Em foco: Júlio Paiva.

Antes de iniciarmos, nos trace um breve perfil seu.
Se possível com a inclusão de uma foto.

Júlio Paiva, 31. Nasci no Rio de Janeiro, mas pra falar a verdade: sou um sujeito de Recife, cidade onde me criei e aprendi a ser boa parte do que sou. Só saí aos 25 anos, após concluir minha formação em arquitetura e urbanismo. Depois, vivi em Fortaleza, cidade na qual me casei e exerci essa profissão por alguns anos.

Desde cedo a fotografia ocupou um espaço significativo em minha vida. Antes, o interesse era fotografar, aos poucos cresceu a vontade de aprofundar os conhecimentos. Depois de sair de Fortaleza, e um período itinerante pelo Cone sul, surgiu a possibilidade de ingressar em uma instituição de nível superior na formação em fotografia aqui na Argentina.

Nesse momento resido em Córdoba exercendo a profissão de fotógrafo.

1- Júlio, olhando seu blog, o Figurae – http://figurae.blogspot.com/ – vi transcrito:
“Júlio Paiva, fotógrafo estudante da Escuela Spilimbergo e arquiteto urbanista. Córdoba / Argentina”. Como é se manter o eixo Brasil-Argentina? E por que logo a Argentina – rs?

Uma experiência interessantíssima. Para um brasileiro, viver na Argentina acarreta consequências, algumas já esperadas e outras nem tanto. Em ambos casos destaco questões positivas e negativas. As lógicas de comportamento e vivência possuem muitas diferenças, algumas sutis e outras não; é estar sempre enfrentando dois contextos e suas peculiaridades, ainda que compartilhem muitas aparentes semelhanças.

Observo, por exemplo, a sensação de segurança. Para mim, como brasileiro – e de Recife -, morar aqui é realmente uma experiência libertadora. Porque ainda que a opinião pública local esteja igualmente inclinada à exacerbar o problema da violência, ao menos aqui na região do microcentro de Córdoba, eu realmente esqueço de tomar muitos cuidados imprescindíveis no Brasil. Literalmente relaxo. Saio com minha câmera, tiro fotos, verifico, apago, retorno, deixo de olhar para os lados e até hoje nunca fez diferença. Comparativamente, nesse sentido, a vivência aqui é muito mais tranquila. Não vou te dizer que aqui não tem roubo, assalto; mas fazendo um paralelo com o Brasil, ou com Fortaleza, que foi a última cidade onde morei antes de sair, é outra hisória. É muito curioso entrar numa loja e não ter ninguém, com tudo à mostra, porque o vendedor foi no banheiro e deixou o saguão sozinho; pra um brasileiro isso é, no mínimo, inquietante.

Mas enfim, são coisas e coisas. Dois mundos diferentes, vizinhos e sulamericanos. O povo argentino em geral é muito amável, admirador de nossa cultura, de nossas praias, de nossa alegria. Morar aqui é escutar quase sempre que digo que sou brasileiro: “Que estás haciendo acá en Argentina????? Brasil és mucho más lindo!!!!” – palavras deles.

E por que logo a Argentina? Bueno, paramos para viver nesse país porque com o Konidomo – Expedição América do Sul , após algumas mudanças de planos depois de tanto tempo na estrada, resolvemos retornar à Argentina. Foi o país que naquele momento pareceu apresentar as melhores condições para seguir com a carreira acadêmica e experimentar por um tempo.

Após esse ano e meio itinerante, quando regressamos do Chile, paramos para viver em Mendoza por um intervalo de mais ou menos 6 meses. Aí, aos pés da Cordilheira dos Andes, recompomos as energias e vivenciamos essa Província tão interessante e emblemática durante o fortíssimo inverno de 2007. Depois desse período resolvemos seguir à Córdoba, por apresentar um interessantíssimo pólo acadêmico, com algumas das mais antigas e conceituadas faculdades da América do Sul. Ademais essa cidade possui uma escala urbana muito agradável, principalmente em sua região microcêntrica. Aqui desdobramos o Konidomo: Raquel entrou para um Mestrado em Antropologia e eu ingressei na Spilimbergo, no curso de 3 anos na tecnicatura superior em fotografia que essa instituição oferece. Isso foi em 2008, seguimos por aqui, todos os anos damos um pulo no Brasil pra matar as saudades e novamente voltamos pra cá.

* Projeto de Pesquisa Itinerante realizado a bordo de um fusca, por alguns países da América do Sul, por mim e minha esposa, também arquiteta-urbanista Raquel Queiroz. Durante um ano e meio percorremos 17.000Km investigando os modos de vida e a ocupação do espaço por onde passávamos.

