Em foco: Flávio Varricchio.

Flávio, nos trace um breve perfil, se possível com a inlusão de uma foto.

Peri,vou citar a frase de um alpinista francês que resume bem minha relação com a fotografia:

“… não ambicionava qualquer glória, e as mais modestas escaladas deixavam-me louco de alegria. Para mim a montanha não era mais que um reino maravilhoso onde, por qualquer mistério, eu me sentia mais feliz.”

Lionel Terray (1921-1965)

É isso, sou um cara que procura registrar a minha vida por meio das fotografias, O fotografar por si só é uma atividade que me deixa muito feliz, onde me sinto participando da vida com mais entusiasmo e alegria.

1- Flávio, em seu perfil do Flickr., lemos:

“Fotógrafo da natureza. Em 2004 passei a dedicar-me à arte que melhor retrata minha essência, embora desde criança demonstrasse interesse pelas imagens que via em revistas especializadas. Procuro, através da fotografia, celebrar a natureza, ambiente que mais me identifico, tentando projetar em imagens a magia de cada lugar que visito. Atualmente me dedico ao projeto de documentação dos parques nacionais brasileiros além de retratar o povo, as pessoas que ajudam a contar a história do Brasil. Meu livro somente mostra as belezas da vida. Boa viagem pela minha história.”

Você se auto-intitula fotográfo de natureza, mas percebo que vc tem uma facilidade em retratar cenas cotidianas e pessoas (como a galeria “povo brasileiro” que falaremos mais adiante).

Há mesmo predileção por temas?

Sim Peri, só fotografo temas que gosto, que me identifico, e sempre procurando mostrar o lado bom das coisas, os mostrando com dignidade e respeito. E como tenho facilidade em abordar as pessoas e gosto muito de participar de suas vidas, me intitulei como fotógrafo da natureza, que remete a algo mais abrangente como a natureza humana, por exemplo, que de natureza, que no meu modo de ver é mais associado à fotografia de paisagens e da vida selvagem.

2- Me lembro bem da série Seu Orides., quando ela foi postada publicamente lá no BrFoto.
Na ocasião vc falava da emoção na captura daquelas fotos.
Conte-nos sobre o episódio.

Considero as fotos do Sr Orides as mais significativas dentre todas as que fiz. Ele foi à pessoa mais bonita que conheci e tive o prazer de ajudar. Orgulho-me muito da sua amizade e de ter tido a oportunidade de encontrá-lo nas minhas andanças pela área rural de Petrópolis-RJ. Morava com o filho, que só retornava a noite do trabalho, dizia que se sentia sozinho desde que a sua esposa tinha falecido e adorava contar histórias. Apesar da aparência triste em algumas fotos, era uma pessoa alegre e com uma disposição invejável no alto de seus 89 anos, idade que tive o prazer de estar ao seu lado no dia de seu aniversário em que ele fez uma oração muito bonita e emocionante. Essas fotos são as mais significativas por terem ido além do registro de seu modo de vida, mas por terem tido uma utilidade que transformou tanto a minha fotografia quanto a vida dele. A dele que passou a ter um maior reconhecimento da família que o levou da casa onde morava onde passava por muitas privações, para morar com eles em uma cidade próxima, onde teria uma vida mais digna ao lado de seus familiares, o que o deixou muito feliz. Mudança provocada pelas fotos que sua neta em umas das visitas que fazia a ele nos finais de semana, levou para casa para mostrar para a mãe, o que a fez reconhecer que o pai não estava bem naquele local, e que precisava de ajuda. Informação me passada pelo seu filho que morava com ele e que tinha alguns conflitos. A minha fotografia, tinha menos de 1 ano que tinha começado a fotografar com a digital, por ter mostrado que mais importante que sair por aí fotografando o que gosto, seria dar utilidade a essa fotografia, já que mesmo um gesto simples como o de presentear uma pessoa com uma foto que talvez nunca tenha sido fotografada a não ser para registro em documentos, pode ser um gesto que pode mudar sua vida. Não digo como no caso do Sr Orides , mas levantando sua auto-estima, as tornando especiais. Vejo muitas dessas fotos que faço como uma homenagem a sua história, uma homenagem a pessoas que aprendi a admirar e que tenho a honra de ter como amigos.

