Em foco: wedge (Rogério Simões)

1- Rogério, nos fale um pouco sobre você; sua atividades, gostos e preferências, etc, para que possamos conhecê-lo um pouco mais.

Se possível inclua uma foto.

Sou paulistano, tenho 43 anos e uma trajetória bastante cigana, morei em São Paulo, São José dos Campos, Santos e há 13 anos moro em Campinas. São Paulo é um lugar onde me sinto em casa, nasci lá e toda minha família é de São Paulo, mas definitivamente não tenho a menor vontade de morar novamente lá. São José dos Campos é onde eu digo que está o meu baú afetivo, pois vivi dos 7 aos 23 anos nesta cidade, ou seja, a parte mais importante na formação de uma pessoa. Santos é onde os meus pais vivem e onde amadureci na fotografia. Campinas é o lugar que o amor me fez chegar, vim pra cá por conta dessa pessoa especial que é a Lygia minha mulher.

Vivo numa casa simples, mas confortável, num bairro bastante agradável, perto de um dos parques mais arborizados da cidade, a Lagoa do Taquaral.

Gosto muito de música, teatro e cinema, aliás, no começo da minha vida como fotógrafo a maioria dos meus amigos eram músicos ou ligados ao teatro.

Estou buscando mais tempo para voltar a fazer alguma atividade física e viajar mais, porém estou envolvido num projeto de compra da casa própria que me obriga a dispensar muito tempo ao trabalho.

Uma explicação sobre o meu nickname, como na maioria das vezes durante os dias de semana eu acesso o BrFoto de terminais na faculdade, adotei um nickname rápido de escrever, esse é Nick é um dos meus sobrenomes em inglês (Cunha = Wedge).

2- Sua atividade principal hoje em dia é ligada à fotografia profissional?

Fotografo desde 1988, profissionalmente desde 1990 e na fotografia publicitária desde 1994, em 2000 comecei a dar aulas em cursos de graduação. Hoje divido meu tempo entre a função docente e a fotografia, porém cada vez mais meu trabalho está migrando para área de consultoria na gestão de marca, onde a fotografia é uma das ferramentas utilizadas, aliada ao design, marketing e administração.

3- Existe alguma forma de você exemplificar com imagens cada uma destas importantes fases de sua vida, fazendo um breve relato de cada uma delas (a de SP, a de S.J. dos Campos, a de Santos e a atual em Campinas)?

São Paulo.

Estas duas fotos abaixo representam a minha primeira lembrança da cidade de São Paulo, uma lembrança que está relacionada a uma ocasião, no inverno de 1972 eu minha família fomos ao centro da cidade para fazer umas compras, uma dessas compras foi este par de luvas, compra feita numa loja da Praça do Patriarca, na verdade meu pai comprou um par de luvas iguais a este para cada um, ele, minha mãe, eu e minha irmã. Estava frio, chovia, a cidade estava cinza e com aquele caos de gente peculiar desta região. Outro dia conversando com minha mãe lhe disse que estava com o par que foi comprado para o meu pai, lhe disse também que me lembrava do lugar e do dia em foi comprado, ela se espantou como eu tinha me lembrado de um fato que tinha acontecido a tanto tempo e quando eu tinha um pouco menos de 4 anos. Toda vez que olho para este par de luvas me lembro daquele dia.

São José dos Campos.

A foto abaixo é de um lugar muito emblemático da cidade, o Banhado visto da Avenida São José, é quase que uma praia para o morador da cidade, muito embora não tenha areia, mar ou água para se banhar, o lugar tem um por do sol incrível.

Santos.

Esta foto é uma das primeiras que fiz logo que me mudei para Santos, é uma metalinguagem, um “espelho” onde o meu reflexo não é nítido e quase virou um espectro na velocidade.

Campinas.

Também é uma das primeiras fotos que fiz em Campinas, e no fundo representa ainda uma fotografia ainda muito influenciada por mestres como Bresson, Koudelka, Kertesz, Salgado e Doisneau entre outros. Logo após isso eu paro de produzir sistematicamente um trabalho autoral.

5- Eu me lembro de ter visto a foto 3 numa postagem sua no BrFoto.
A foto 4 também é de uma estética maravilhosa e me causa uma impressão muito forte, lembrando sem sombra de dúvidas o HCB.

