Em foco: Rostev – Rodrigo Teófilo.

1- Fale um pouco de você e de sua atividade enquanto fotógrafo. Poste uma foto sua para que possamos conhecê-lo melhor.

Sou natural de Cruzeiro/SP, cidade onde moro até os dias atuais.
Me formei em Administração de Empresas e estou cursando atualmente a faculdade de História. Devido atuar na área jornalística desde 1994, consegui um registro no Ministério do Trabalho para trabalhar como jornalista. Exerço minhas atividades profissionais no Jornal Regional, semanário que circula em 16 cidades do Vale do Paraíba paulista e 30 cidades do Sul de Minas Gerais. Sou responsável pela editoria fotográfica e artes digitais.
Apesar da fotografia estar diretamente ligada ao meu trabalho, acabou entrando em minha vida como um hobby, impulsionado principalmente pela minha avó paterna, Marilha Pereira da Silva, responsável por tradição de todas as fotos da família.
Quando garoto minha avó me presenteou com uma belíssima Olympus Trip35, ao qual considero uma das grandes ferramentas fotográficas do meu iniciar nesta área e desde então não parei mais, principalmente quando adentrei ao universo digital, me beneficiando com a redução no custeio das imagens que fazia.

2- Como se define:
– fotografo profissional,
– profissional amador,
– amador profissional.
E por quê?

Não costumo me preocupar com esses rótulos, porque para mim o que separa o profissional do amador é o simples fato do primeiro ganhar a vida com a fotografia e o segundo fazer a coisa por pura paixão. Neste universo fotográfico cansei de ver amadores dando show de competência em muitos que se dizem profissionais, inclusive naqueles que possuem uma larga escala de bons trabalhos apresentados.
Mas já que é para tentar me definir, atualmente me vejo como um amador profissional, justamente porque o amor pela fotografia é maior do que a minha ânsia de ganhar dinheiro com ela.
A fotografia sempre esteve ligada a minha pessoa, só que nunca consegui viver somente dela e adianto que não fiz questão que isso acontecesse. Sou uma pessoa que leva tudo que faz com muito amor e intensidade e, sempre que sinto a obrigação ficar mais forte do que a paixão começo a perder interesse pelo assunto. Para mim isso é fato.
Vez ou outra faço trabalhos profissionais como fotógrafo, atuando nas mais diferentes áreas (social, documental, conceitual e institucional), mas sempre pela vontade maior de estar me reciclando e tentando ganhar “algum” que colabore com meus próprios investimentos na área.

3- O que te dá prazer em fotografar?

Gosto de me definir como um cara que ainda busca se definir. rs.
Parece estranho, mas é exatamente como me vejo na fotografia. Estou sempre testando e buscando assuntos diferenciados e que de alguma forma me force a conseguir ângulos, perspectivas e olhares novos, mesmo que seja de um assunto que tantas vezes já fotografei.
Claro que possuo as minhas predileções, mas em geral tenho o mesmo prazer em fotografar macro, como eventos sociais e imagens institucionais. O momento de captura das imagens é uma terapia que me faz bem. Gosto de ficar pensando na cena, levando vários minutos para concebê-la, pois acredito que a foto já deva estar pronta na sua mente antes de você transformá-la no quadro finalizado. Acredito que essa forma de concepção tenha vindo da minha experiência com filmes, já que a quantidade de frames é limitada em relação ao sistema digital que usamos atualmente.
Em contrapartida é extremamente válido o feeling e o momento, onde não dá para ficar pensando como gostaríamos que a foto ficasse, sob pena de perder aquilo que realmente interessa, parafraseando o “instante decisivo” que o mestre Bresson tanto propagou.
A minha frustração na fotografia fica por conta de retratos, books e ensaios relacionados a estúdio e externas. Se bem que não sei se posso colocar como frustração, porque ainda procurei mergulhar de cabeça neste universo. Apesar de considerar lindos os trabalhos, não consigo gerar imagens nesta área que possa dizer com certeza que me agradem.