3- Como a fotografia se insere em sua vida?Como lazer, hobby, apenas profissão?É possível se separar estas categorias?

Insere-se como um estilo de vida. Mais que uma profissão (apesar de ter feitos alguns trabalhos, não me considero profissional da fotografia) ela faz parte da minha vida desde os tempos de adolescente onde saia pelo Brasil com uma mochila e uma câmera automática registrando tudo de bonito que vivenciava. O ser “fotógrafo” para mim é a realização de um sonho e uma grande diversão, já que independente da categoria, e da minha auto-critica, me cobro bem em relação aos resultados, me divirto bastante quando saio por aí com uma câmera. Seja profissionalmente ou em fotos sem muito compromisso,quando se faz o que gosta,tudo fica mais fácil e prazeroso.

4- Você tem um trabalho interessante de documentação de Parques Nacionais (dos Órgãos-RJ, Monte Roraima/Canaima – Brasil/Venezuela, Itatiaia – RJ/MG, entre outros).
Qual o seu propósito com esta documentação?
Isto de alguma forma se relaciona com outro hobby que vc tem (se não me engano você gosta de escaladas/caminhadas … )?

O propósito é o de registrar locais de natureza exuberante e que estão (estiveram) no meu imaginário nos tempos em que viajava lendo revistas como Geográfica Universal e Terra, locais esses que sempre tive o sonho de conhecer e fotografar como “aqueles caras das revistas” fizeram. Não tenho muitas pretensões de isso se tornar uma profissão, com prazos, etc., mas de seguir o caminho de realizar meus sonhos sem compromisso com ninguém a não ser comigo mesmo, no meu ritmo, fazendo o que quero, quando quero e como quero. Essa documentação tanto dos Parques Nacionais, como das pessoas, é algo que vem de dentro,do meu intimo, é a realização de um sonho de viajar pelo Brasil, fazendo o que mais gosto e me faz sentir vivo. E isso se relaciona com as caminhadas que faço, já que gosto de chegar aos locais devagar, vivenciar o seu dia a dia, participar de sua vida, não simplesmente passar por eles como um turista que vê tudo de longe e rapidamente sem se envolver.

5- O Eduardo Buscariolli, um amigo em comum que temos, comentou comigo que, além de um ótimo fotógrafo, você também é ótimo contador de ‘causos’, e talvez até melhor contando-os do que fotografando. – rs

Certamente você tem algo muito interessante a nos a contar…

Não me acho um ótimo contador de histórias, sou aquela pessoa que mal sabe contar uma piada, quanto mais histórias, e vou discordar do Eduardo nesse ponto, já que contar histórias por imagens é bem mais fácil para mim do que com palavras.

Mas para não ficar só na explicação, segue uma:

Sou um andarilho por natureza, gosto muito de caminhar, descobrir lugares novos e foi numa andança dessas que me envolvi na situação mais tensa até hoje. Foi logo que comprei minha 1ª digital, tem 6 anos isso, onde saí pela estrada Rio x Petrópolis a pé, sendo que iria pela pista de subida e retornaria pela de descida, já que dessa forma estaria sempre frontal ao trânsito que é pesado e perigoso. Em um trecho da estrada os moradores vendem um artesanato muito bonito feito de retalhos de tecidos, tapetes principalmente, e foi numa dessas barracas que quase me dei muito mal. Só tinha uma barraca e uma vendedora, ao qual perguntei se podia fazer uma foto de um tapete com o desenho da bandeira do Brasil, nisso a mulher enlouquecida, pega um facão e vem para cima de mim do nada, já que só tinha feito uma pergunta a ela,gritando – Sai,sai daqui, senão te mato! Me afastei de imediato,e perguntei o porque dessa reação,já que não tinha feito nada a ela,mas ela furiosa como estava,continuou a gritar para sair dali senão me matava. Nisso, um homem que estava em uma bicicleta próximo, veio para cima de mim, perguntando o que tinha feito a ela, e que era para sair dali. Não ia discutir, já que não sou de confusão, e peguei minhas coisas e continuei pela estrada sem dizer nada, já que não adiantaria argumentar com ele que também estava meio alterado. No caminho ele passa por mim de bicicleta dizendo que ia chamar uns amigos para me pegar. Começou a ficar bem tensa a situação, mas continuei andando,quando mais a frente ele estava com outro cara próximo a um bar,não me lembro bem, ambos de bicicleta, parados me observando. Chegando onde eles estavam, parei para pedir uma informação no bar e ouvi quando um deles disse ao outro – É esse aí! Continuei por ali, eles próximos conversando, mas sem esboçar nenhuma reação,quando um fala para o outro para irem até o bairro que lá juntariam uma galera para me pegar,logo que disseram isso, pegaram as bicicletas e saíram em disparada pela estrada. E a coisa ta ficando cada vez mais tensa e tinha que dar um jeito de sair dali porque na próxima vez que encontrá-los senti que ia me dar muito mal. Parei, pensei um pouco e lembrei que logo à frente, tem um posto de gasolina, onde ao lado tem uma estrada de terra que sai na pista de descida, e que teria que seguir por ali, já que se seguisse até o final da pista, passaria por onde eles estavam e uma vez ali não tinha para onde correr. Continuei a caminhada, cheguei ao posto, olhei em volta, já que eles poderiam estar por perto, e perguntei ao frentista se dois caras tinham descido de bicicleta por ali recentemente, ele disse que não, e sem pensar, comecei a descer correndo para estar na outra pista o quanto antes. Cheguei à pista, tudo certo, e segui meu caminho de volta para casa que foi até mais tenso do que antes, já que a todo o momento olhava para trás, para ver se não estava sendo seguido, e todo carro que vinha em sentido contrário gerava uma expectativa, já que poderia ser o pessoal do bairro em busca do fotógrafo de tapetes da bandeira do Brasil que havia “molestado” a vendedora de artesanato que talvez por ter sofrido alguma violência, sofria de um trauma tão grande, que qualquer pessoa que a abordasse,queria lhe fazer mal.

6- Filme e/ou digital?Por quê?

Digital. Comecei a fotografar seriamente em 2004 e com digital, uma Fuji S5000,

(não conto muito o período em que usava a câmera tudo automático de filme como fotografar, já que não entendia nada de fotografia na época, só sabia apertar o disparador, trocar o filme e nada mais) e apesar da minha experiência com filme ser pequena, prefiro o digital. Gosto da sua praticidade, de visualizar a foto na hora em que foi feita e corrigir possíveis falhas técnicas com um rápido ajuste e outra foto em seguida, de ter o controle de todo o processo, desde a captura até a impressão, da facilidade de armazenamento, onde em um DVD ou HD coloco centenas de fotos ocupando pouco espaço em casa ou na mochila, de no caso de uma viagem carregar menos peso e ter menos preocupação com a integridade das imagens, conheço fotógrafos que viajavam com 100, 200 rolos de filme em uma bolsa térmica e que ficavam estressadíssimos com a segurança do material o que hoje com um cartão de memória de alta capacidade que cabe no bolso de uma camisa foi resolvido, da maior resolução e qualidade de imagem comparada aos filmes de 35 mm, enfim, não me vejo fotografando e nem tenho muita curiosidade de usar filme por esses entre outros motivos. Se fotografo hoje é graças ao digital. Talvez se só existisse filme não teria a mesma motivação que tenho usando a tecnologia digital que veio para ficar e facilitar a vida dos fotógrafos.

7- Flávio, abaixo 2 séries de fotos que gostei muito em seus álbuns.

Destaquei em cada uma delas algumas fotos que fiquei impressionado, seja pela qualidade da captura (composição, luz, tratamento, etc) ou seja pela diversidade das informações contidas nelas.