Vendo-as vem 2 perguntas inevitáveis:

5.1- Quais suas influências na fotografia? Os clássicos e, por que não, ‘gente como a gente’ (se for possível indique algumas fotos e o porquê de suas escolhas)?

Muita coisa me influência, não só fotografia, pois eu acredito piamente naquela máxima que diz que fotografamos com toda carga de sentimentos e conhecimentos que temos, portanto, a poesia de Drummond, Manoel de Barros e Wally Salomão, a música de Jobim, Bach e Cole Porter, a pintura de Bosch, Velasquez e Degas, o teatro e o cinema.

Mas falando especificamente em fotografia com certeza os clássicos me influenciaram bastante no começo, e por um motivo óbvio, no começo você precisa encontrar referências, se espelhar em algo, e claro que olhar para o que já está fundamentado é muito mais fácil. Nos últimos tempos o trabalho que mais me impressionou foi o do fotógrafo canadense Gregory Colbert, seu trabalho tem uma beleza plástica impar, um lirismo, uma busca pessoal intensa de um caráter metafísico muito interessante.

Lógico que eu vejo muita coisa ótima feita por desconhecidos, mas depois de mais de 20 anos de fotografia, sem querer parecer pedante, eu não busco mais influências nos trabalhos alheios, eles me emocionam, me impressionam, mas eu procuro dentro de mim os caminhos para desenvolver um trabalho.

Ashes and Snow.

5.2- Dá claramente para perceber a qualidade formal e que o tipo de fotorafia que você faz tem uma marca pessoal; por que você diz que ” Logo após isso eu paro de produzir sistematicamente um trabalho autoral. “?
Existiu algum motivo especial para isto?

Foram questões profissionais e pessoais, eu acredito em trabalhos de longo prazo, minhas exposições individuais são resultado de um longo processo de estudo, 6 anos pelo menos, não podendo realizar dessa forma eu prefiro não fazer.

6- Bem, realmente uma concepção de um trabalho que leve uma média de 6 anos é realmente algo a médio prazo e como o tempo é capital, talvez um prazo deste inviabilize uma processo autoral, principalmente com esta avalanche de informações que mudam a todo momento.
6.1- Não existe um meio termo – digamos 2 anos – em que um processo de natureza autoral possa se aplicar e então você volte a produzir?Já pensou numa hipótese desta ou é algo fora de cogitação?

É possível sim, eu penso que ainda mais agora, quando profissionalmente estou cada vez mais me afastando da fotografia no que tange a produção de imagens comerciais, ficar o dia inteiro envolvido nisso, por mais que seja prazeroso, no meu tempo livre eu quero e preciso fazer outras coisas. Como no próximos anos eu pretendo cada vez mais estar envolvido com as áreas de gestão de marcas e educação, a fotografia vai se tornar para mim uma atividade de lazer, somente de expressão pessoal, aí pretendo retomar as minhas pesquisas de processos históricos de fotografia, o processo de Goma Bicromatada mais específicamente.

6.2- Dentre estas exposições quais as que te deram mais prazer e por quê?

Com certeza a exposição Dignidade, que não foi a primeira, mas que eu considero a 1ª, porque foi a mais pensada e trabalhada, além de ter sido exposta pela 1ª vez num dos melhores espaços expositivos de Santos, a Pinacoteca Benedicto Calixto.
Expor neste local, para um jovem fotógrafo foi muito importante, mas no fundo mesmo o que valeu foi ter visto o resultado final de uma trajetória que me deu muito prazer de ter feito, daí talvez venha este conceito de um tempo longo de produção.

Dignidade 1.

Dignidade 2.

Dignidade 3.

7- É notório sua predileção pela mídia filme e a gente percebe como isto te afeta positivamente.
Você sempre está comentando sobre o formato e dando dicas sobre revelações, características de filmes diversos, abordagens diferenciadas de diferentes modelos de câmeras, lentes e equipamentos, etc.
Fale um pouco sobre esta sua predileção e o que você entende como positivo e negativo nos processos Filme e Digital.

Eu penso que nem é uma predileção, é somente fruto da minha trajetória na fotografia, com certeza investi muito mais recursos (mentais e financeiros) na fotografia analógica, portanto eu tenho muito mais a dizer sobre esta do que sobre a digital, pelo menos nas questões técnicas, porque sobre linguagem o que vale pra uma vale pra a outra.