4-Quais suas influências na fotografia, e o por quê?

Existem fotógrafos que gosto muito e em cima dos trabalhos que vejo deles, espero um dia poder captar 1% daquilo que conseguem transmitir. Sei que é chover no molhado, mas sou um verdadeiro apaixonado pelas fotografias de Henry Cartier-Bresson. Sempre me vejo maravilhado ao admirar o seu olhar, a forma como capturava as cenas e o cotidiano popular. Sem falar da limitação que ele possuía, por conta de usar uma lente fixa, fotografar em preto e branco e com uma câmera que nem fotômetro tinha. Era muito feeling e técnica para pouco equipamento (mesmo usando Leica com lente de boa ótica, existia a limitação tecnológica da época).
Buscando algo mais contemporâneo, o gostoso desse mundo plugado de hoje é que podemos conhecer o trabalho de grandes fotógrafos que antigamente ficariam a margem do esquecimento por não terem o devido reconhecimento na mídia especializada. Algumas destas pessoas norteiam bastante o meu universo e sempre dedico um tanto da minha atenção ao trabalho que eles desenvolvem, servindo de grande inspiração para mim. Sei que estarei cometendo grandes injustiças, porque a minha lista de fotógrafos preferidos é enorme, mas gostaria de citar alguns deles:

Alberto Nogueira Júnior – pela beleza estética e bem expressa nas suas fotos. Composições muito bem estudadas (dá para sentir o quanto ele pensa para fazer), ao mesmo tempo com ótimos momentos que consegue capturar, sobretudo nos trotes de cavalos.

Juca Filho e Janine Bergmann – Essas grandes figuras possuem um olhar muito apurado do nosso cotidiano. Suas fotos são carregadas de conceitos e idéias que nos levam a pensar sobre aquilo que estão mostrando. A meu ver é impossível passar indiferente pelas suas imagens. Extremamente favoritos.

Fabíola Medeiros – Para mim é uma inspiração quando se fala em retratar pessoas. Seja em fotografias externas ou estúdio, Fabíola é detentora de muita criatividade e apuração. Suas fotos além de explodirem qualidade, nos deixa curiosos pela forma como foram concebidas. Conceito, técnica e muito feeling são aquilo que consigo sentir do seu trabalho.

Alexandre Grand – Esse cara é sem dúvidas um dos mais descolados na área que conheço. Quando se quer ver imagens impactantes, artísticas e com uma dramaturgia bastante puxada, é impossível não perambular pelas galerias do mestre Alê. O que mais me impressiona em seus retratos é a cara de pau dele em fazer qualquer foto que lhe dê na telha. Ele tem cara, coragem e peito para assumir qualquer desafio e quem duvida disso, só passar em seu flickr.

Paulo Magoo (digital / película) – De todos, acho que é o que mais se assemelha ao meu modo de fotografar, pois é do tipo “venha qualquer coisa que nós traçamos” rsrs… Seja fotografando perspectivas, luzes, arquiteturas, cotidiano; ele sempre consegue aliar ótimas técnicas ao seu feeling da mais pura paixão pelo exercício da fotografia. Outro fator interessante é o fato de usar tanto o digital quanto o analógico (assim como eu) e mesmo assim consegue se garantir em ambos os padrões.

5-Duas fotos suas que te deixam de queixo caído (esquece a modéstia), e qual a razão da força dessa foto?