E pelo simples fato de eu me sentir muito próximo da sua abordagem em ambientes tão plurais, locais que me atraem muito para fotografar também.

Entendo que você transmite muita humanidade nestas capturas, mostrando verdadeiros relatos de nosso povo e seus costumes.

Na verdade as fotos postadas funcionam apenas como exemplo, porque os álbuns, verdadeiramente, são ótimos.

1- Porto de Manaus – AM.

2- Mercado Municipal, Manaus-AM.

O que vc sente ao fotografar estas comunidades e estes locais?

Fale um pouco sobre sua abordagem nestes ambientes que muitos, erroneamente, chamam de “poluídos”.

Sinto-me participando do modo de vida das pessoas, me identifico com suas histórias, admiro seu trabalho e tenho profundo respeito por elas. Agradeço por ter a possibilidade de acompanhá-los mesmo que por poucos momentos, e como vejo a fotografia como uma troca, sempre que possível procuro dar as fotos para elas, já que recebi um presente, nada mais justo que retribuir.

8- Em suas andanças, que lugar (ou tema) te proporcionou mais prazer em fotografar e por quê?

Curiosamente um dos locais que mais me proporcionou prazer em fotografar não foi em um ambiente natural, mas em uma cidade grande, como Porto Alegre. Foram às fotos feitas no Mercado Público, na Usina do Gasômetro, no Brique da Redenção e na Casa de Cultura Mário Quintana, quatro dos principais pontos turísticos da cidade.

O prazer estava no desafio, de fotografar algo novo para mim, o urbano, o cotidiano de uma cidade grande, e de forma diferente das usuais, onde a luz era o fio condutor das fotos isolando em meio ao todo, os sentimentos, as angústias, o trabalho, a correria do dia a dia das pessoas.

E o sucesso desse ensaio que foi matéria de capa e publicado na revista Photo & Magazine edição 18, reflete muito o meu estado de espírito na época, onde passava por um momento muito bom da minha vida, motivado, feliz, a véspera de um trabalho importante que foi a documentação fotográfica de toda a cidade de Bagé no pampa gaúcho. Foi à união perfeita do momento com a vontade de fotografar.

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781952

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781959

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=781976

http://photo.net/photodb/folder?folder_id=782004

Participação especial: Eduardo Buscariolli.

9- Frequetemente vejo você manifestando um viés ambientalista. Considerando que você faz da fotografia de paisagem uma espécie de meio de expressão pessoal, torna-se natural a defesa daquilo que nos move. Assim, fale um pouco da sua paixão pela fotografia da paisagem natural. O que veio primeiro a fotografia ou a paisagem?

A paisagem veio primeiro. O meu contato com a natureza vem desde os tempos de adolescente, onde nas minhas viagens sempre procurei ir para locais de natureza exuberante, e que tinham história, autênticos. Mas não tinha nenhuma câmera, até pela fase que me encontrava, onde queria ir mais para a farra que outra coisa. Com o tempo comecei a deixar a farra de lado e explorar esses locais com outros olhos, e foi aí que a fotografia entrou definitivamente na minha vida. Logo em seguida comprei uma câmera daquelas “aperte o botão que a gente faz o resto”, uma Pentax PC-33

dessas saboneteiras com foco fixo e tudo automático, onde a única escolha do fotógrafo é o filme, a composição e escolha da luz, sendo que quase sempre, até por não saber nada de fotografia, só sabia trocar o filme e apertar o disparador, os resultados me frustravam, já que o que via não era o mesmo que o filme registrava.

Mesmo sem entender nada de fotografia e inspirado pelas fotos que via em revistas como a Geográfica Universal e Terra, onde ficava fascinado pelas fotografias e dizia que um dia iria fotografar igual aqueles caras e conhecer os mesmos locais que eles, organizei minha “1ª expedição”, que foi uma caminhada de 1000 km pelas praias mais bonitas do Brasil, sendo que o meu guia de viagem foi o da Quatro Rodas sobre o litoral.

