém diz: “isso vale a pena fotografar”, quer o assunto, seja um por-de-sol, o filho(a), a rua, um objeto, etc… essa pessoa começa a deixar de ser expectador anestesiado, tomando consciência do mundo. O “X” da questão está no fato que mundo é percebido por diversas dimensões – não só espaço tempo – sendo necessário fazê-lo caber somente duas dimensões. Aí o fotografo tem que tomar decisões para fazer caber tudo isso no espaço fotográfico, passando a operar num nível desconectado da realidade. E é nisso que penso que FC ajuda: entender que é preciso ir além da percepção do que nos cerca, entender o que se pretende, separar as componentes e processá-las conforme à mecânica inerente a fotografia.

14- Eduardo,

Depois desta bela entrevista, que para mim funcionou mais como um agradável bate-papo, a derradeira pergunta:

Como e por que a fotografia lhe dá prazer?

Peri, o “como” e o “porquê” tem forte ligação. No momento existem dois aspectos relacionados a fotografia que considero prazeirosos. O primeiro é ver-me refletido numa foto. Veja, o momento que cada um vive, é resultado da convergência de um monte de coisas que tornam as pessoas diferentes umas das outras. Obviamente, não é possivel falar de tudo isso numa única foto, assim como não será possível fazê-lo através de palavras ou qualquer outro meio de expressão. Porém uma foto, pode falar muita coisa. E as vezes, estando consciente do nos rodeia, surge uma conexão: algo que vemos, apresenta possibilidade de representar, num pequeno retângulo, uma parte do que somos, pensamos ou acreditamos.

Aí quando tudo se alinha, a foto saiu e consigo ver: “taí, funcionou, tem a ver comigo” é inegável o prazer obtido.

É um tanto claro, que não é todo dia que uma gaivota entra na frente da objetiva, como se tivesse entendido o que queria – não para mim. Assim é necessário buscar ou construir aquilo que entendo me representar ou meus conceitos. Esse é o Projeto, buscar o mostivos e desenvolvê-los objetivando um resultado. Embora viável, é um caminho complicado, mas quando acontece também é igualmente prazeiroso.

O outro aspecto é a utilidade. Existe essa constante busca para aperfeiçoamento, muitas vezes mesmo sendo amadores, gastamos tempo e recursos – fala sério, mesmo sendo franciscano, já gastei um montante considerável – e assim surge a pergunta, para que tudo isso? Assim uma das minha preocupações tem sido em dar uma utilidade para isso.

Fui a um bosque local tentar retratar o comportamento estúpido de algums pessoas. Saiu essa foto, que depois foi escolhida para compor uma exposição em um congresso de APA´s.

Comitiva de Folia de Reis – nesse dia todos as comitivas do festival, voltaram para suas cidades com um CD de fotos deles, em retribuição pelas outras tantas fotos tiradas no passado.

Essa utilidade tem sido um outro tipo de prazer, proporcionado pela fotografia: fotografar tendo em mente algo em que se acredita – uma bandeira – e fazer que foi expresso pela foto, seguir em favor de algo construtivo. Cara, quando você encaixa uma foto sua neste contexto, surge um senso de realização muito grande. Talvez até mais poderoso que ver uma foto selecionada para uma coletiva ou coisa parecida, porque ao fotografar tiramos algo do mundo e de alguma forma temos que retribuir isso.

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1- Participação especial: Marcos Borges Filho e Vítor Chaves.

2- Links para as páginas do entrevistado na web:

2.1- Multiply.

2.2- Flickr.

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Em foco: Flávio Varricchio.

Flávio, nos trace um breve perfil, se possível com a inlusão de uma foto.

Peri,vou citar a frase de um alpinista francês que resume bem minha relação com a fotografia:

“… não ambicionava qualquer glória, e as mais modestas escaladas deixavam-me louco de alegria. Para mim a montanha não era mais que um reino maravilhoso onde, por qualquer mistério, eu me sentia mais feliz.”

Lionel Terray (1921-1965)

É isso, sou um cara que procura registrar a minha vida por meio das fotografias, O fotografar por si só é uma atividade que me deixa muito feliz, onde me sinto participando da vida com mais entusiasmo e alegria.

1- Flávio, em seu perfil do Flickr., lemos:

“Fotógrafo da natureza. Em 2004 passei a dedicar-me à arte que melhor retrata minha essência, embora desde criança demonstrasse interesse pelas imagens que via em revistas especializadas. Procuro, através da fotografia, celebrar a natureza, ambiente que mais me identifico, tentando projetar em imagens a magia de cada lugar que visito. Atualmente me dedico ao projeto de documentação dos parques nacionais brasileiros além de retratar o povo, as pessoas que ajudam a contar a história do Brasil. Meu livro somente mostra as belezas da vida. Boa viagem pela minha história.”

Você se auto-intitula fotográfo de natureza, mas percebo que vc tem uma facilidade em retratar cenas cotidianas e pessoas (como a galeria “povo brasileiro” que falaremos mais adiante).

Há mesmo predileção por temas?

Sim Peri, só fotografo temas que gosto, que me identifico, e sempre procurando mostrar o lado bom das coisas, os mostrando com dignidade e respeito. E como tenho facilidade em abordar as pessoas e gosto muito de participar de suas vidas, me intitulei como fotógrafo da natureza, que remete a algo mais abrangente como a natureza humana, por exemplo, que de natureza, que no meu modo de ver é mais associado à fotografia de paisagens e da vida selvagem.

2- Me lembro bem da série Seu Orides., quando ela foi postada publicamente lá no BrFoto.
Na ocasião vc falava da emoção na captura daquelas fotos.
Conte-nos sobre o episódio.

Considero as fotos do Sr Orides as mais significativas dentre todas as que fiz. Ele foi à pessoa mais bonita que conheci e tive o prazer de ajudar. Orgulho-me muito da sua amizade e de ter tido a oportunidade de encontrá-lo nas minhas andanças pela área rural de Petrópolis-RJ. Morava com o filho, que só retornava a noite do trabalho, dizia que se sentia sozinho desde que a sua esposa tinha falecido e adorava contar histórias. Apesar da aparência triste em algumas fotos, era uma pessoa alegre e com uma disposição invejável no alto de seus 89 anos, idade que tive o prazer de estar ao seu lado no dia de seu aniversário em que ele fez uma oração muito bonita e emocionante. Essas fotos são as mais significativas por terem ido além do registro de seu modo de vida, mas por terem tido uma utilidade que transformou tanto a minha fotografia quanto a vida dele. A dele que passou a ter um maior reconhecimento da família que o levou da casa onde morava onde passava por muitas privações, para morar com eles em uma cidade próxima, onde teria uma vida mais digna ao lado de seus familiares, o que o deixou muito feliz. Mudança provocada pelas fotos que sua neta em umas das visitas que fazia a ele nos finais de semana, levou para casa para mostrar para a mãe, o que a fez reconhecer que o pai não estava bem naquele local, e que precisava de ajuda. Informação me passada pelo seu filho que morava com ele e que tinha alguns conflitos. A minha fotografia, tinha menos de 1 ano que tinha começado a fotografar com a digital, por ter mostrado que mais importante que sair por aí fotografando o que gosto, seria dar utilidade a essa fotografia, já que mesmo um gesto simples como o de presentear uma pessoa com uma foto que talvez nunca tenha sido fotografada a não ser para registro em documentos, pode ser um gesto que pode mudar sua vida. Não digo como no caso do Sr Orides , mas levantando sua auto-estima, as tornando especiais. Vejo muitas dessas fotos que faço como uma homenagem a sua história, uma homenagem a pessoas que aprendi a admirar e que tenho a honra de ter como amigos.