Essa imagem me agrada pelo momento. Foi bem ao estilo “momento decisivo”. Estava na praça central de Angra dos Reis fotografando com a minha esposa. Tínhamos sentado para descansar um pouco e eu estava com a 70-300 encaixada na câmera. Tomando uma água e observando o movimento, enquanto seguíamos conversando. Ao olhar para o lado vi a mãe conversando com o garoto de forma bastante séria. Parecia que ele estava sendo repreendido e como ele parecia estar distante da conversa, me deu uma encarada rápida. Foi o tempo de empunhar a câmera e fazer o disparo. A forma como registrei a cena, mantendo a privacidade do garoto me agradou muito, porque nesta imagem é um tanto difícil dizer quem ele é, por ter um de seus olhos quase fora de quadro e o restante do seu rosto tampado pela mãe a sua frente. Joguei num tratamento sépia, com um pouco de granulação e ficou desde então uma das minhas preferidas no set.

Essa foto é a da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, de São João Del Rey/MG. Busquei retratar a igrejinha de um ângulo que trouxesse imponência e ao mesmo tempo elegância, já que ela é bem pequena e fica em uma colina bem interessante no centro da cidade. Tive que deitar na escadaria para conseguir o efeito pretendido e às vezes fico pensando que ela poderia ser uma montagem, dado ao destaque que acabou recebendo na composição. Busquei equilibrar os elementos presentes na cena de forma que eles não competissem entre si e a meu ver consegui o resultado pretendido. Ela foi feita originalmente em cores, mas já tinha a idéia de transformá-la em PB.

6-Duas fotos suas que deixam a galera em geral de queixo caído (esquece a modéstia), e qual a razão da força dessa foto?

Para mim essa não faz parte das melhores que já tive a oportunidade de fazer, mas por incrível que pareça é a minha fotografia mais popular na internet. Inclusive foi com ela que ganhei o prêmio público do Festimage (Festival Internacional da Imagem da cidade de Chaves, em Portugal) em 2007. Acredito que o apelo ecológico que ela traz deva falar alto, por conta de uma vistosa árvore ao lado de outra seca, praticamente morta. O interessante desta imagem é que foi feita com uma camerazinha compacta (Casio Z750) da janela do apartamento de um amigo meu no bairro Aquarius, em São José dos Campos. Levo comigo como exemplo de que equipamento não é quem garante uma boa foto.

Essa foto é bastante popular no meu photostream (conta até agora com 163 comentários e 104 favoritos) e apesar de não ser uma pessoa religiosa, tenho bastante orgulho de tê-la feito. Acredito que as pessoas sejam motivadas pela fé ao interpretarem a idéia desta foto, além é claro da técnica usada para a captura das luzes que inundavam a capela das velas, na Basílica de Aparecida. Tem ainda a projeção no chão e como os contrastes são bem definidos, o PB carrega muito mais a idéia de impacto do que se estivesse em cores.

7-Duas fotos de terceiros que te derrubam o queixo, e qual a razão da força dessa foto?

Essa pergunta faz parte daquelas que acabamos fazendo injustiça diante de tantos trabalhos interessantes e super bem elaborados ao qual gostaríamos de mostrar (sobretudo lembrar para trazer para cá). rsrs.
Deixando de fora imagens dos colegas já citados, trago duas fotos que gostei bastante:

Parece uma foto simples de ser realizada, mas para quem gosta e tem uma boa noção sobre enquadramentos, sabe que é necessário uma boa olhada para conseguir algo interessante. Primeiro essa imagem me remete a um futuro high tech, como se o homem chegasse num patamar ainda mais evoluído para viagens interplanetárias e novas conquistas. Segundo que o indivíduo posicionado ao centro da imagem, me assusta. Parece um senhor soberano, sempre observando o que os seus comandados estão fazendo. Esta foto me remete ao livro “1984” de George Orwell, que retrata o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo no ano homônimo, sob a ótica do grande “big brother”, a quem tudo vê, ouve e repreende. Esse livro serviu inclusive de inspiração para o reality show BBB da Rede Globo.
Voltando a foto, adoro a simetria, as luzes e os reflexos muito bem explorados. Uma belíssima imagem da colega Cláudia Castro.