Vide: http://konidomo.blogspot.com

2- De que a forma a fotografia lhe auxilia em sua profissão de arquiteto? Ela se encaixa como base para a profissão ou serve apenas de suporte?

De várias maneiras. A fotografia pode, por exemplo, servir como registro para a criação de um portfólio. E ainda que as maquetes 3D tenham cobrado bastante protagonismo no últimos tempos, digamos que a foto, que “prova” que o projeto de fato foi construído, segue bastante valorizada.

A fotografia também pode auxiliar a profissão do arquiteto quando serve como referência de algum determinado espaço a intervir. É muito comum, ao realizar levantamentos arquitetônicos, fazer algumas fotos para posterior utilização no momento em que são “passadas a limpo” as medidas.

Particularmente acredito que a foto pode ser utilizada como referência mas não deve ser tomada como a única fonte de informação. Por exemplo: do ponto de vista ótico, da formação da imagem, sabemos que diferentes focais podem representar o espaço de diferentes maneiras, aliás, bastante diferentes. Ou seja, quando na praxis arquitetônica o sujeito esqueçe de medir un determinado trecho e a posteriori supõe, proporcionalmente, a medida a partir de outro elemento de dimensões conhecidas, ele está se arriscando ao equívoco.

Igualmente se verifica o uso da fotografia aérea em disciplinas como Urbanismo por exemplo, também se pode utilizar uma imagen fotográfica para realizar croquis simulando intervenções, seja em espaços já contruídos ou não; uma foto pode servir para “explicar como funciona” determinado mecanismo ou para ampliar um detalhe construtivo. São inúmeros os usos da foto dentro do ofício arquitetônico.

Vejo ambos – projeto arquitetônico e fotografia – compartilhando uma característica comum: a representação espacial a partir de um suporte plano. Uma diferença está na questão temporal, a foto reproduz algo que supostamente já passou, através da perspectiva monocular, do mecanismo da caixa escura, do estenopo, da suposta relação indicial etc; enquanto que o projeto arquitetônico algo que ainda será, através do desenho, da linguagem técnica, de um grau de abstração inicialmente maior, de símbolos.

Mas como ultimamente minha dedicação é quase exclusiva ao universo fotográfico, nesse caso a arquitetura é que me ajuda com a fotografia. Percebo muito incorporado o treinamento espacial, assim como naturalizados os processos compositivos, sentidos espaciais e uma busca estética. Uma capacidade que o estudo da arquitetura exercita exaustivamente e que também contribui à pratica fotográfica é a necessidade de prever problemas e planejar situações. Tudo meio que se complementa.

3-O que vc tem visto de legal que possa indicar aos amigos do DigiForum na Argentina em especial?

Alguns fotógrafos que eu gostaria de destacar e realmente recomendo que conheçam:

Alejandro Chaskielberg (www.chaskielberg.com) – Impressionantes imagens, formato médio, grandes apliações. Além da questão conceitual, destaco pelo extraordinário emprego da técnica.

Natalia Pittau (www.nataliapittau.com.ar) – Vi uma mostra da Natália ano passado, que por sinal foi minha professora na Spilimbergo na cadeira Sintaxis de la Imagen, onde apresentou uma obra realmente arrebatadora, com inclinação marcadamente neopictorialista.

Marcos López (www.poplatino.com) – Especialmente em “Pop Latino”, obra que me apresentou à sua produção. Todo esse tom de paródia, a imagem kitsch. Além da marcada caracterização, se assim se pode dizer, de uma fotografia latino-americana.

Ananke Yassef (www.anankeasseff.com/obra.html) – Especialmente em “Potencial” e “ Vigília”. Ananke dissipa as fronteiras entre o documental e o uso artístico da fotografia nesses dois trabalhos.

Aldo Sessa (www.aldosessa.com.ar) – Imagens de diversos campos, usos diferenciados. Beleza e impecabilidade. Um clássico fotógrafo argentino.

4- Me fale sobre seu equipamento e como ele influencia em sua produção.

Meu equipamento é quase todo fruto de muita pesquisa. Produtos fotográficos são dispendiosos e não dá pra adquirir tudo que se deseja à qualquer momento.

Normalmente surge a demanda por algum intem. Dessa maneira eu atualizo, descarto ou acumulo recursos. No momento fotografo com uma EOS 3000n, uma Canon 500D, uma objetiva Vivitar Series1 19-35mm, uma Canon 75-300mm Ef, um flash 580exII e mais um par de apetrechos como filtros, tripés, cabos de sincronismo, sombrinha refletora, painéis, refletores, etc. Improvisação e criatividade também são fundamentais na hora de resolver algum problema, mas comparando com o que o pessoal tem por aí, eu tenho bastante pouco.