3- Como a fotografia se insere em sua vida?Como lazer, hobby, apenas profissão?É possível se separar estas categorias?

Insere-se como um estilo de vida. Mais que uma profissão (apesar de ter feitos alguns trabalhos, não me considero profissional da fotografia) ela faz parte da minha vida desde os tempos de adolescente onde saia pelo Brasil com uma mochila e uma câmera automática registrando tudo de bonito que vivenciava. O ser “fotógrafo” para mim é a realização de um sonho e uma grande diversão, já que independente da categoria, e da minha auto-critica, me cobro bem em relação aos resultados, me divirto bastante quando saio por aí com uma câmera. Seja profissionalmente ou em fotos sem muito compromisso,quando se faz o que gosta,tudo fica mais fácil e prazeroso.

4- Você tem um trabalho interessante de documentação de Parques Nacionais (dos Órgãos-RJ, Monte Roraima/Canaima – Brasil/Venezuela, Itatiaia – RJ/MG, entre outros).
Qual o seu propósito com esta documentação?
Isto de alguma forma se relaciona com outro hobby que vc tem (se não me engano você gosta de escaladas/caminhadas … )?

O propósito é o de registrar locais de natureza exuberante e que estão (estiveram) no meu imaginário nos tempos em que viajava lendo revistas como Geográfica Universal e Terra, locais esses que sempre tive o sonho de conhecer e fotografar como “aqueles caras das revistas” fizeram. Não tenho muitas pretensões de isso se tornar uma profissão, com prazos, etc., mas de seguir o caminho de realizar meus sonhos sem compromisso com ninguém a não ser comigo mesmo, no meu ritmo, fazendo o que quero, quando quero e como quero. Essa documentação tanto dos Parques Nacionais, como das pessoas, é algo que vem de dentro,do meu intimo, é a realização de um sonho de viajar pelo Brasil, fazendo o que mais gosto e me faz sentir vivo. E isso se relaciona com as caminhadas que faço, já que gosto de chegar aos locais devagar, vivenciar o seu dia a dia, participar de sua vida, não simplesmente passar por eles como um turista que vê tudo de longe e rapidamente sem se envolver.

5- O Eduardo Buscariolli, um amigo em comum que temos, comentou comigo que, além de um ótimo fotógrafo, você também é ótimo contador de ‘causos’, e talvez até melhor contando-os do que fotografando. – rs

Certamente você tem algo muito interessante a nos a contar…

Não me acho um ótimo contador de histórias, sou aquela pessoa que mal sabe contar uma piada, quanto mais histórias, e vou discordar do Eduardo nesse ponto, já que contar histórias por imagens é bem mais fácil para mim do que com palavras.

Mas para não ficar só na explicação, segue uma:

Sou um andarilho por natureza, gosto muito de caminhar, descobrir lugares novos e foi numa andança dessas que me envolvi na situação mais tensa até hoje. Foi logo que comprei minha 1ª digital, tem 6 anos isso, onde saí pela estrada Rio x Petrópolis a pé, sendo que iria pela pista de subida e retornaria pela de descida, já que dessa forma estaria sempre frontal ao trânsito que é pesado e perigoso. Em um trecho da estrada os moradores vendem um artesanato muito bonito feito de retalhos de tecidos, tapetes principalmente, e foi numa dessas barracas que quase me dei muito mal. Só tinha uma barraca e uma vendedora, ao qual perguntei se podia fazer uma foto de um tapete com o desenho da bandeira do Brasil, nisso a mulher enlouquecida, pega um facão e vem para cima de mim do nada, já que só tinha feito uma pergunta a ela,gritando – Sai,sai daqui, senão te mato! Me afastei de imediato,e perguntei o porque dessa reação,já que não tinha feito nada a ela,mas ela furiosa como estava,continuou a gritar para sair dali senão me matava. Nisso, um homem que estava em uma bicicleta próximo, veio para cima de mim, perguntando o que tinha feito a ela, e que era para sair dali. Não ia discutir, já que não sou de confusão, e peguei minhas coisas e continuei pela estrada sem dizer nada, já que não adiantaria argumentar com ele que também estava meio alterado. No caminho ele passa por mim de bicicleta dizendo que ia chamar uns amigos para me pegar. Começou a ficar bem tensa a situação, mas continuei andando,quando mais a frente ele estava com outro cara próximo a um bar,não me lembro bem, ambos de bicicleta, parados me observando. Chegando onde eles estavam, parei para pedir uma informação no bar e ouvi quando um deles disse ao outro – É esse aí! Continuei por ali, eles próximos conversando, mas sem esboçar nenhuma reação,quando um fala para o outro para irem até o bairro que lá juntariam uma galera para me pegar,logo que disseram isso, pegaram as bicicletas e saíram em disparada pela estrada. E a coisa ta ficando cada vez mais tensa e tinha que dar um jeito de sair dali porque na próxima vez que encontrá-los senti que ia me dar muito mal. Parei, pensei um pouco e lembrei que logo à frente, tem um posto de gasolina, onde ao lado tem uma estrada de terra que sai na pista de descida, e que teria que seguir por ali, já que se seguisse até o final da pista, passaria por onde eles estavam e uma vez ali não tinha para onde correr. Continuei a caminhada, cheguei ao posto, olhei em volta, já que eles poderiam estar por perto, e perguntei ao frentista se dois caras tinham descido de bicicleta por ali recentemente, ele disse que não, e sem pensar, comecei a descer correndo para estar na outra pista o quanto antes. Cheguei à pista, tudo certo, e segui meu caminho de volta para casa que foi até mais tenso do que antes, já que a todo o momento olhava para trás, para ver se não estava sendo seguido, e todo carro que vinha em sentido contrário gerava uma expectativa, já que poderia ser o pessoal do bairro em busca do fotógrafo de tapetes da bandeira do Brasil que havia “molestado” a vendedora de artesanato que talvez por ter sofrido alguma violência, sofria de um trauma tão grande, que qualquer pessoa que a abordasse,queria lhe fazer mal.

6- Filme e/ou digital?Por quê?

Digital. Comecei a fotografar seriamente em 2004 e com digital, uma Fuji S5000,

(não conto muito o período em que usava a câmera tudo automático de filme como fotografar, já que não entendia nada de fotografia na época, só sabia apertar o disparador, trocar o filme e nada mais) e apesar da minha experiência com filme ser pequena, prefiro o digital. Gosto da sua praticidade, de visualizar a foto na hora em que foi feita e corrigir possíveis falhas técnicas com um rápido ajuste e outra foto em seguida, de ter o controle de todo o processo, desde a captura até a impressão, da facilidade de armazenamento, onde em um DVD ou HD coloco centenas de fotos ocupando pouco espaço em casa ou na mochila, de no caso de uma viagem carregar menos peso e ter menos preocupação com a integridade das imagens, conheço fotógrafos que viajavam com 100, 200 rolos de filme em uma bolsa térmica e que ficavam estressadíssimos com a segurança do material o que hoje com um cartão de memória de alta capacidade que cabe no bolso de uma camisa foi resolvido, da maior resolução e qualidade de imagem comparada aos filmes de 35 mm, enfim, não me vejo fotografando e nem tenho muita curiosidade de usar filme por esses entre outros motivos. Se fotografo hoje é graças ao digital. Talvez se só existisse filme não teria a mesma motivação que tenho usando a tecnologia digital que veio para ficar e facilitar a vida dos fotógrafos.

7- Flávio, abaixo 2 séries de fotos que gostei muito em seus álbuns.