Essa foto da Solange Moreira me agrada pelo momento totalmente inusitado. É com certeza uma daquelas que se você não for rápido no gatilho, deixa passar batido num piscar de olhos. As cores bastante puxada, bem como a distorção da cena fora de foco ficou bastante impactante. E o momento em si foi muito feliz, como se o novilho fosse dar uma bela lambida na lente. Talvez o momento tivesse mais para assustar do que se registrar e a fotógrafa conseguiu isso muito bem. A área de foco super bem definida no nariz e a língua num desfoque bacana, ainda garantiram uma leve idéia de movimento.

8-Qual seu equipamento, e por que esse equipamento?

Já fui um cara muito ligado a equipamentos. Daqueles que viviam trocando de câmeras, comprando e vendendo lentes, além de outros acessórios, querendo sempre estar atualizado. Faz mais de dois anos que não troco de câmera, pois acredito que para as fotografias que tenho realizado, estou muito bem equipado. Aprendi durante os últimos anos que só devemos trocar de equipamento quando aquele que possuímos deixa de nos satisfazer. Tenho deixado a necessidade guiar os meus investimentos e não mais aquela ânsia em estar atualizado pela pura obrigação de acompanhar o mercado.
Atualmente possuo um set bastante simples e de certa forma um tanto defasado frente as novidades à disposição no mercado. Estou com uma Nikon D200 e uma D50, dois flashes (SB800 e SB600) além de algumas lentes mais modestas ainda, como as Nikkor 18-70mm, 18-105VR e 50mm f1.8. Tenho duas Sigmas 70-300mm APO Macro e o meu xodozinho, que é a 10-20mm.
Possuo ainda uma Nikon FM (35mm), com uma lente fixa Pré-AI 24mm f2.8, que de vez em quando carrego para brincar com alguns filmes diferentes e difíceis de se achar por aqui e que ainda mantenho guardados na geladeira.

9-Como o equipamento que você usa influi no tipo de foto que você faz?

Em geral, sou fascinado por perspectivas, distorções e angulações diferenciadas. Sou do tipo que gosta de ver grande (enquadrar muita coisa)… Tenho uma predileção enorme por lentes grande angulares/fisheye em relação as zooms.

Seguindo essa temática é muito difícil conseguir tais resultados sem o equipamento certo que consiga entregar aquilo que você pensou para a sua imagem (o pensar a foto deve vir antes). É por isso que atualmente tenho mantido minha lente grande angular o maior tempo na câmera. Jamais conseguiria esse tipo de fotografia utilizando lentes que não fossem específicas e nesse ínterim é necessária uma câmera que possibilite esses manejos. Mas vale ressaltar a velha idéia de que a câmera não faz o fotógrafo, mas sim o seu olhar apurado e sensibilidade necessária para captar o belo. Tenho comigo que fotografia boa pode ser feita tanto em uma câmera ultra-mega profissional, quanto em uma consumer, assim como fotografia ruim também pode vir da mesma relação. Tanto que possuo no meu blog uma série de artigos que fiz para tentar ajudar quem está começando nessa área, sempre focado na necessidade que você terá para escolher o seu equipamento:

http://blog.rostev.com/2010/03/escolhendo-camera-parte-i.html
http://blog.rostev.com/2010/04/escolhendo-camera-parte-ii.html
http://blog.rostev.com/2010/05/escolhendo-camera-parte-iii.html

10- Qual a importância da edição para suas fotos?