Eu penso que a fotografia digital tem algumas vantagens bem significativas sobre a analógica, principalmente na fotografia comercial, agilizou e facilitou o processo de produção de imagens, abriu muito o leque de opções criativas, claro que de outro lado tudo isso serviu para banalizar a fotografia, mas pense bem, o que não está banalizado hoje em dia? O tempo é o senhor de tudo, e ele se encarregará de separar o joio do trigo, disso eu não tenho dúvidas.

Apesar de sempre estar apontando as diferenças entre uma e outra, não gosto de compará-las, são experiências muito diferentes, por mais que façamos uma analogia (desculpe o trocadilho) entre o laboratório e o computador como sendo o laboratório da fotografia digital, são coisas muito diferentes. Porém tanto numa quanto noutra o fundamental é o olhar, pois laboratório e computador você aprende ou paga alguém para fazer, já o olhar dá pra treinar, mas se pagar alguém pra fazer você passa para o outro lado do balcão.

Sem saudosismo algum, o processo PB é muito sensacional, ele é muito lúdico, mágico, uma alquimia, e talvez por isso seja muito atraente para as novas gerações que cresceram neste muito digital, convergente, mas muito asséptico e nada lúdico, não é à toa que hoje os departamentos de marketing das empresas não param de falar sobre produtos e serviços que promovam uma experiência para o consumidor, um alimento não basta gerar as sensações básicas (gosto e olfato), as lojas desenvolvem aromas, iluminação, sons e até temperatura para gerar determinadas sensações que façam a passagem do cliente pela loja ser uma experiência prazerosa e única. Então essa coisa de fazer com as próprias mãos, de ver a imagem surgindo na bandeja do revelador é impressionante, como eu disse é mágico, e num mundo tão arrumadinho se sem transcendência alguma que vivemos é se transportar para outro mundo

8- Numa resposta anterior você fala da importância que um fotógrafo “iniciante”, ou em início de trajetória, tem quando são expostas suas fotografias.
8.1- Como você vê hoje em dia esta disponibilidade de espaços para novos fotógrafos?

Eu vejo a coisa bem melhor do que era há 20 anos, tem muito mais gente produzindo, e por mais que quantidade não signifique qualidade, a formação de um público passa pela democratização do meio, mas principalmente a potencialização e sobretudo a inserção de um novo canal de promoção que significa a internet. Depender de meios como o editorial e galerias, que estão nas mãos de poucos e privilegia poucos é muito cruel, a internet abre um mundo, o mundo mesmo para o artista.

8.2- Você acha que existem ou na maior parte das vezes estas exposições, mostras, vernissagens, etc, são parte de um processo no qual quem manda na verdade são os marchants e/ou os “empresários”?

Totalmente, mas nada diferente do que vimos até hoje no mercado de arte em geral, aí é que eu vejo a internet como uma coisa altamente salutar, por mais que a intelligentsia (marchants, agentes, intelectuais, celebridades e o escambau a quatro) ainda sirva para legitimar, na verdade subir o preço da obra, na internet você fura o bloqueio desses atravessadores e chega direto em quem te interessa.

8.3- Como você vê, percebe e entende a formação destes novos “artistas” e que papel fóruns e listas de discussões têm neste processo?

Eu vejo com bons e maus olhos, bons olhos porque o acesso a informação ficou muito mais fácil, está tudo aí na rede, então a curva de aprendizado diminuiu bastante, somando internet com câmera digital é possível aprender fotografia em muito menos tempo, porque a quantidade de informações é maior e a possibilidade de experimentar, de praticar é muito maior também. Maus olhos porque se quando eu comecei muito se falava sobre os vícios que um fotógrafo autodidata tinha, hoje eu vejo distorções maiores ainda, como os fotógrafos equipamentistas, aqueles que creditam ao equipamento todo mérito da boa foto, ou então aqueles que se apegam a modismos derivados de tratamentos específicos em software de edição, esses dois no fundo ficam correndo pra chegarem a lugar algum, um em busca do equipamento definitivo e o outro no tratamento de última hora.

Fóruns e listas tem a sua importância como mais um dos lugares onde se pode obter informações, trocar idéias e eventualmente fazer amizades que podem evoluir para encontros presenciais, mas como qualquer meio de comunicação tem os seus ruídos e há de se saber separar o que é relevante do que não faz diferença.