Destaquei em cada uma delas algumas fotos que fiquei impressionado, seja pela qualidade da captura (composição, luz, tratamento, etc) ou seja pela diversidade das informações contidas nelas.

E pelo simples fato de eu me sentir muito próximo da sua abordagem em ambientes tão plurais, locais que me atraem muito para fotografar também.

Entendo que você transmite muita humanidade nestas capturas, mostrando verdadeiros relatos de nosso povo e seus costumes.

Na verdade as fotos postadas funcionam apenas como exemplo, porque os álbuns, verdadeiramente, são ótimos.

1- Porto de Manaus – AM.

2- Mercado Municipal, Manaus-AM.

O que vc sente ao fotografar estas comunidades e estes locais?

Fale um pouco sobre sua abordagem nestes ambientes que muitos, erroneamente, chamam de “poluídos”.

Sinto-me participando do modo de vida das pessoas, me identifico com suas histórias, admiro seu trabalho e tenho profundo respeito por elas. Agradeço por ter a possibilidade de acompanhá-los mesmo que por poucos momentos, e como vejo a fotografia como uma troca, sempre que possível procuro dar as fotos para elas, já que recebi um presente, nada mais justo que retribuir.

8- Em suas andanças, que lugar (ou tema) te proporcionou mais prazer em fotografar e por quê?

Curiosamente um dos locais que mais me proporcionou prazer em fotografar não foi em um ambiente natural, mas em uma cidade grande, como Porto Alegre. Foram às fotos feitas no Mercado Público, na Usina do Gasômetro, no Brique da Redenção e na Casa de Cultura Mário Quintana, quatro dos principais pontos turísticos da cidade.

O prazer estava no desafio, de fotografar algo novo para mim, o urbano, o cotidiano de uma cidade grande, e de forma diferente das usuais, onde a luz era o fio condutor das fotos isolando em meio ao todo, os sentimentos, as angústias, o trabalho, a correria do dia a dia das pessoas.

E o sucesso desse ensaio que foi matéria de capa e publicado na revista Photo & Magazine edição 18, reflete muito o meu estado de espírito na época, onde passava por um momento muito bom da minha vida, motivado, feliz, a véspera de um trabalho importante que foi a documentação fotográfica de toda a cidade de Bagé no pampa gaúcho. Foi à união perfeita do momento com a vontade de fotografar.

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781952

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781959

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781976

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=782004

Participação especial: Eduardo Buscariolli.

9- Frequetemente vejo você manifestando um viés ambientalista. Considerando que você faz da fotografia de paisagem uma espécie de meio de expressão pessoal, torna-se natural a defesa daquilo que nos move. Assim, fale um pouco da sua paixão pela fotografia da paisagem natural. O que veio primeiro a fotografia ou a paisagem?

A paisagem veio primeiro. O meu contato com a natureza vem desde os tempos de adolescente, onde nas minhas viagens sempre procurei ir para locais de natureza exuberante, e que tinham história, autênticos. Mas não tinha nenhuma câmera, até pela fase que me encontrava, onde queria ir mais para a farra que outra coisa. Com o tempo comecei a deixar a farra de lado e explorar esses locais com outros olhos, e foi aí que a fotografia entrou definitivamente na minha vida. Logo em seguida comprei uma câmera daquelas “aperte o botão que a gente faz o resto”, uma Pentax PC-33

dessas saboneteiras com foco fixo e tudo automático, onde a única escolha do fotógrafo é o filme, a composição e escolha da luz, sendo que quase sempre, até por não saber nada de fotografia, só sabia trocar o filme e apertar o disparador, os resultados me frustravam, já que o que via não era o mesmo que o filme registrava.

Mesmo sem entender nada de fotografia e inspirado pelas fotos que via em revistas como a Geográfica Universal e Terra, onde ficava fascinado pelas fotografias e dizia que um dia iria fotografar igual aqueles caras e conhecer os mesmos locais que eles, organizei minha “1ª expedição”, que foi uma caminhada de 1000 km pelas praias mais bonitas do Brasil, sendo que o meu guia de viagem foi o da Quatro Rodas sobre o litoral.

Fiz essa caminhada em algumas etapas, priorizando uma região em cada, onde levava minha câmera faz tudo, vários rolos de filme, sendo que os mais usados eram o Kodak Gold 100 e o Fuji Superia ISO 100, um rolo de esparadrapo para depois de cada filme terminado os catalogar com o nome do local onde as fotos foram feitas, e segui meu caminho de aspirante a fotógrafo desde então nesse esquema durante um bom tempo. Sem entender nada de fotografia, só tendo como referência as fotos que via em revistas. Sendo que quando do cancelamento de uma viagem ao sul devido a uma doença, com o dinheiro que tinha juntado para a viagem comprei uma Fuji S5000, isso aos 33 anos,quando aí sim,investi em um curso no SENAC e comecei a encarar a fotografia mais seriamente.

Dessa época da câmera faz tudo, duas fotos que gosto muito são essas de crianças índias no Rio Corumbau, litoral sul da Bahia:

10- Geralmente em suas fotos vê-se uma paisagem grandiosa muitas vezes parecem intocadas. Em conversas anteirores você menciona pintores paisagistas do século 18 ou 19. Esse aspecto intocável é para você uma espécie de romantização da paisagem?

Em parte sim. Ultimamente tenho fotografado com duas influências, uma da fotografia e outra da pintura.

A da fotografia é do americano Galen Rowell (1940-2002), http://www.mountainlight.com/ que tinha como característica a busca pela luz perfeita, que chamava de mágica, e que era a do inicio e fim do dia, de tons quentes, aveludados, além do seu estilo de vida que admiro muito e me identifico.

A da pintura no apuro das composições e na representação fiel e detalhada dos elementos topográficos, da flora e fauna.

Dentre os pintores destaco:

O suíço Johann Jacob Steinmann (1800 -1844)

O alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

O inglês George Lothian Hall (1825-1882)

O holandês Frans Janszoon Post (1612-1680)

O italiano Nicolao Antonio Facchinetti ( 1824-1900)

E o português Joaquim Insley Pacheco (1830-1912)

A romantização vem do fato de procurar mostrar a paisagem com os mínimos sinais de ocupação humana, a paisagem pura, exuberante, que encantou os pintores e que mais me identifico. Quando não é possível a mostrar dessa forma, procuro locais onde a simplicidade das construções, das pessoas, do modo de vida, o que encontro principalmente em áreas rurais, remete há esse tempo. Tem um quê de nostálgico nessa minha busca atual, de ir de encontro ao meu verdadeiro eu, da tranqüilidade, de ambientes onde a paz parece imperar.

As fotos mais representativas dessa fase são essas feitas esse ano em Petrópolis – RJ:

11- Ainda em conversas anteriores, você mencionou estar interessado em uma mudança de modo de fotografar, onde tentaria buscar particularidades dentro da paisagem. Fale-nos desse processo de mudança.

Essa idéia veio de uma conversa que tivemos sobre o belo e o sublime Kantiano, onde o belo é o ligado ao alegre e jovial, como as paisagens calmas de um dia de céu limpo, e o sublime é o assombro que temos perante a grandes tempestades e a profundeza de grandes precipícios.

E pode soar contraditória essa mudança em relação à resposta da pergunta anterior onde respondo que procuro ambientes onde a paz parece imperar, mas ao mesmo tempo em que o belo me fascina,tenho uma profunda admiração pela força da natureza, do poder das tempestades, de raios rasgando o céu, de mares furiosos, nevascas inclementes, o que vai na linha do sublime,daquela sensação de prazer ligado ao terrível.