Fiz essa caminhada em algumas etapas, priorizando uma região em cada, onde levava minha câmera faz tudo, vários rolos de filme, sendo que os mais usados eram o Kodak Gold 100 e o Fuji Superia ISO 100, um rolo de esparadrapo para depois de cada filme terminado os catalogar com o nome do local onde as fotos foram feitas, e segui meu caminho de aspirante a fotógrafo desde então nesse esquema durante um bom tempo. Sem entender nada de fotografia, só tendo como referência as fotos que via em revistas. Sendo que quando do cancelamento de uma viagem ao sul devido a uma doença, com o dinheiro que tinha juntado para a viagem comprei uma Fuji S5000, isso aos 33 anos,quando aí sim,investi em um curso no SENAC e comecei a encarar a fotografia mais seriamente.

Dessa época da câmera faz tudo, duas fotos que gosto muito são essas de crianças índias no Rio Corumbau, litoral sul da Bahia:

10- Geralmente em suas fotos vê-se uma paisagem grandiosa muitas vezes parecem intocadas. Em conversas anteirores você menciona pintores paisagistas do século 18 ou 19. Esse aspecto intocável é para você uma espécie de romantização da paisagem?

Em parte sim. Ultimamente tenho fotografado com duas influências, uma da fotografia e outra da pintura.

A da fotografia é do americano Galen Rowell (1940-2002), http://www.mountainlight.com/ que tinha como característica a busca pela luz perfeita, que chamava de mágica, e que era a do inicio e fim do dia, de tons quentes, aveludados, além do seu estilo de vida que admiro muito e me identifico.

A da pintura no apuro das composições e na representação fiel e detalhada dos elementos topográficos, da flora e fauna.

Dentre os pintores destaco:

O suíço Johann Jacob Steinmann (1800 -1844)

O alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

O inglês George Lothian Hall (1825-1882)

O holandês Frans Janszoon Post (1612-1680)

O italiano Nicolao Antonio Facchinetti ( 1824-1900)

E o português Joaquim Insley Pacheco (1830-1912)

A romantização vem do fato de procurar mostrar a paisagem com os mínimos sinais de ocupação humana, a paisagem pura, exuberante, que encantou os pintores e que mais me identifico. Quando não é possível a mostrar dessa forma, procuro locais onde a simplicidade das construções, das pessoas, do modo de vida, o que encontro principalmente em áreas rurais, remete há esse tempo. Tem um quê de nostálgico nessa minha busca atual, de ir de encontro ao meu verdadeiro eu, da tranqüilidade, de ambientes onde a paz parece imperar.

As fotos mais representativas dessa fase são essas feitas esse ano em Petrópolis – RJ:

11- Ainda em conversas anteriores, você mencionou estar interessado em uma mudança de modo de fotografar, onde tentaria buscar particularidades dentro da paisagem. Fale-nos desse processo de mudança.

Essa idéia veio de uma conversa que tivemos sobre o belo e o sublime Kantiano, onde o belo é o ligado ao alegre e jovial, como as paisagens calmas de um dia de céu limpo, e o sublime é o assombro que temos perante a grandes tempestades e a profundeza de grandes precipícios.

E pode soar contraditória essa mudança em relação à resposta da pergunta anterior onde respondo que procuro ambientes onde a paz parece imperar, mas ao mesmo tempo em que o belo me fascina,tenho uma profunda admiração pela força da natureza, do poder das tempestades, de raios rasgando o céu, de mares furiosos, nevascas inclementes, o que vai na linha do sublime,daquela sensação de prazer ligado ao terrível.

E não sei se seria uma mudança no modo de fotografar, mas sim, no modo de abordar a natureza, já que sempre fui à busca do belo, de condições climáticas acolhedoras, quando sinto profundo interesse pelo lado hostil da natureza. O que envolve riscos, já que no caso de uma fotografia na montanha, que são expostas as intempéries não tendo muitos locais onde se abrigar, uma situação de tempestade elétrica pode ser bem complicada, extasiante mais extremamente perigosa. É o sublime sem dúvida, mas que só tem razão de ser, se eu voltar para casa.