Faço parte do time que considera a fotografia um produto final e o que você faz para torná-la melhor faz parte do processo de concepção da mesma. Não tenho absolutamente nada contra puristas que consideram um absurdo a edição de fotos, mas para mim isso não funciona. O processo de edição é algo tão velho como a própria fotografia, afinal de contas a câmera é um meio de captação da cena e o seu resultado nunca é 100% fiel aquilo que estamos vendo a olho nu. Então, se a fotografia é uma interpretação de uma realidade impressa por equipamentos, porque não aplicarmos também o nosso toque pessoal no pós câmera?
Sou favorável a edição e assumo que praticamente 100% das minhas fotografias colocadas na internet passaram por algum processo de ajuste, sobretudo para adequação ao meu gosto. Quem acompanha os meus trabalhos sabem que adoro saturação e contrastes puxados e aquilo que consigo direto da câmera (mesmo afinando suas configurações) não chegam perto do que gosto de ver impresso nas fotos. É justamente ai que faço as minhas edições. Sem falar o fato de passá-las por processos artísticos como tilt-shift, cut-out, solarização, x-process (muito realizado inclusive na época das películas) high-key, low-key, etc…
Quando quero fotografias em preto e branco, jamais as faço direto na câmera, apesar de conceber várias delas pensando neste tipo de apresentação. Todas as minhas fotos PB foram convertidas através de processos de edição. E olha que dou uma importância ímpar para este tipo de fotografia, porque na minha concepção, quando bem apresentadas garantem um impacto bem mais forte que as coloridas.

Em compensação existe para mim um antagonismo neste assunto. Há alguns tipos de edições que não me permito fazer como por certo capricho, como por exemplo, realizar cortes abruptos na foto além de ficar inserindo e retirando elementos presentes na composição, até porque para mim isso deixa de ser edição e passa a ser manipulação.
Nas fotografias 35mm também não me permito transformar em preto e branco imagens que foram feitas em filmes coloridos, até porque se eu quisesse-as em PB, teria utilizado um filme próprio, sobretudo porque os resultados das películas PBs são muitas vezes imbatíveis, ainda mais quando falamos em boa latitude. TriX 400 puxado para 1600:

11- Sabemos que idealmente sensibilidade e técnica devem andar juntas, mas como é complicado alcançar o ideal sempre se tende mais para um lado ou para o outro. Então: o que é mais forte em sua fotografia: sensibilidade ou técnica?

Essa é uma verdade quase absoluta na fotografia. Perfeito seria conseguir esse equilíbrio e infelizmente pouquíssimas pessoas conseguem atingi-lo na maior parte dos seus trabalhos, ao qual não acredito fazer parte. Mas também devemos pensar que esses parâmetros são muito interpretativos. Inclusive o bacana da fotografia e o que a faz ser uma forma de expressão artística é justamente o fato de podermos interpretar aquilo que estamos visualizando. O que é algo extremamente sensível para uma pessoa, acaba passando despercebido para outras e isso é muito normal.
Acredito que em algumas fotografias consigo fazer a técnica sobressair. Em outras a sensibilidade e em alguns outros tantos eu simplesmente acabei fazendo registros sem quaisquer compromissos, porque apesar de ser salutar buscar aquele “algo mais que chame atenção”, às vezes queremos apenas garantir um registro sem se preocupar em agradar os espectadores. Claro que o fazer fotos é uma ação social que existe para que outros apreciem, pois do contrário ninguém manteria portfólios online. Se você traz a público é porque quer mostrar e logicamente poderá ter suas fotos julgadas por isso. Costumo me relacionar bem com esse fato e assumo que algumas delas só agradam mesmo a mim e nem sempre pela técnica ou sensibilidade.
Para não passar direto sem julgar o meu trabalho, acredito que esteja inclinado mais para a técnica.

12- Vais em busca da foto ou a foto te encontra no meio do caminho?

As duas coisas… Por sinal, alguém responde diferente disso? rsrs.
Claro que o interessante é você buscar a fotografia, afinal você é quem sabe a imagem que quer fazer. Contrário a isso é deixar com que comandem o seu olhar, o que não colabora em nada para o seu próprio engrandecimento.
Mas qual fotógrafo não esteve na hora certa, no lugar certo e com a câmera em mãos (melhor ainda quando já bem ajustada)?
Comigo já aconteceu e obviamente não perdi a oportunidade de fazer a foto. Cito por sinal essa imagem abaixo que acabei registrando por conta da oportunidade:

Ela é tanto velhinha (feita em 2006). Estava fotografando o fim de tarde da sacada do meu apartamento, quando de repente apareceu um beija-flor na minha frente. A câmera já estava toda regulada e precisei somente ajustar o enquadramento e realizar a captura. Resultado: acabou sendo uma das fotos mais populares no meu flickr. Já aconteceu algumas dezenas de vezes isso comigo, mas em geral eu é que corro atrás da fotografia que quero fazer.