E não sei se seria uma mudança no modo de fotografar, mas sim, no modo de abordar a natureza, já que sempre fui à busca do belo, de condições climáticas acolhedoras, quando sinto profundo interesse pelo lado hostil da natureza. O que envolve riscos, já que no caso de uma fotografia na montanha, que são expostas as intempéries não tendo muitos locais onde se abrigar, uma situação de tempestade elétrica pode ser bem complicada, extasiante mais extremamente perigosa. É o sublime sem dúvida, mas que só tem razão de ser, se eu voltar para casa.

Por isso essa mudança, da busca por condições mais extremas, é algo para se pensar com calma,ao mesmo tempo em que elas me fascinam,sinto receio de me envolver em certas situações críticas só para fazer uma foto mais impactante, e como disse acima, uma aventura só é bem sucedida, se conseguimos voltar dela.

Uma foto na linha do sublime pode ser essa de um piloto de asa delta em meio a uma tempestade de verão:

Flávio, qual é a sua melhor e sua pior foto, e por quê?

E qual (ou quais) foto vc viu e pensou: “puxa, eu gostaria de ter feito esta foto …” ?

Peri,

Essa avaliação do melhor e pior é difícil de ser feita pelo fator emocional que acaba influindo nas decisões, já que é muito fácil se deixar levar pelas dificuldades na realização de uma foto de paisagem ou pelo carisma de uma pessoa que te marcou de alguma forma, fatores que para quem fez a foto são importantes por trazerem boas lembranças, mas para quem vê não, Bresson dizia que:

“O que conta é o resultado, a prova de convicção que a foto deixa. Se assim não fosse, não se acabaria de descrever as fotos malogradas e que só existem no olho do fotógrafo”

E procurando ser racional, com a frieza e rigor de um curador, as minhas escolhas são as seguintes:

Melhores

Paisagem

Luz, momento, lugar, onde as velas criam uma moldura como que santificando a menina.
Não tenho conhecimento teórico,bagagem,para fazer analises mais aprofundadas,mas dentro do que sei,considero esse retrato com força suficiente para prender a atenção do observador e querer saber mais sobre o lugar.

Piores

Paisagem

Péssima foto, em tudo, desde a escolha do enquadramento/composição a da luz. É o tipo de foto que me pergunto por que parei para fotografar, já que as condições não estavam favoráveis para a realização de uma foto interessante.
O encantamento com uma paisagem bonita e a vontade de registrar um lugar que talvez nunca mais volte pode ter pesado bastante na decisão de fazer essa foto, mas fora a questão de ser uma lembrança de viagem, essa foto não diz nada, nota 0!

Gente

Não é bem a pior,mas uma foto que me incomoda pelo seguinte: Procurei fazer um retrato desse homem mostrando os objetos de seu trabalho assim como os prêmios recebidos por ele,nesse ponto o enquadramento cumpriu sua função.

Mas o que me incomoda e ficou muito estranho é a sua postura, com as mãos devido ao uso de uma grande angular, desproporcionais em relação ao corpo, sentado com as pernas abertas e com uma fisionomia fechada que não reflete a sua personalidade.

Faltou uma melhor direção, deixar ele mais a vontade, o que consegui na foto seguinte a essa:
http://photo.net/photodb/photo?photo_id=10371412

Mais que devido à correria de um trabalho e a impaciência dele, que não tinha o costume de ser fotografado, não foi possível refazer a outra foto com ele em melhor postura, mais a vontade e mostrando os objetos/prêmios de seu trabalho.

Pela abordagem errada e má direção considero essa foto uma das piores.

E uma escolha levando mais para o lado emocional essa foto:

Que foi a foto que me permitiu realizar o sonho de conhecer a Amazônia e o Monte Roraima, devido ao prêmio que ganhei com concurso “O Céu do Brasil” em 2009

Das fotos que gostaria de ter feito são muitas, não teria espaço para tantas no tópico, por isso em vez de mostrar várias fotos, cito os fotógrafos que admiro o trabalho e dentro das minhas limitações tenho como fonte de inspiração.

Documental

Sebastião Salgado – http://www.amazonasimages.com/

Steve McCurry – http://www.stevemccurry.com/main.php

Pedro Martinelli – http://www.pedromartinelli.com.br/

Paisagem

Galen Rowell – http://www.mountainlight.com/

Marc Adamus – http://www.marcadamus.com/

Michael Anderson – http://www.michaelandersongallery.com/

E citando uma foto, uma que gosto muito, por me identificar muito com a cena, com o modo de vida simples do homem do campo que tenho contato nas minhas andanças por áreas rurais, vai essa do Ed Viggiani.

Não encontrei esse foto na rede, por isso tive que escanear o que infelizmente causou um corte na imagem

O fotógrafo recebeu o prêmio Abril de Reportagem Cultural com essa matéria publicada na National Geographic em 2002.

É realmente de impressionar o seu envolvimento com a fotografia não comercial, que é uma fotografia mais gostosa de se fazer (e que particularmente me atrai mais também) e a sua generosidade em compartilhar isto.

Concordo com o Marcos.

Está sendo uma entrevista muito bacana mesmo.

A título de curiosidade apenas, mais algumas fotos de seu portfólio que gostei bastante.

Se vc desejar comentar alguma, fique à vontade.

Verdade, o fotografar sem compromisso com prazos, layouts, padrões é uma atividade muito prazerosa e divertida, como por exemplo, nessas fotos que fiz esse fim de semana no Rio de Janeiro em uma passagem subterrânea em Botafogo, onde me senti uma criança brincando com seu brinquedo favorito em um parque de diversões.
http://photo.net/photodb/folder?folder_id=981235

Andava de um lado para outro, subindo/descendo as rampas/escadas, observando os grafites e tentando associá-los com as pessoas que passavam e a paisagem ao fundo, aí encontrava um local e esperava até alguém entrar no quadro para clicar, fazia a foto e já começava a procurar outro ponto onde pudesse continuar a brincadeira.

Fazia como um jogo de pique esconde e adivinhação com as pessoas e os desenhos, onde me diverti por quase uma hora tentando montar o quebra cabeças fotográfico que encontrei no caminho, sendo que nada foi planejado, já que sai de casa sem idéia do que fotografar, só com a câmera no bolso e ao passar por esse ponto identifiquei ali um tema interessante e comecei a brincadeira,que como a imaginação de uma criança,foi muito divertida e criativa.

É o acaso, o inusitado que em algumas situações torna a fotografia mais divertida, já que como não foi nada planejado foi tudo muito espontâneo, tudo flui com muita naturalidade e alegria e o resultado nem importa tanto, o legal é o jogo, a brincadeira.

Não duvido muito que voltando a esse local minha atitude em relação a ele será outra,já que como já o conheço e fotografei,sairei com uma idéia do que fazer de casa e com isso a fotografia que foi uma brincadeira quando da 1ª vez, se tornará como um trabalho, mas criteriosa, calculada, sem a espontaneidade de quando descobri o parque de diversões e comecei a brincar feito uma criança. Por isso acho que esse tema pelo menos nesse local se fechou, já que a alegria que me movia antes não existirá mais, em vez da câmera ser o meu brinquedo ela se tornar-la uma ferramenta, e isso a torna chata, já que a cobrança por resultados me impedirá de curtir a fotografia como antes.

Nas fotos postadas, elas são bons exemplos de como abordo as pessoas e vejo a fotografia, onde fotografo evitando expor-las a situações constrangedoras, só fotografando quando aceito por elas, sem parecer intrusivo, mostrando o lado bom da vida, as suas belezas.