Se você observar, não tenho cobertura num raio importantíssimo: dos 35mm aos 75mm; mas pra falar a verdade, tenho sentido mais falta de qualidade ótica do que de cobertura. O sujeito quase sempre pode deslocar-se para delimitar o enquadre desejado, mas arrancar qualidade de lentes que originalmente não foram construídas para fornecer uma extraordinária imagem exige muito mais esforço. Quem já trabalhou com fixas bem corrigidas, ou lentes de alta gama, pode facilmente estabelecer um paralelo entre a qualidade oferecida por boas lentes e lentes comuns.

E enfim, meu equipamento influencia na minha produção na medida que responde ou não à alguma demanda específica. Se surge alguma idéia ou solicitação por parte de um cliente, tenho de verificar se será possível, a partir dos elementos que possuo, concretizar um produto ou não. Na verdade eu vejo tudo isso mais como recurso a ser utilizado do que premissa no momento de definir o que quero fazer. Quando falta algo, existem outras maneiras de conseguir, seja improvisando, comprando, tomando emprestado ou alugando.

5- Percebo que vc se calça muito em textos e jogos quando explora sua linguagem fotográfica. Vejo relações de palavras e conceitos, dípticos, montagens, inversões de posições, etc. Isto é parte integrande de seu processo criativo ou é algo que se manifesta apenas esporadicamente?

Às vezes é parte integrante do processo creativo, às vezes é algo que se manifesta esporadicamente. A sobreposição texto-imagem acontece quando a obra pede, quando eu tenho interesse em reforçar ou desviar uma determinada leitura ou idéia. Ou seja: vai depender dos interesses envolvidos naquela intervenção.

Vejamos. Por vezes, uma imagem solicita uma história, outras não faz tanta falta. Mas o fato é que quase sempre se poderia, textualmente (seja por meio da descrição do momento), atrelar alguma informação. Não é muito difícil ouvir, quando alguém está mostrando uma foto, uma descrição da cena, algo mais ou menos assim:

“Estava às margens de um determinado rio no pantanal, quando percebi essa revoada de pássaros tapando o crepúsculo, não resisti: tive que tirar uma foto para registrar esse momento!”

O que faço, às vezes, é fundir um código com outro, sobrepor os meios. Ao menos até agora esse processo tem assumido três funções possíveis:

A redundância: Porque às vezes é tão óbvio que surge o interesse em exagerar.
A indução: Seja coerente com o referente, seja para funcionar como algo que “rompe” essa leitura fácil à qual estamos tão acostumados.
A escolha: Se eu relaciono várias opções, todas possíveis, o que pode surgir é a necessidade do observador em se definir. Ou ele escolhe ou ele desiste. De ambas opções pode surgir um debate interessante: se ele escolhe é porque acreditou que determinada verdade era coerente; se ele desiste é porque talvez essa imagem não lhe diga tanto como normalmente se imagina que possa.

Naturalmente são momentos, não é regra, mas pode ser interessante desmontar a foto, desmembrar, remembrar. Como também é interessante a foto pura, a foto dura e direta. São usos da imagem. A fotografia, nesse caso, serviria como objetivo ou como meio para alcançar determinado fim.

6- Em muitas oportunidades vc postou fotos aqui no DF numa seção de críticas. Como foi a experiência? O que vc pode apontaria como positivo e como negativo na experiência?

Postar no fotocrítica é um exercício muito interessante. Primeiro, naturalmente, do ponto de vista do retorno que você tem da postagem: as críticas, os votos, os comentários, a ausência ou presença de pessoas específicas, de um coletivo que pode comparecer e se envolver, ou pode ignorar totalmente a publicação. Em segundo lugar, do ponto de vista de uma possível auto-análise: a de observar a si mesmo, publicamente, defendendo uma proposta.

Vejo como positiva a necessidade de estabelecer uma coerência entre imagem e sentido descrito. Uma vez que o trabalho está publicado, podem surgir questionamentos de qualquer lado. É um fórum acessível: basta cadastrar-se para participar e comentar, segundo as regras de cada sala. Sendo assim, qualquer que seja o comentário ou questionamento, exige o argumento claro, até mesmo para a descoberta de possíveis equívocos que passaram despercebidos.