9- Rogério, nos fale o que é e qual o propósito da Finestra, imagem digital.

A Finestra Imagem Digital é a empresa que eu criei em 2003 para realizar trabalhos não só de fotografia, mas também na área do design 3D, hoje na verdade eu e minha esposa estamos projetando para no máximo 6 meses a criação de uma nova empresa que atuará na gestão de marcas (Branding) focando principalmente pequenas e médias empresas, nesta nova empresa a fotografia será mais uma ferramenta, em conjunto com o design gráfico e o estudo de marketing para efetuar o posicionamento e aumentar o reconhecimento dessas marcas.

10- Olhando seu Flickr vi fotografias muito interessantes e com variados temas e abordagens.

Desde fotografias de pessoas em seus afazeres cotidianos …

Passando por fotografias de paisagens …

Ou até mesmo conceituais …

Seja em cor, pb, em digital ou analógicas.

10.1- Não encontrei em seus álbuns alguma particularidade que pudesse definir como um “estilo Rogério Simões”.Concorda com isto?

Concordo quando falamos especificamente das fotos que tenho no Flickr, desde o começo minha proposta em relação ao Flickr foi não ter nada pré-determinado, minha proposta era ter um caderno de recortes, imagens do passado, da vida caseira, cor , PB, filme e digital, daí vem essa sensação de falta de estilo, mas também muito pelo que já disse anteriormente, no momento não estou produzindo um trabalho autoral de forma consistente, são excertos do meu dia a dia somente.

10.2- Você acha que o fotógrafo deve ter um estilo pré-concebido ou esta nossa mania de querer rotular tudo não passa de uma enorme bobagem?

O estilo pessoal é uma coisa inerente a quem cria, mas principalmente aos criadores que produzem de forma consistente e investem seu pensamento nesta produção. A questão de rotular tem dois lados, um que é prático no sentido de delimitar, tornar mais fácil o reconhecimento, a separação das coisas, mas tem outro lado negativo que funciona de maneira indutiva sendo uma armadilha a àqueles que têm preguiça de pensar, o cara olha primeiro a legenda pra ver quem foi que fez, aí ele emite uma opinião. Eu brinco com meus alunos que a academia é uma fábrica de dar nomes a caixinhas, mas isso não quer dizer que estas caixinhas só contenham o que está escrito nas etiquetas, portanto vasculhe-as.

10.3- Falando especificamente sobre a identidade fotográfica que construímos desde o período inicial até a possível consolidação de uma linguagem fotográfica plena – (e aqui eu abro um parênteses para dizer
que eu particularmente acredito que todos nós temos, sim, uma linguagem própria que aparece com este desenvolvimento) – e levandopara o lado prático da coisa.
E também fazendo uma brincadeira … o que você acha que aconteceria com o Bresson se ele postasse uma foto hoje em dia em um fórum e esta imagem tivesse de ser apreciada sem que se soubesse o autor? – risos

Exercício de adivinhação é uma brincadeira perigosa(risos), mas não negarei fogo.

Muita gente iria gostar, ressaltando as qualidades da composição, enquadramento, etc. Muitos não gostariam, diriam que é uma imagem fria, sem emoção, alguém encontraria um problema como horizonte torto, outros perguntariam sobre a conversão para o PB ou sobre o equipamento usado.

Eu gosto do trabalho do Bresson, mas não porque é do Bresson, gosto por uma série de aspectos, mas também não acho que as pessoas devem gostar só porque é do Bresson e porque o trabalho dele é super reconhecido, em arte eu acredito fundamentalmente na emoção, se não me emociona eu não gosto e pronto, eu por exemplo não gosto do trabalho do Helmut Newton, para mim seu trabalho é sem graça.

11- Rogério, depois de todos estes anos fotografando e vivendo esta maravilhosa experiência que a fotografia nos promove, quais as melhores fotos que você acredita ter feito?E por quê você as considera as melhores?

Vou listar esta foto porque foi a 1ª foto que fiz de maneira pensada, eu olhei a paisagem, gostei do que vi, pedi a câmera para meu pai, compus a cena no visor e fiz a foto, eu tinha uns 13 anos, mas me lembro muito bem, foi numa viagem que eu minha família fizemos a Goiás. Eu gostava de desenhar, então acredito que intuitivamente busquei esta composição que privilegia a diagonal.