Como a simplicidade de uma sala de TV em uma fazenda em Bagé no Pampa gaúcho, a diversão de um comerciante na comunidade caiçara do Saco de Mamanguá em Paraty, a alegria e o interesse de um menino quando ensinado a ele pela professora o alfabeto também no Saco de Mamanguá em Paraty, o sorriso de uma menina ao perceber que estava sendo fotografada no Parque Cremerie em Petrópolis, o espanto e o brilho no olhar das crianças ao ver Papai Noel pelo vidro do Palácio de Cristal em Petrópolis (foto que perdi devido a uma formatação no computador por um vírus ), o trabalho desses 3 homens que moravam e trabalhavam em uma caótica cidade grande e ao se aposentar foram morar na praia onde descobriram a pesca e a alegria de viver.

Enfim, são momentos como esses que procuro registrar, coisas boas, que trazem bons sentimentos a quem vê as imagens, já que como está no meu texto de apresentação no inicio da entrevista, “Meu livro só mostra as belezas da vida, boa viagem pela minha história”.

Flávio,

Relendo sua entrevista, suas falas e passagens, dá pra perceber seu total envolvimento na área.
Em algumas oportunidades vejo e percebo um envolvimento visceral, quase divino.

A fotografia já lhe trouxe alguma decepção, algum desprazer?

Peri,

Divino não é a palavra, soa messiânico demais.
A minha relação com a fotografia é a de simplesmente fazer o que sempre gostei, de ter realizado um sonho de criança,e quando fazemos o que gostamos e temos a curiosidade de estar sempre aprendendo,buscando novos desafios, a motivação, o prazer em fotografar fica explicito nas imagens.

O mesmo ocorre com vc, por exemplo, que além de excelente fotógrafo, tem profunda paixão pela fotografia e fotografa os temas que mais se identifica e que te dão prazer.
Aquele algo mais que muito falam que faltam na fotografia é justamente isso, apesar de muitas pessoas gostarem de fotografar, falta a elas paixão pelo que fazem, como Bresson dizia:
“Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”.

Sem essa conexão, por mais conhecimento técnico que as pessoas possuam, elas nunca conseguiram ir além da superfície dos temas que fotografam, só com envolvimento, verdadeiro amor pelo que se faz e pelos temas que se fotografa é que conseguimos ir além do simples registro e fazer fotos realmente especiais.

Decepção tive principalmente com a fotografia comercial, com clientes que não pagam o combinado, com o pouco tempo para se fotografar uma paisagem sem ter nenhuma referência do lugar e em condições climáticas ruins, com a minha auto-critica de não ter entregado fotos com a qualidade que considero aceitável devido a ser tudo para ontem, do meu pouco conhecimento em relação à edição de imagens quando da realização de um trabalho em que entreguei fotos que editando hoje ficaram muito mais bonitas, do meu amadorismo em algumas situações, enfim, as decepções que tive além de fatores externos, foram muito frutos da minha rigorosa auto-critica em relação ao que faço.

Sempre procuro independente do cliente, seja ele uma grande empresa ou um pequeno artesão, fazer o meu melhor, e quando não consigo ou não são me dados meios para realizar esse trabalho como gostaria me decepciono realmente.

Me incomodo muito com a qualidade do que faço,e qualquer coisa que não tenha o padrão que considero bom é motivo para uma decepção.

São coisas que me incomodam, mas que procuro sempre aprender com as boas e más experiências que vivenciei para de uma próxima vez não cometer os mesmos erros

Sem um envolvimento mínimo não há avanço.

Não avanço no sentido técnico, porque técnica (aprender a controlar funções, aprender a ler luz e etc) de uma hora pra outra todo mundo aprende.

Mas avanço no sentido de promover uma fotografia mais humana, mais próxima de nós, e que nos faça crescer como seres humanos.

Um fotógrafo francês, Félix Nadar (1820-1910), dizia:
“Técnica fotográfica se aprende em 15 minutos, a fotografar se leva a vida toda”.

Enquanto as pessoas pensarem que o equipamento é que faz o fotógrafo nunca entenderão que boas fotografias são resultado de esforço, dedicação, envolvimento e principalmente paixão pelo que se faz e pelo outro. E isso leva tempo, não existem receitas milagrosas, mas um aprendizado constante com as experiências que vivenciamos diariamente

Pelo outro porque vejo muitas pessoas fotografarem pessoas como se fossem objetos, os usando para alcançarem prêmios, fama ou simplesmente uma foto chocante para ser mostrada em fóruns e causar polêmica os tornando o centro das atenções.

Boas fotos são resultado também do respeito que se sente pelas outras pessoas. Uma pergunta que muitos deviam se fazer antes de fotografar,é se gostariam de ser fotografadas na mesma situação.

O se colocar no lugar no outro, procurando compreender e respeitar seus sentimentos, como vc disse promove uma fotografia mais humana, honesta, o que com certeza nos faz crescer como pessoas.

Em foco: Júlio Paiva.

Antes de iniciarmos, nos trace um breve perfil seu.
Se possível com a inclusão de uma foto.

Júlio Paiva, 31. Nasci no Rio de Janeiro, mas pra falar a verdade: sou um sujeito de Recife, cidade onde me criei e aprendi a ser boa parte do que sou. Só saí aos 25 anos, após concluir minha formação em arquitetura e urbanismo. Depois, vivi em Fortaleza, cidade na qual me casei e exerci essa profissão por alguns anos.

Desde cedo a fotografia ocupou um espaço significativo em minha vida. Antes, o interesse era fotografar, aos poucos cresceu a vontade de aprofundar os conhecimentos. Depois de sair de Fortaleza, e um período itinerante pelo Cone sul, surgiu a possibilidade de ingressar em uma instituição de nível superior na formação em fotografia aqui na Argentina.

Nesse momento resido em Córdoba exercendo a profissão de fotógrafo.

1- Júlio, olhando seu blog, o Figurae – http://figurae.blogspot.com/ – vi transcrito:
“Júlio Paiva, fotógrafo estudante da Escuela Spilimbergo e arquiteto urbanista. Córdoba / Argentina”. Como é se manter o eixo Brasil-Argentina? E por que logo a Argentina – rs?

Uma experiência interessantíssima. Para um brasileiro, viver na Argentina acarreta consequências, algumas já esperadas e outras nem tanto. Em ambos casos destaco questões positivas e negativas. As lógicas de comportamento e vivência possuem muitas diferenças, algumas sutis e outras não; é estar sempre enfrentando dois contextos e suas peculiaridades, ainda que compartilhem muitas aparentes semelhanças.

Observo, por exemplo, a sensação de segurança. Para mim, como brasileiro – e de Recife -, morar aqui é realmente uma experiência libertadora. Porque ainda que a opinião pública local esteja igualmente inclinada à exacerbar o problema da violência, ao menos aqui na região do microcentro de Córdoba, eu realmente esqueço de tomar muitos cuidados imprescindíveis no Brasil. Literalmente relaxo. Saio com minha câmera, tiro fotos, verifico, apago, retorno, deixo de olhar para os lados e até hoje nunca fez diferença. Comparativamente, nesse sentido, a vivência aqui é muito mais tranquila. Não vou te dizer que aqui não tem roubo, assalto; mas fazendo um paralelo com o Brasil, ou com Fortaleza, que foi a última cidade onde morei antes de sair, é outra hisória. É muito curioso entrar numa loja e não ter ninguém, com tudo à mostra, porque o vendedor foi no banheiro e deixou o saguão sozinho; pra um brasileiro isso é, no mínimo, inquietante.

Mas enfim, são coisas e coisas. Dois mundos diferentes, vizinhos e sulamericanos. O povo argentino em geral é muito amável, admirador de nossa cultura, de nossas praias, de nossa alegria. Morar aqui é escutar quase sempre que digo que sou brasileiro: “Que estás haciendo acá en Argentina????? Brasil és mucho más lindo!!!!” – palavras deles.