13-Gosta de ser fotografado? Ou em casa de ferreiro o espeto é de pau?

Olha, teve uma época que eu detestava ser fotografado. Há algum tempo não tenho mais problemas com isso. Até porque faço parte de alguns grupos de fotografias, dentre eles o Vale Foto Clube e mensalmente realizamos passeios fotográficos em cidades da nossa região e nessas movimentações todas é impossível você não virar alvo das lentes. Encaro isso com bastante naturalidade, apesar de achar que não sou um belo exemplo daquilo que se queira fotografar. ehehehe…

Gosto de ficar pensando na cena, levando vários minutos para concebê-la, pois acredito que a foto já deva estar pronta na sua mente antes de você transformá-la no quadro finalizado. Acredito que essa forma de concepção tenha vindo da minha experiência com filmes, já que a quantidade de frames é limitada em relação ao sistema digital que usamos atualmente. – Rostev

Rodrigo, sei do seu envolvimento com a fotografia em filme.
Inclusive você é, junto com o Magoo, um dos mais ativos na área 35mm aqui do DF, tocando o espaço de forma bem regular e trazendo ainda novos usuários a descobrirem o prazer do filme, como o Gabriel e o Montoia, por exemplo.

14- E aí lhe pergunto: filme ou digital? Por quê?

Primeiramente obrigado pelas simpáticas palavras. A fotografia analógica é uma paixão que não consigo me desvencilhar, mesmo com toda as vantagens e constante melhora do sistema digital. Na realidade sou adepto dos dois formatos, mas o “conceber clássico” da fotografia de película ainda me cativa muito. Como já havia mencionado, o meu pensar fotográfico foi lapidado em cima deste formato e como boa escola, trago esse padrão para as minhas atuações no digital.
Existe todo um romantismo em fotografar com filme, pois os resultados são bastante diferenciados de acordo com a película que se está usando. A fotografia analógica ao meu ver cobra mais do nosso conhecimento, porque exige que você conheça características dos filmes para ser implementado de acordo com a utilização. Cores, saturações, latitudes, velocidades, granulações, compensações de exposição/revelação, entre outros fatores são determinantes para garantir uma boa foto.
No digital é tudo muito mais fácil… Você determina sensibilidades diferentes para cada tipo de foto. Te da oportunidade de ver os resultados na hora e no analógico não. Você precisa saber o que vai fotografar e usar o filme certo. Sem falar naquela expectativa toda de esperar o filme ser revelado. As surpresas são muito maiores, assim como as decepções (uma eterna faca de dois gumes). Enfim, a fotografia analógica me ajuda a buscar um conhecimento maior, ao mesmo tempo que me obriga a ser certeiro em um ou dois shots, afinal não dá para ficar clicando a esmo com quantidades limitadas de frames.
Vale salientar que para volumes de trabalho atualmente, deixou em muito de ser vantajoso a utilização das películas, tornando o digital imbatível, sem falar na constante melhoria tecnológica deste sistema. Na minha opinião não vale mais a pena fotografar cromos e com alguns negativos coloridos. O digital suplanta isso muito bem. Agora na fotografia preto e branca, a minha adoração pelos filmes ainda é enorme.
Infelizmente tenho estado muito afastado da fotografia por conta de vários compromissos pessoais e por este motivo não tenho mais conseguido dedicar tempo a minha paixão a fotografia de filme, ainda mais porque eu mesmo digitalizo as minhas fotos. Me consome tempo, dinheiro para o filme/revelação e mesmo assim não deixo de gostar. Saudosismo que alimento com muito amor.