Por isso essa mudança, da busca por condições mais extremas, é algo para se pensar com calma,ao mesmo tempo em que elas me fascinam,sinto receio de me envolver em certas situações críticas só para fazer uma foto mais impactante, e como disse acima, uma aventura só é bem sucedida, se conseguimos voltar dela.

Uma foto na linha do sublime pode ser essa de um piloto de asa delta em meio a uma tempestade de verão:

Flávio, qual é a sua melhor e sua pior foto, e por quê?

E qual (ou quais) foto vc viu e pensou: “puxa, eu gostaria de ter feito esta foto …” ?

Peri,

Essa avaliação do melhor e pior é difícil de ser feita pelo fator emocional que acaba influindo nas decisões, já que é muito fácil se deixar levar pelas dificuldades na realização de uma foto de paisagem ou pelo carisma de uma pessoa que te marcou de alguma forma, fatores que para quem fez a foto são importantes por trazerem boas lembranças, mas para quem vê não, Bresson dizia que:

“O que conta é o resultado, a prova de convicção que a foto deixa. Se assim não fosse, não se acabaria de descrever as fotos malogradas e que só existem no olho do fotógrafo”

E procurando ser racional, com a frieza e rigor de um curador, as minhas escolhas são as seguintes:

Melhores

Paisagem

Luz, momento, lugar, onde as velas criam uma moldura como que santificando a menina.
Não tenho conhecimento teórico,bagagem,para fazer analises mais aprofundadas,mas dentro do que sei,considero esse retrato com força suficiente para prender a atenção do observador e querer saber mais sobre o lugar.

Piores

Paisagem

Péssima foto, em tudo, desde a escolha do enquadramento/composição a da luz. É o tipo de foto que me pergunto por que parei para fotografar, já que as condições não estavam favoráveis para a realização de uma foto interessante.
O encantamento com uma paisagem bonita e a vontade de registrar um lugar que talvez nunca mais volte pode ter pesado bastante na decisão de fazer essa foto, mas fora a questão de ser uma lembrança de viagem, essa foto não diz nada, nota 0!

Gente

Não é bem a pior,mas uma foto que me incomoda pelo seguinte: Procurei fazer um retrato desse homem mostrando os objetos de seu trabalho assim como os prêmios recebidos por ele,nesse ponto o enquadramento cumpriu sua função.

Mas o que me incomoda e ficou muito estranho é a sua postura, com as mãos devido ao uso de uma grande angular, desproporcionais em relação ao corpo, sentado com as pernas abertas e com uma fisionomia fechada que não reflete a sua personalidade.

Faltou uma melhor direção, deixar ele mais a vontade, o que consegui na foto seguinte a essa:
http://photo.net/photodb/photo?photo_id=10371412

Mais que devido à correria de um trabalho e a impaciência dele, que não tinha o costume de ser fotografado, não foi possível refazer a outra foto com ele em melhor postura, mais a vontade e mostrando os objetos/prêmios de seu trabalho.

Pela abordagem errada e má direção considero essa foto uma das piores.

E uma escolha levando mais para o lado emocional essa foto:

Que foi a foto que me permitiu realizar o sonho de conhecer a Amazônia e o Monte Roraima, devido ao prêmio que ganhei com concurso “O Céu do Brasil” em 2009

Das fotos que gostaria de ter feito são muitas, não teria espaço para tantas no tópico, por isso em vez de mostrar várias fotos, cito os fotógrafos que admiro o trabalho e dentro das minhas limitações tenho como fonte de inspiração.

Documental

Sebastião Salgado – http://www.amazonasimages.com/

Steve McCurry – http://www.stevemccurry.com/main.php

Pedro Martinelli – http://www.pedromartinelli.com.br/

Paisagem

Galen Rowell – http://www.mountainlight.com/

Marc Adamus – http://www.marcadamus.com/

Michael Anderson – http://www.michaelandersongallery.com/

E citando uma foto, uma que gosto muito, por me identificar muito com a cena, com o modo de vida simples do homem do campo que tenho contato nas minhas andanças por áreas rurais, vai essa do Ed Viggiani.