E por que logo a Argentina? Bueno, paramos para viver nesse país porque com o Konidomo – Expedição América do Sul , após algumas mudanças de planos depois de tanto tempo na estrada, resolvemos retornar à Argentina. Foi o país que naquele momento pareceu apresentar as melhores condições para seguir com a carreira acadêmica e experimentar por um tempo.

Após esse ano e meio itinerante, quando regressamos do Chile, paramos para viver em Mendoza por um intervalo de mais ou menos 6 meses. Aí, aos pés da Cordilheira dos Andes, recompomos as energias e vivenciamos essa Província tão interessante e emblemática durante o fortíssimo inverno de 2007. Depois desse período resolvemos seguir à Córdoba, por apresentar um interessantíssimo pólo acadêmico, com algumas das mais antigas e conceituadas faculdades da América do Sul. Ademais essa cidade possui uma escala urbana muito agradável, principalmente em sua região microcêntrica. Aqui desdobramos o Konidomo: Raquel entrou para um Mestrado em Antropologia e eu ingressei na Spilimbergo, no curso de 3 anos na tecnicatura superior em fotografia que essa instituição oferece. Isso foi em 2008, seguimos por aqui, todos os anos damos um pulo no Brasil pra matar as saudades e novamente voltamos pra cá.

* Projeto de Pesquisa Itinerante realizado a bordo de um fusca, por alguns países da América do Sul, por mim e minha esposa, também arquiteta-urbanista Raquel Queiroz. Durante um ano e meio percorremos 17.000Km investigando os modos de vida e a ocupação do espaço por onde passávamos.

Vide: http://konidomo.blogspot.com

2- De que a forma a fotografia lhe auxilia em sua profissão de arquiteto? Ela se encaixa como base para a profissão ou serve apenas de suporte?

De várias maneiras. A fotografia pode, por exemplo, servir como registro para a criação de um portfólio. E ainda que as maquetes 3D tenham cobrado bastante protagonismo no últimos tempos, digamos que a foto, que “prova” que o projeto de fato foi construído, segue bastante valorizada.

A fotografia também pode auxiliar a profissão do arquiteto quando serve como referência de algum determinado espaço a intervir. É muito comum, ao realizar levantamentos arquitetônicos, fazer algumas fotos para posterior utilização no momento em que são “passadas a limpo” as medidas.

Particularmente acredito que a foto pode ser utilizada como referência mas não deve ser tomada como a única fonte de informação. Por exemplo: do ponto de vista ótico, da formação da imagem, sabemos que diferentes focais podem representar o espaço de diferentes maneiras, aliás, bastante diferentes. Ou seja, quando na praxis arquitetônica o sujeito esqueçe de medir un determinado trecho e a posteriori supõe, proporcionalmente, a medida a partir de outro elemento de dimensões conhecidas, ele está se arriscando ao equívoco.

Igualmente se verifica o uso da fotografia aérea em disciplinas como Urbanismo por exemplo, também se pode utilizar uma imagen fotográfica para realizar croquis simulando intervenções, seja em espaços já contruídos ou não; uma foto pode servir para “explicar como funciona” determinado mecanismo ou para ampliar um detalhe construtivo. São inúmeros os usos da foto dentro do ofício arquitetônico.

Vejo ambos – projeto arquitetônico e fotografia – compartilhando uma característica comum: a representação espacial a partir de um suporte plano. Uma diferença está na questão temporal, a foto reproduz algo que supostamente já passou, através da perspectiva monocular, do mecanismo da caixa escura, do estenopo, da suposta relação indicial etc; enquanto que o projeto arquitetônico algo que ainda será, através do desenho, da linguagem técnica, de um grau de abstração inicialmente maior, de símbolos.

Mas como ultimamente minha dedicação é quase exclusiva ao universo fotográfico, nesse caso a arquitetura é que me ajuda com a fotografia. Percebo muito incorporado o treinamento espacial, assim como naturalizados os processos compositivos, sentidos espaciais e uma busca estética. Uma capacidade que o estudo da arquitetura exercita exaustivamente e que também contribui à pratica fotográfica é a necessidade de prever problemas e planejar situações. Tudo meio que se complementa.

3-O que vc tem visto de legal que possa indicar aos amigos do DigiForum na Argentina em especial?

Alguns fotógrafos que eu gostaria de destacar e realmente recomendo que conheçam:

Alejandro Chaskielberg (www.chaskielberg.com) – Impressionantes imagens, formato médio, grandes apliações. Além da questão conceitual, destaco pelo extraordinário emprego da técnica.

Natalia Pittau (www.nataliapittau.com.ar) – Vi uma mostra da Natália ano passado, que por sinal foi minha professora na Spilimbergo na cadeira Sintaxis de la Imagen, onde apresentou uma obra realmente arrebatadora, com inclinação marcadamente neopictorialista.

Marcos López (www.poplatino.com) – Especialmente em “Pop Latino”, obra que me apresentou à sua produção. Todo esse tom de paródia, a imagem kitsch. Além da marcada caracterização, se assim se pode dizer, de uma fotografia latino-americana.

Ananke Yassef (www.anankeasseff.com/obra.html) – Especialmente em “Potencial” e “ Vigília”. Ananke dissipa as fronteiras entre o documental e o uso artístico da fotografia nesses dois trabalhos.

Aldo Sessa (www.aldosessa.com.ar) – Imagens de diversos campos, usos diferenciados. Beleza e impecabilidade. Um clássico fotógrafo argentino.

4- Me fale sobre seu equipamento e como ele influencia em sua produção.

Meu equipamento é quase todo fruto de muita pesquisa. Produtos fotográficos são dispendiosos e não dá pra adquirir tudo que se deseja à qualquer momento.

Normalmente surge a demanda por algum intem. Dessa maneira eu atualizo, descarto ou acumulo recursos. No momento fotografo com uma EOS 3000n, uma Canon 500D, uma objetiva Vivitar Series1 19-35mm, uma Canon 75-300mm Ef, um flash 580exII e mais um par de apetrechos como filtros, tripés, cabos de sincronismo, sombrinha refletora, painéis, refletores, etc. Improvisação e criatividade também são fundamentais na hora de resolver algum problema, mas comparando com o que o pessoal tem por aí, eu tenho bastante pouco.

Se você observar, não tenho cobertura num raio importantíssimo: dos 35mm aos 75mm; mas pra falar a verdade, tenho sentido mais falta de qualidade ótica do que de cobertura. O sujeito quase sempre pode deslocar-se para delimitar o enquadre desejado, mas arrancar qualidade de lentes que originalmente não foram construídas para fornecer uma extraordinária imagem exige muito mais esforço. Quem já trabalhou com fixas bem corrigidas, ou lentes de alta gama, pode facilmente estabelecer um paralelo entre a qualidade oferecida por boas lentes e lentes comuns.

E enfim, meu equipamento influencia na minha produção na medida que responde ou não à alguma demanda específica. Se surge alguma idéia ou solicitação por parte de um cliente, tenho de verificar se será possível, a partir dos elementos que possuo, concretizar um produto ou não. Na verdade eu vejo tudo isso mais como recurso a ser utilizado do que premissa no momento de definir o que quero fazer. Quando falta algo, existem outras maneiras de conseguir, seja improvisando, comprando, tomando emprestado ou alugando.

5- Percebo que vc se calça muito em textos e jogos quando explora sua linguagem fotográfica. Vejo relações de palavras e conceitos, dípticos, montagens, inversões de posições, etc. Isto é parte integrande de seu processo criativo ou é algo que se manifesta apenas esporadicamente?