15-Rodrigo, indo no sentido da questão do Peri. Com a capacidade das atuais DSLR em fazer várias fotos em um só segundo estaremos decretando o fim do momento decisivo aos moldes do Bresson, estaremos decretando o fim do pensar para se obter a foto desejada?Marcos Borges Filho.

Marcos, na minha concepção infelizmente a popularização da fotografia digital, sobretudo no mercado da comunicação, tem produzido um tipo de profissional que muitas vezes está mais preocupado em estar em vários lugares ao mesmo tempo, atuando em todos os tipos de frente e com isso se interessando menos em criar o importante impacto para transformar uma foto apenas em algo que possa se tornar o marco de um período (ou situação).
Se em determinado lugar acontece uma situação interessante, os fotógrafos do digital ativam o burst de suas câmeras e criam verdadeiros filmes, com frames sequencialmente tão completos que fazem com que deixem de pensar naquele que seria o ápice do instante. A comodidade do digital garante isso, além de quê, a fotografia que antes pertencia apenas ao fotógrafo, passa a ser escolhida e definida não por este profissional, mas pelo editor que irá escolher aquela que PARA ELE será instante decisivo.

O “instante decisivo” continua existindo (talvez não mais naqueles moldes estabelecidos por Bresson). Em uma daquelas imagens sequenciais deverá (ou deveria) estar o momento mais importante. Aquele que define em apenas um quadro toda a informação do instante. A diferença é que um profissional que ainda se mantém preocupado com o alinhamento do seu olhar e a precisão do momento do disparo, consegue distinguir o instante perfeito, daquele que necessita de toda a sequência para se garantir. O adepto do instante decisivo é dono DA FOTO ou quem sabe DO PRÓPRIO MOMENTO, já que foi necessária a sua percepção sensorial para registrá-lo.
Este momento é muito mais amplo do que disparar a esmo… Tem toda uma aura intrínseca que vai além da própria movimentação: olhares, expressões, enquadramento, luz, aquilo que se quer mostrar (até por conta do inconsciente coletivo)… São tantas variáveis que somente aquele que se mantém em um estado de permanente aperfeiçoamento consegue se sobressair.
Mesmo no digital, com todos os seus avanços, acredito que ainda podemos ter fotógrafos que consigam “alinhar – nas palavras do mestre Bresson – a cabeça, o olho e o coração” (pelo menos quero crer nisso).

16- Partindo do pressuposto da forma comportamental na utilização do filme (pensar, compor, esperar e clicar, além do fato já descrito por você de não poder se ter o luxo de queimar vários frames por uma única foto – fator custo ) você acha que um fotógrafo que veio da era filme é mais bem preparado que um que se inicia já no sistema digital?

Em termos gerais, quem veio da escola dos filmes acaba valorizando mais os quadros que tem disponíveis para queimar. Mas a bem da verdade, os fotógrafos do digital também podem implementar este pensar a fotografia. É aquela questão de valorizar a melhor forma de captação. Não é porque temos o cartão de memória como limitante quase infinito da quantidade de fotos que precisamos sair clicando tudo sem se preocupar com a qualidade do resultado final. Não vejo validade na quantidade suplantando a qualidade. O aperfeiçoamento do olhar, na busca da maior sensibilidade ainda é o melhor caminho para visualizar trabalhos de destaque.

17- Por outro lado o fotógrafo do sistema de filme também teve de se reciclar, sobretudo no que diz respeito a tratamento pós-captura, algo que não existia de forma tão presente como agora.

Como você vê estes 2 lados da moeda?