Esta paisagem dos barcos que está na pergunta anterior é uma das minhas preferidas, ela tem uma composição em 3 planos que vai do menor para o maior, essa água crespa e brilhante refletindo o céu outonal, que no litoral é maravilhoso. O que também me proporciona grande satisfação nesta imagem é que ela foi uma das primeiras onde empreguei os conceitos do Sistema Zonas, ou seja, pré-visualizei, expus, revelei o filme, fiz a cópia e cheguei ao resultado que construí mentalmente na pré-visualização.

Aqui eu deixo um espaço para a próxima grande foto que farei, no sentido de sempre estar buscando o melhor, não ficar preso as glórias do passado, um olhar pra frente, para o por vir.

… em produção; autor: Rogério Simões.

12- Você fala de seus estudos joviais e experiência no desenho …

12.1- Um outro colega que temos, o Ivan, sempre cita também sua experiência neste campo.
Como você acha que estes seus estudos contribuíram para sua formação no campo da fotografia?

O desenho te auxilia principalmente na composição, visto que com o desenho você tem a oportunidade de aprender a compor, incluir o estritamente necessário para que a cena seja harmoniosa. Alguém que não me lembro o nome disse que a Fotografia é o inverso da Escultura, porque numa escultura você parte de um bloco e vai retirando coisas para chegar a uma forma, já na fotografia você vai incluindo coisas para chegar a uma forma.

No desenho de observação você aprende a reparar em todos os detalhes, formas, luzes e sombras.

12.2- Você acha que existe um caminho pré-concebido para que um iniciante se transforme em um bom fotógrafo, quem sabe um “mito”?Existe um conselho a se dar neste sentido?

Não existe mesmo, não há receita de bolo, alguém mais experiente pode indicar caminhos, atalhos, mas como tudo na vida você deve ter sensibilidade para adaptar, mas principalmente questionar. Você fica mais velho e vai tendo uma tendência a tentar facilitar o caminho dos mais jovens, isso por pura vaidade de dizer que sabe mais porque já passou por isso, o aprendizado não é uma via de mão única, para mim ele deve ser uma troca, é preciso estar aberto para ouvir, é lógico que algumas coisas são inquestionáveis, querer mudá-las é tentar reinventar a roda, mas eu acredito que as pessoas devem quebrar a cabeça sozinhas.

12.3- Ainda pensando nesta questão de formação individual fotográfico, onde entra o talento e onde entra o esforço?Que proporções você acha que estes 2 aspectos tem no mundo real da fotografia?

Eu acredito no talento sim, existe isso, as pessoas nascem com uma bossa para determinadas coisas, porém só o talento não basta, em qualquer atividade que se faça as coisas não surgem do nada, até porque o talento é um tremendo motivador, existe coisa mais motivante do que você começar a fazer algo e perceber que se tem jeito pra coisa, isso gera prazer, então você vai praticando e praticando com gosto, e da prática vem a evolução, até um ponto que as coisas se confundem e não dá mais pra saber até onde vai o talento e o esforço. Existe o outro lado? Também existem pessoas que se sentem desafiadas por algo que não conseguem fazer a contento, e se esforçam de tal maneira que atingem um ótimo nível de produção.

Isso só vem a corroborar com o que eu disse anteriormente, não há receita de bolo, estamos falando do ser humano, a contradição que anda em duas pernas. E além do mais, se eu soubesse em números exatos quais as proporções de talento e esforço que fazem um grande fotógrafo, provavelmente estaria em alguma ilha do Pacífico Sul curtindo a vida descalço, sem camisa e de bermuda (risos).

É lógico que algumas coisas são inquestionáveis.Rogério Simões.

13- Como o que por exemplo?

Tentar simplificar o que é naturalmente complexo e vice-versa, as relações humanas são complexas, você tem que vivê-las com intensidade, mas falando especificamente em fotografia, não dá pra queimar etapas, a não ser que você seja um gênio, dominar uma linguagem exige tempo, você precisa praticá-la, portanto a propaganda enganosa de que um equipamento ou programa resolverá todos os seus problemas é pura bobagem, o fotógrafo é quem faz a foto, ele decide o momento de apertar o botão e o que incluir na imagem, o equipamento só é decisivo em condições extremas, específicas, se o fotógrafo conhece a linguagem e as limitações do equipamento, saberá decidir para obter a melhor imagem possível.