Às vezes é parte integrante do processo creativo, às vezes é algo que se manifesta esporadicamente. A sobreposição texto-imagem acontece quando a obra pede, quando eu tenho interesse em reforçar ou desviar uma determinada leitura ou idéia. Ou seja: vai depender dos interesses envolvidos naquela intervenção.

Vejamos. Por vezes, uma imagem solicita uma história, outras não faz tanta falta. Mas o fato é que quase sempre se poderia, textualmente (seja por meio da descrição do momento), atrelar alguma informação. Não é muito difícil ouvir, quando alguém está mostrando uma foto, uma descrição da cena, algo mais ou menos assim:

“Estava às margens de um determinado rio no pantanal, quando percebi essa revoada de pássaros tapando o crepúsculo, não resisti: tive que tirar uma foto para registrar esse momento!”

O que faço, às vezes, é fundir um código com outro, sobrepor os meios. Ao menos até agora esse processo tem assumido três funções possíveis:

A redundância: Porque às vezes é tão óbvio que surge o interesse em exagerar.
A indução: Seja coerente com o referente, seja para funcionar como algo que “rompe” essa leitura fácil à qual estamos tão acostumados.
A escolha: Se eu relaciono várias opções, todas possíveis, o que pode surgir é a necessidade do observador em se definir. Ou ele escolhe ou ele desiste. De ambas opções pode surgir um debate interessante: se ele escolhe é porque acreditou que determinada verdade era coerente; se ele desiste é porque talvez essa imagem não lhe diga tanto como normalmente se imagina que possa.

Naturalmente são momentos, não é regra, mas pode ser interessante desmontar a foto, desmembrar, remembrar. Como também é interessante a foto pura, a foto dura e direta. São usos da imagem. A fotografia, nesse caso, serviria como objetivo ou como meio para alcançar determinado fim.

6- Em muitas oportunidades vc postou fotos aqui no DF numa seção de críticas. Como foi a experiência? O que vc pode apontaria como positivo e como negativo na experiência?

Postar no fotocrítica é um exercício muito interessante. Primeiro, naturalmente, do ponto de vista do retorno que você tem da postagem: as críticas, os votos, os comentários, a ausência ou presença de pessoas específicas, de um coletivo que pode comparecer e se envolver, ou pode ignorar totalmente a publicação. Em segundo lugar, do ponto de vista de uma possível auto-análise: a de observar a si mesmo, publicamente, defendendo uma proposta.

Vejo como positiva a necessidade de estabelecer uma coerência entre imagem e sentido descrito. Uma vez que o trabalho está publicado, podem surgir questionamentos de qualquer lado. É um fórum acessível: basta cadastrar-se para participar e comentar, segundo as regras de cada sala. Sendo assim, qualquer que seja o comentário ou questionamento, exige o argumento claro, até mesmo para a descoberta de possíveis equívocos que passaram despercebidos.

Também acho positiva a interação entre usuários com diferentes abordagens fotográficas, melhor dizendo: é possível receber críticas de fotógrafos que atribuem maior peso à técnica, outros à mensagem, ao referente fotográfico, à sensação que a imagem transmite, ou mesmo à dificuldade de execução da foto, etc. Ou seja, há de tudo, isso enriquece e pluraliza o debate.

Negativo me parece a unanimidade que se forma esporadicamente ao redor de certos temas. Ainda que essa unanimidade provenha do acordo comum entre várias partes. Um modo de analizar ou representar, compartilhado por todos e que estrutura, na medida que indica a via de fato a se seguir. Ao mesmo tempo que responde especificamente a certos paradigmas dentro da produção fotográfica, ao acreditar que são os únicos que podem ser valorizados como de interesse. Vejo isso em contra a pluralização, que me parece mais interessante e enriquecedora.

7- Que tipo de fotografia lhe agrada e qual é o assunto que vc gosta de fotografar?

No momento não tenho necessariamente uma predileção por esse ou aquele assunto. Na verdade me sinto em uma fase bastante plural. Poderiamos dizer que estou “especializando-me em generalizar”, se é que me faço entender. Toda situação é um problema fotográfico a resolver, são decisões a tomar.

Mas pra fazer um recorrido pelos temas recentes: outro dia fui fazer fotos de hugby, outra semana fotos gastronômicas, na sequência retratos. Algumas práticas pela cidade têm atraído minha atenção: a fotografar algumas pessoas que vejo na rua ou a própria cidade de Córdoba. Recentemente comecei a provar alguns processos artesanais com goma-arábica, lactose e bicromato de potássio, proximamente vou emulsionar com gelatina e prata. Ou seja, tenho aproveitado pra curtir essa fase multifacetária. Mais pra frente é capaz que afunile, mas enquanto eu tiver a oportunidade de conhecer e atuar em vários campos, melhor.

8- Júlio, o que na verdade é o Figurae? Qual o propósito principal do seu blog?

Andava sentindo falta de um espaço próprio onde publicar opiniões, imagens, interações e etc. Resolvi montar um blog ao final do primeiro ano da faculdade de foto, aproveitando a experiência com o blog do Konidomo. Pra sintetizar, procurava por uma palavra que, para mim, fizesse referência ao universo da imagem mas não necessariamente só em função do ato fotográfico, muito menos da câmera em si. Descobri que figurae significa “os não significantes constituintes de significados”. Permitindo um pouco de abstração, imaginei que cada postagem, cada imagem, cada foto ou elemento que produzo pode estar impregnado de uma carga simbólica específica e individual. Mas que adquire outra conotação e sentido quando agrupadas baixo um conjunto de produção pessoal. Assim nasceu o blog.

O figurae como blog é meu corpus de produções, é o espaço onde me divirto, falo sério, brinco, é onde publico alguns sentidos crus e naturais de procesos em andamento. Serve também de porta para outras páginas, outras pessoas, serve de memória e de resíduo. O figurae pra mim é uma encruzilhada de sentidos. As intervenções existem separadas, isoladas de um contexto ou de um meio onde possam ser compreendidas, mas podem adquirir novos sentidos quando agrupadas. Dessa maneira o figurae vai acumulando vestígios, documentando um processo creativo pessoal e as interações possíveis.

Já o figurae como marca é o meu cartão de visitas. Sou um fotógrafo, mas posso não ser o único a representar essa marca em determinado momento. Figurae é o nome que estampa o cartão que eu entrego para clientes, é quem assina o portfólio comercial, que dá nome à apostila das aulas de fotografia que dou. Em algumas circunstâncias eu compartilho o espaço com a marca, em outras sou Julio Paiva isoladamente, como aqui no Digifórum.

9- Geralmente nós que captamos imagens alheias não gostamos de ser fotografados. E com você, em casa de ferreiro, espeto de pau?

Poderia-se dizer que sim, mas na verdade acredito que tem mais a ver com quem nos fotografa e o momento do que com o ato de ser fotografado em si. Nesse sentido posso assumir a “angústia de uma filiação incerta” *, ou seja, esse sujeito que se sente devir objeto, mas nas mãos de quem? Onde? Como? E pra onde?

Há situações e pessoas que quando estão me fotografando ou fotografando o grupo onde estou, para mim passam quase despercebidas. Há outros momentos nos quais me sinto visivelmente incomodado, tudo depende. Quantas vezes já tive que pedir: “Amigo(a), poderia tirar uma foto minha?”, isso é um ato de entrega e confiança, às vezes nas mãos de um desconhecido, é sua imagem que está sendo entregue. Outras vezes tive de dizer: “Por gentileza; sem fotos, obrigado”.