Não encontrei esse foto na rede, por isso tive que escanear o que infelizmente causou um corte na imagem

O fotógrafo recebeu o prêmio Abril de Reportagem Cultural com essa matéria publicada na National Geographic em 2002.

É realmente de impressionar o seu envolvimento com a fotografia não comercial, que é uma fotografia mais gostosa de se fazer (e que particularmente me atrai mais também) e a sua generosidade em compartilhar isto.

Concordo com o Marcos.

Está sendo uma entrevista muito bacana mesmo.

A título de curiosidade apenas, mais algumas fotos de seu portfólio que gostei bastante.

Se vc desejar comentar alguma, fique à vontade.

Verdade, o fotografar sem compromisso com prazos, layouts, padrões é uma atividade muito prazerosa e divertida, como por exemplo, nessas fotos que fiz esse fim de semana no Rio de Janeiro em uma passagem subterrânea em Botafogo, onde me senti uma criança brincando com seu brinquedo favorito em um parque de diversões.
http://photo.net/photodb/folder?folder_id=981235

Andava de um lado para outro, subindo/descendo as rampas/escadas, observando os grafites e tentando associá-los com as pessoas que passavam e a paisagem ao fundo, aí encontrava um local e esperava até alguém entrar no quadro para clicar, fazia a foto e já começava a procurar outro ponto onde pudesse continuar a brincadeira.

Fazia como um jogo de pique esconde e adivinhação com as pessoas e os desenhos, onde me diverti por quase uma hora tentando montar o quebra cabeças fotográfico que encontrei no caminho, sendo que nada foi planejado, já que sai de casa sem idéia do que fotografar, só com a câmera no bolso e ao passar por esse ponto identifiquei ali um tema interessante e comecei a brincadeira,que como a imaginação de uma criança,foi muito divertida e criativa.

É o acaso, o inusitado que em algumas situações torna a fotografia mais divertida, já que como não foi nada planejado foi tudo muito espontâneo, tudo flui com muita naturalidade e alegria e o resultado nem importa tanto, o legal é o jogo, a brincadeira.

Não duvido muito que voltando a esse local minha atitude em relação a ele será outra,já que como já o conheço e fotografei,sairei com uma idéia do que fazer de casa e com isso a fotografia que foi uma brincadeira quando da 1ª vez, se tornará como um trabalho, mas criteriosa, calculada, sem a espontaneidade de quando descobri o parque de diversões e comecei a brincar feito uma criança. Por isso acho que esse tema pelo menos nesse local se fechou, já que a alegria que me movia antes não existirá mais, em vez da câmera ser o meu brinquedo ela se tornar-la uma ferramenta, e isso a torna chata, já que a cobrança por resultados me impedirá de curtir a fotografia como antes.

Nas fotos postadas, elas são bons exemplos de como abordo as pessoas e vejo a fotografia, onde fotografo evitando expor-las a situações constrangedoras, só fotografando quando aceito por elas, sem parecer intrusivo, mostrando o lado bom da vida, as suas belezas.

Como a simplicidade de uma sala de TV em uma fazenda em Bagé no Pampa gaúcho, a diversão de um comerciante na comunidade caiçara do Saco de Mamanguá em Paraty, a alegria e o interesse de um menino quando ensinado a ele pela professora o alfabeto também no Saco de Mamanguá em Paraty, o sorriso de uma menina ao perceber que estava sendo fotografada no Parque Cremerie em Petrópolis, o espanto e o brilho no olhar das crianças ao ver Papai Noel pelo vidro do Palácio de Cristal em Petrópolis (foto que perdi devido a uma formatação no computador por um vírus ), o trabalho desses 3 homens que moravam e trabalhavam em uma caótica cidade grande e ao se aposentar foram morar na praia onde descobriram a pesca e a alegria de viver.

Enfim, são momentos como esses que procuro registrar, coisas boas, que trazem bons sentimentos a quem vê as imagens, já que como está no meu texto de apresentação no inicio da entrevista, “Meu livro só mostra as belezas da vida, boa viagem pela minha história”.