14- Rogério, como é sair de uma condição de entusiasta/amador avançado/hobbista/etc para uma condição em que a fotografia se torna a principal fonte de renda?

É sensacional, existe coisa melhor do que trabalhar com o que você gosta, a maior parte das pessoas trabalha com o que não gosta só para garantir uma vida confortável. Eu me divirto e ainda me pagam por isso.

14.1- Acaba o tesão?

Diminui o entusiasmo, como em qualquer relação a paixão se transforma em amor maduro, quem já é maduro e está casado há bastante tempo sabe do que estou falando, pelo menos quem está bem casado. Se acabar o tesão você tem que procurar outra coisa pra fazer.

15- Quais ensaios fotográficos feitos a trabalho te deram mais prazer?E quais você sabe que foram bem feitos mas, intimamente, você entendeu ou que poderiam ser melhores, ou que de fato o potencial do assunto não foi totalmente explorado (seja por você mesmo ou porque o direcionamento do cliente atrapalhou)?

Um dos trabalhos mais legais que fiz foi a documentação das obras de construção de uma casa, na 1ª fase fotografei a demolição de uma antiga construção que havia no local, esta parte foi toda feita em PB com MF, entregamos uma caixa portfólio com cópias PBs em papel fibra com passepartout, na 2ª fase mesclei fotos PB e Cor, foi um trabalho que durou 2 anos, feito com muito cuidado e extrema liberdade.

Há um ano fiz umas fotos de alianças que me deram um trabalho danado no tratamento, tudo porque o cliente não quis me enviar as peças reais, me mandou amostras de bronze banhadas a ouro, poderia ter ficado muito melhor. Fiz este trabalho para a agência de um aluno, eu discuti bastante este assunto com ele, não por acaso nunca mais ele me contactou para fazer algum trabalho.

16- O sistema digital popularizou a fotografia e massificou a mídia … parece que vemos surgir no cenário uma nova mania que são estes gadgets e aplicativos para celulares que instigam a população ao ato fotográfico, além das compactas (parece que todo mundo tem uma hoje em dia).
16.1- O que você pensa a respeito de aplicativos como o Instagram e de movimentos como a Lomografia e afins?

São modismos e por isso tendem a desaparecer, estão intrinsecamente ligados a tecnologia, no caso da Lomo a baixa tecnologia, que os permite existir, no caso específico de Instagram vai desaparecer mesmo, porque aparelhos celulares são feitos para durar pouco mais de um ano, e já já criarão outro aplicativo e a febre desaparece, se ao menos servir para instigar algumas pessoas a praticarem a fotografia de maneira mais profícua, terá servido pra algo pelo menos.

16.2- É possível construir uma linguagem, ou a popularização da fotografia pôs tudo num balaio e nivelou por baixo?

Nos anos 90 um colega fez uma palestra sobre uma exposição de retratos do Robert Doisneau, em dado momento ele disse que o “Minilab tinha popularizado a fotografia, mas não a linguagem fotográfica”. Sinceramente eu penso que temos de parar de ficar com essa história de querer que todo mundo tenha consciência sobre o ato fotográfico, a maioria das pessoas quer fotografar para “eternizar” um momento, um lugar, uma pessoa, um animal de estimação e é só isso mesmo, quem tem que ter consciência sobre isso são os fotógrafos, pensadores e quem assim desejar, vamos pegar a música que é um exemplo bem fácil de entender, a música de massas que se faz no Brasil hoje em dia é muito ruim, de uma obviedade extrema nas letras e melodias, mas num dia desses peguei um ônibus e estava tocando uma música com aquela clássica história do cara que deixou a família no interior e veio morar na cidade grande, letra e melodia óbvias, e uma história que não me toca, mas eu tive um insight e compreendi a força que aquela música tinha para um cara, como muitos neste país, que viveu aquela mesma história, então é muita babaquice querer que tudo tenha esse viés intelectual, vai ter para quem buscou isso, para quem não buscou vai na base da emoção e estamos conversados, tem gente que pensa e tem gente que simplesmente vive.