Não sou um sujeito com muitas fotos de si mesmo, costumo brincar com minha esposa dizendo que há trechos de minha vida que “não existem”, há momentos coletivos dos quais só participo desde o outro lado da imagem, fotografando. Se é possível afirmar que a gente fotografa para esquecer, ou para colecionar momentos e lugares, eu tenho menos registros do que gostaria.

* Roland Barthes, em “A Câmera Clara”.

10- A foto abaixo é uma de suas imagens que mais me atrai. Me conte a história por trás dela.

Algo a que estou bastante acostumado, por ter sido criado em Recife, uma capital nordestina costeira e de muito calor, é ao sol. A tomar calor na cabeça, ir pra praia, “pegar uma cor”, usar roupas leves e tudo que implica uma cultura de trópicos. Ao vir morar na Argentina e, especialmente, em uma cidade onde o inverno cobra seu protagonismo todos os anos através do frio (e não da chuva somente, como é nossa experiência invernal) ficamos temporariamente impossibilitados de desfrutar desses momentos.

E como se não bastasse o impedimento climático, existe também a limitação geográfica: a praia mais próxima daqui está a mais ou menos 800Km. Ou seja, é difícil reproduzir a atmosfera praiera, a não ser no verão, na terraza (laje) ou em algum rio ou lago nas proximidades. Como não somos muito de sair da cidade, resta uma só opção: ir ao topo do edifício tomar sol.

Pois bem, a foto ambienta, minimamente situa um contexto. É Raquel, de ombros nus, óculos escuros, dourando ao piso e eu, de bermuda, sem camisa, em pleno sol, em um ambiente inóspito, árido e visivelmente cercado de concreto. Em todo caso, são aproveitados os momentos nos quais algumas sensações são aludidas, independente da localização geográfica; nossa cultura particular de dedicar-se , em corpo, ao sol.

A Tag nesse caso serve pra referenciar a imagem em si e tudo que situo por trás dela, o que a fotografia não mostra, o fora de campo. Por isso o Sol como palavra central, protagônica, e todas as outras estabelecendo relações com sensações que orbitam ao redor, com maior ou menor intensidade. E em ambas línguas porque nesse momento está tudo mezclado, unido por uma experiência central. Na base da imagem são encontradas algumas informações sobre a toma, porque como essa era prática habitual na sala, pareceu interessante incoporar.

12- E agora, provocando um pouco, de sua produção o que vc acredita que tem força suficiente para ser admirado? Esquece a modéstia e nos mostre esta(s) foto(s).

Estabelecendo uma divisão de momentos: Acredito muito na força que têm as imagens da Expedição Konidomo, por exemplo. São de uma fase muito inicial, descompromissadas, guardam um maior grau de inocência. Ao mesmo tempo que também me interessa muito o debate sobre a natureza da imagem fotográfica. São duas abordagens bem diferentes.

No primeiro caso, pensando o Konidomo como um projeto de documentação, acredito que foram realizadas fotografias bastante interessantes dos espaços e pessoas com os quais interagimos durante o período itinerante. É um material extenso: há mais ou menos 17.000 imagens no banco de dados da expedição.

Para estabelecer uma diferença fundamental com a fase mais atual de minha produção: nessas imagens do Konidomo há muito mais conexão com o referente fotográfico. Importava muito mais o que se mostrava diretamente, o espaço, as pessoas, algo da experiência da viagem. São fotos por assim dizer: ilustrativas, denotativas. Nessas, os aspectos documental e compositivo cobram muito mais protagonismo do que o debate ao redor da natureza da imagem, de sua ontologia. Dessa maneira, olhar as fotos do Konidomo é se permitir compartilhar uma experiência de lugares, pessoas, situações necessariamente vividas, tocadas, cheiradas, percebidas.

1. Konidomo na estrada.

2. Acompanhando Diogo Todé, Romero e Garotinho em visita à Ilha de Deus / Recife.

3. Estrada para Igatu, na Chapada, Bahia.

4. Onório, através de uma Rolleiflex.

5. A arquiteta Nathália Diniz, em nossa passagem por São Paulo.

6. No Akete: ateliê/residencia da arquiteta Virgína Valdetaro.

7. Barzinho na Agusta. Raquel Queiroz, Mirela e Lívia Moraes.

8. “Televisor Cuyano”, Julian de la Rosa em frente ao seu forno artesanal. Em Luján de Cuyo/Argentina.

9. Flávio Itajubá, afinando os tambores do Baque do Vale pro carnaval de 2007. Taubaté/SP.

10. Atravessando a Cordilheira dos Andes pela segunda vez, ao regressar do Chile, no inverno de 2007.

11. A casa de Adobe, construção de 1890, onde vivemos por 6 meses aos pés da Cordilheira, em Mendoza/Argentina.

12. Fechamentos do Carnaval na passagem pelo Interior de São Paulo.

13. “Biu Fiteiro”, coberto de neve na Argentina.

Um outro momento já se relacionaria mais ao estudo dos conceitos referentes ao estatuto da imagem fotográfica. O que se espera de uma foto, o que se costuma atribuir à imagens que absorvemos todos os dias. Acho interessante jogar um pouco com o processo de leitura e recepção desse universo visual tão próprio da fotografia. Talvez a “verdade fotográfica” seja muito mais frágil do que aparenta. Creio importante considerar o que e como captamos, como estamos condicionados a entender uma imagem.

Enfim, o blog tem um pouco disso, declaradamente, assumido em fotos e textos. Nesse sentido, gostaria de mostrar algumas imagens da série que acabou por chamar-se “clasificaciones / clasificações”. Pra minha alegria tive recentemente a oportunidade de participar de uma exposição coletiva com esse trabalho aqui na Argentina, na localidade de Unquillo.

Ou seja, dois momentos bem diferentes, dois usos da imagem. E inclusive pela experiência acadêmica, me interessam os fatores que influem tanto em um uso quanto no outro.

Ainda nesse campo, também acho interessante destacar uma foto que foi escolhida para representar a “foto del día” no site da FotoRevista, tradicional veículo de comunicação argentino dedicado à fotografía. Pra você ter idéia: quando as primeiras revistas ilustradas surgiram aqui com os avanços da tecnología gráfica em mediados do século XX, a FotoRevista foi uma das primeiras, mais importantes, e que sobreviveu até hoje além de ter estabelecido uma versão virtual. O título do trabalho é “Imagem” e além da gratificação pessoal, acho bem interessante a escolha por uma foto que necessariamente não se encaixa no padrão do site.

E enfim, pedir pra fotógrafo mostrar foto é meio arriscado, você pode passar o dia inteiro vendo trabalhos e trabalhos. De qualquer maneira, quem quiser se extender um pouco na observação pode visitar o figurae ou o konidomo, aqui no DF também há material. Além disso pode entrar em contato diretamente.

13- Júlio, antes de mais nada gostaria de agradecer a oportunidade de poder dialogar com você, que particularmente é meu amigo. Alguma coisa que não tenha lhe sido perguntado e vc gostaria de acrescentar?

Quem agradeçe sou eu, Peri. E muito. Veja só que privilégio poder particiar dessa seção tão importante, em um dos maiores fóruns de fotografia do Brasil. Melhor ainda quando realizada por você que me deixou bastante à vontade, e fez perguntas extremamente interessantes. Uma honra.

Poderia acrescentar um comentário no seguinte sentido: todas as defesas realizadas aqui são parte integrante de um processo dinâmico e momentâneo. O que apresento são respostas inacabadas que ao menos para mim possuem um forte caráter reflexivo. Sou fruto do que realizo, do que absorvo e do que compartilho, e isso está sempre mudando.

Aquele abraço, muitíssimo obrigado.

Julio Paiva