Flávio,

Relendo sua entrevista, suas falas e passagens, dá pra perceber seu total envolvimento na área.
Em algumas oportunidades vejo e percebo um envolvimento visceral, quase divino.

A fotografia já lhe trouxe alguma decepção, algum desprazer?

Peri,

Divino não é a palavra, soa messiânico demais.
A minha relação com a fotografia é a de simplesmente fazer o que sempre gostei, de ter realizado um sonho de criança,e quando fazemos o que gostamos e temos a curiosidade de estar sempre aprendendo,buscando novos desafios, a motivação, o prazer em fotografar fica explicito nas imagens.

O mesmo ocorre com vc, por exemplo, que além de excelente fotógrafo, tem profunda paixão pela fotografia e fotografa os temas que mais se identifica e que te dão prazer.
Aquele algo mais que muito falam que faltam na fotografia é justamente isso, apesar de muitas pessoas gostarem de fotografar, falta a elas paixão pelo que fazem, como Bresson dizia:
“Fotografar é colocar na mesma linha de mira, a cabeça, o olho e o coração”.

Sem essa conexão, por mais conhecimento técnico que as pessoas possuam, elas nunca conseguiram ir além da superfície dos temas que fotografam, só com envolvimento, verdadeiro amor pelo que se faz e pelos temas que se fotografa é que conseguimos ir além do simples registro e fazer fotos realmente especiais.

Decepção tive principalmente com a fotografia comercial, com clientes que não pagam o combinado, com o pouco tempo para se fotografar uma paisagem sem ter nenhuma referência do lugar e em condições climáticas ruins, com a minha auto-critica de não ter entregado fotos com a qualidade que considero aceitável devido a ser tudo para ontem, do meu pouco conhecimento em relação à edição de imagens quando da realização de um trabalho em que entreguei fotos que editando hoje ficaram muito mais bonitas, do meu amadorismo em algumas situações, enfim, as decepções que tive além de fatores externos, foram muito frutos da minha rigorosa auto-critica em relação ao que faço.

Sempre procuro independente do cliente, seja ele uma grande empresa ou um pequeno artesão, fazer o meu melhor, e quando não consigo ou não são me dados meios para realizar esse trabalho como gostaria me decepciono realmente.

Me incomodo muito com a qualidade do que faço,e qualquer coisa que não tenha o padrão que considero bom é motivo para uma decepção.

São coisas que me incomodam, mas que procuro sempre aprender com as boas e más experiências que vivenciei para de uma próxima vez não cometer os mesmos erros

Sem um envolvimento mínimo não há avanço.

Não avanço no sentido técnico, porque técnica (aprender a controlar funções, aprender a ler luz e etc) de uma hora pra outra todo mundo aprende.

Mas avanço no sentido de promover uma fotografia mais humana, mais próxima de nós, e que nos faça crescer como seres humanos.

Um fotógrafo francês, Félix Nadar (1820-1910), dizia:
“Técnica fotográfica se aprende em 15 minutos, a fotografar se leva a vida toda”.

Enquanto as pessoas pensarem que o equipamento é que faz o fotógrafo nunca entenderão que boas fotografias são resultado de esforço, dedicação, envolvimento e principalmente paixão pelo que se faz e pelo outro. E isso leva tempo, não existem receitas milagrosas, mas um aprendizado constante com as experiências que vivenciamos diariamente

Pelo outro porque vejo muitas pessoas fotografarem pessoas como se fossem objetos, os usando para alcançarem prêmios, fama ou simplesmente uma foto chocante para ser mostrada em fóruns e causar polêmica os tornando o centro das atenções.

Boas fotos são resultado também do respeito que se sente pelas outras pessoas. Uma pergunta que muitos deviam se fazer antes de fotografar,é se gostariam de ser fotografadas na mesma situação.

O se colocar no lugar no outro, procurando compreender e respeitar seus sentimentos, como vc disse promove uma fotografia mais humana, honesta, o que com certeza nos faz crescer como pessoas.

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