17- Estabelecendo uma cronologia de modo superficial, temos:
Chapas, MF, filmes pb, filme cor, sistema digital de 0,3 MP e hoje em dia de 24 MP …
O avanço da fotografia é rápido e em um curto período de tempo saímos da pré-história para o mundo atual.
17.1- Consegue visualizar onde isto vai parar?O que vem por aí?

Foram mais ou menos 150 anos num sistema que sofreu quase nenhuma modificação significativa em sua essência, e uma linguagem construída ao longo de 40.000 anos de história, aí vem o digital que é uma coisa totalmente diferente do ponto de vista técnico, então a piração maior para mim está no fato que tínhamos tecnologia e linguagem fundamentadas, quebramos o paradigma tecnológico, mas continuamos com o background da linguagem, estamos tentando juntar uma tecnologia que está no começo de sua história com uma linguagem que tem cânones já bem estruturados. Tudo isso num panorama histórico de uma velocidade absurda, em uma década deste século vivemos revoluções comparáveis a quase todo o século 19. O que vem por aí eu não sei, mas tem muita gente agora mesmo pesquisando para construir esse futuro.

Voltando ao assunto dos aplicativos como Instagram, ele é um puro reflexo do nosso tempo, ele reflete a velocidade que foi impressa as nossas vidas, o Instagram existe porque as pessoas querem fotografar, mas não querem esperar para chegar em casa, ligar o computador, descarregar e tratar a imagem, elas querem fotografar e enviar automaticamente para alguma mídia social. Portanto a velocidade que Felippo Marinetti pregava no seu manifesto Futurista de 1910 não passa de uma carroça se comparada a velocidade das coisas hoje em dia

18- Ao mundo e/ou a nós como seres-humanos emocionais, qual o legado da fotografia?

Se você pensar que a grande parte das pessoas vivas e que estão vivendo no meio urbano, já nasceram num mundo onde a cultura da fotografia estava bem arraigada e que ela permeia todas as mídias existentes, eu penso que ela instaura um olhar que é diferente e quem não é fotógrafo(amador ou profissional) e não pensa sobre não se dá conta disso, mas tem seu olhar completamente influenciado por ela. Para mim o legado da fotografia é imenso e é um dos elementos que molda nossa sociedade, para o bem e para o mal, desde as imagens denunciativas de violências e tragédias até a evasão de publicidade produzida pelo binômio paparazzi/celebridades.
A fotografia nunca deve ser analisada como um documento ipsis literis de uma época, mas como um documento da forma como se pensava e como determinada época queria ser retrada, quer seja pelo olhar crítico, quer seja pelo olhar hedonista, ou seja, não atribua a fotografia um tom de realidade que nada tem, afinal de co ntas como diz um ditado indiano:

“Tudo é maya.” – (maya = ilusão).

Rogério,

Foi uma das entrevistas mais bacanas que eu fiz.
Primeiro pela sua inteligência, algo que eu sempre percebi em seus comentários e participações no BrFoto e acabei de confirmar neste bate-papo tão agradável; poder explorar isto é admirável e bem prazeroso.
Segundo pela sua cultura e por você discorrer tão bem em assuntos tão variados, tronando a entrevista dinâmica sem ser sacal.

Acho que nós fechamos um ciclo quando percorremos caminhos tão diversos e tão pulverizados de forma tão elegante.
Queria te agradecer pela oportunidade e pela paciência em responder as perguntas, muito obrigado mesmo.

19- Gostaria de acrescentar algo que ache que não ficou bem esclarecido ou alguma pergunta que não tenha sido feita e você queira falar?

Fique à vontade.

Eu quero acrescentar que para mim a qualidade mais importante para quem deseja se tornar um fotógrafo é a curiosidade, ter uma chama que o impulsione em direção ao conhecimento, tudo mais será consequência disso.

A você Peri uma sincera felicitação, pois foi muito prazeiroso ter respondido as suas perguntas, fico muito envaidecido pelos seu elogios, mas sem boas perguntas não há entrevista boa, é como no teatro onde se o texto não for bom, nem o grande ator resolve. Você soube encadear temas muito interessantes e que fogem do específico da fotografia, mas ao mesmo tempo tb falam a fotografia, porque são coisas da vida, e no meu caso vida e fotografia se confundem e não saberia dizeraté que ponto vai uma ou outro.

Ganhei um amigo na internet
Abraços.

Anúncios

2 comentários sobre “Em foco: wedge (Rogério Simões)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s