Essa é uma questão muito pessoal. Alguns puristas não aceitam essa nova tendência e eu respeito isso, ainda mais aqueles que ainda sentem a fragilidade do sistema digital frente ao analógico. Conheço amigos fotógrafos que se sentem desamparados ao ver suas imagens convertidas em arquivos digitais. Sem a presença do físico, ou seja, do negativo em mãos se sentem fragilizados, com a idéia que podem perder o seu trabalho numa situação de pane (falando dos atuais sistemas de armazenamento disponíveis atualmente). Sou de uma geração que vivenciou essa migração e consigo aceitar com maior facilidade o atual sistema. Minha atuação na área analógica é um pouco difícil de ser entendida. Gosto das cores e nuances que cada filme pode entregar, mas acabo no final digitalizando tudo que faço com películas. Poderia muito bem me servir de softwares que simulam tratamentos e filmes diversos, mas gosto de sentir ainda o gosto da antiga tradição nos resultados. Quem não se lembra das cores mais quentes puxadas em boa parte das películas Kodak? Ou dos tons mais frios predominantes no sistema Fuji? Sem falar das baixas faixas de erros com chromos. É gostoso ainda hoje poder sentir isso. Uma pena que cada vez mais esteja caindo em desuso, já que filmes interessantes nem se encontra mais para comprar (pelo menos no Brasil). Sem falar nas brincadeiras de processo cruzado com os cromos, as reversões expressas no redscale ou ainda as puxadas de ISO que tanto intensificam os contrastes dos PBs químicos (contando inclusive com filtros coloridos em diversas aplicações). É ótimo poder inovar com o antigo. Espero ainda durar um bom tempo.

18- Quando se passa a se tomar a fotografia como arte, não se começa com um certo preconceito, colocando-se num lugar inferior o fotógrafo do fato, do documento (não me refiro aqui ao 3×4, claro!!!)? – Marcos Borges Filho.

Não necessariamente… A famosa foto da menina afegã fotografada por Steve McCurry em 1984 num campo de refugiados no Paquistão é um exemplo de fotografia que ao mesmo tempo que demonstra a menina com seu olhar duro em relação a momento em que vivia, garante uma arte incrível, como se fosse uma pintura com a mais bela luz, momento e expressividade:

A boa fotografia factual, pode gerar uma gama de representações que muitas vezes superam a própria realidade. Acredito que os grandes fotojornalistas conseguem capturar a importância do momento e ao mesmo tempo expressar arte. Volto a frisar a importância da interpretação das imagens, que culmina em algo extremamente pessoal.
Temos muitas outras imagens assim, como o famoso beijo na Times Square (fotografado por Alfred Eisenstadt simbolizando a comemoração do fim da segunda grande guerra)

E a foto “o soldado caindo” de Robert Capa, tirada em Córdoba em 1936 durante a Guerra Civil espanhola, registrando o momento em que o soldado feriado cai com o fuzil na mão.

Todas essas imagens garantiram momentos incríveis e ao mesmo tempo são proprietárias de uma plástica artística muito impactantes na minha concepção.

Para finalizar, gostaria de agradecer imensamente o convite feito pelo Peri em poder falar um pouco sobre a minha atuação na fotografia e como faço para concebê-las no meu dia-a-dia.
É uma honra fazer parte de um hall de fotógrafos tão interessantes como os que temos aqui no fórum, que por sinal é uma escola para todos nós. O Digiforum está e sempre esteve presente durante muito tempo em minha vida e foi em cima de tanta coisa que aprendi aqui, que acabei criando um blog para mostrar o meu trabalho e consequentemente ajudar alguns colegas com suas dúvidas. Tenho estado um pouco ausente devido aos meus compromissos pessoais, mas faço questão de sempre dar uma passada por aqui e me inteirar das discussões que andam acontecendo (muitas vezes sem opinar). Quem não se atualiza, acaba ficando no esquecimento.

Um forte abraço a todos.

Rodrigo

Meus links na internet – http://www.meadiciona.com/rostev

—–

Participação: Marcos Borges Filho, nas partes citadas.

—–

Anúncios

2 comentários sobre “Em foco: Rostev – Rodrigo Teófilo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s