Também acho positiva a interação entre usuários com diferentes abordagens fotográficas, melhor dizendo: é possível receber críticas de fotógrafos que atribuem maior peso à técnica, outros à mensagem, ao referente fotográfico, à sensação que a imagem transmite, ou mesmo à dificuldade de execução da foto, etc. Ou seja, há de tudo, isso enriquece e pluraliza o debate.

Negativo me parece a unanimidade que se forma esporadicamente ao redor de certos temas. Ainda que essa unanimidade provenha do acordo comum entre várias partes. Um modo de analizar ou representar, compartilhado por todos e que estrutura, na medida que indica a via de fato a se seguir. Ao mesmo tempo que responde especificamente a certos paradigmas dentro da produção fotográfica, ao acreditar que são os únicos que podem ser valorizados como de interesse. Vejo isso em contra a pluralização, que me parece mais interessante e enriquecedora.

7- Que tipo de fotografia lhe agrada e qual é o assunto que vc gosta de fotografar?

No momento não tenho necessariamente uma predileção por esse ou aquele assunto. Na verdade me sinto em uma fase bastante plural. Poderiamos dizer que estou “especializando-me em generalizar”, se é que me faço entender. Toda situação é um problema fotográfico a resolver, são decisões a tomar.

Mas pra fazer um recorrido pelos temas recentes: outro dia fui fazer fotos de hugby, outra semana fotos gastronômicas, na sequência retratos. Algumas práticas pela cidade têm atraído minha atenção: a fotografar algumas pessoas que vejo na rua ou a própria cidade de Córdoba. Recentemente comecei a provar alguns processos artesanais com goma-arábica, lactose e bicromato de potássio, proximamente vou emulsionar com gelatina e prata. Ou seja, tenho aproveitado pra curtir essa fase multifacetária. Mais pra frente é capaz que afunile, mas enquanto eu tiver a oportunidade de conhecer e atuar em vários campos, melhor.

8- Júlio, o que na verdade é o Figurae? Qual o propósito principal do seu blog?

Andava sentindo falta de um espaço próprio onde publicar opiniões, imagens, interações e etc. Resolvi montar um blog ao final do primeiro ano da faculdade de foto, aproveitando a experiência com o blog do Konidomo. Pra sintetizar, procurava por uma palavra que, para mim, fizesse referência ao universo da imagem mas não necessariamente só em função do ato fotográfico, muito menos da câmera em si. Descobri que figurae significa “os não significantes constituintes de significados”. Permitindo um pouco de abstração, imaginei que cada postagem, cada imagem, cada foto ou elemento que produzo pode estar impregnado de uma carga simbólica específica e individual. Mas que adquire outra conotação e sentido quando agrupadas baixo um conjunto de produção pessoal. Assim nasceu o blog.

O figurae como blog é meu corpus de produções, é o espaço onde me divirto, falo sério, brinco, é onde publico alguns sentidos crus e naturais de procesos em andamento. Serve também de porta para outras páginas, outras pessoas, serve de memória e de resíduo. O figurae pra mim é uma encruzilhada de sentidos. As intervenções existem separadas, isoladas de um contexto ou de um meio onde possam ser compreendidas, mas podem adquirir novos sentidos quando agrupadas. Dessa maneira o figurae vai acumulando vestígios, documentando um processo creativo pessoal e as interações possíveis.

Já o figurae como marca é o meu cartão de visitas. Sou um fotógrafo, mas posso não ser o único a representar essa marca em determinado momento. Figurae é o nome que estampa o cartão que eu entrego para clientes, é quem assina o portfólio comercial, que dá nome à apostila das aulas de fotografia que dou. Em algumas circunstâncias eu compartilho o espaço com a marca, em outras sou Julio Paiva isoladamente, como aqui no Digifórum.

9- Geralmente nós que captamos imagens alheias não gostamos de ser fotografados. E com você, em casa de ferreiro, espeto de pau?

Poderia-se dizer que sim, mas na verdade acredito que tem mais a ver com quem nos fotografa e o momento do que com o ato de ser fotografado em si. Nesse sentido posso assumir a “angústia de uma filiação incerta” *, ou seja, esse sujeito que se sente devir objeto, mas nas mãos de quem? Onde? Como? E pra onde?

Há situações e pessoas que quando estão me fotografando ou fotografando o grupo onde estou, para mim passam quase despercebidas. Há outros momentos nos quais me sinto visivelmente incomodado, tudo depende. Quantas vezes já tive que pedir: “Amigo(a), poderia tirar uma foto minha?”, isso é um ato de entrega e confiança, às vezes nas mãos de um desconhecido, é sua imagem que está sendo entregue. Outras vezes tive de dizer: “Por gentileza; sem fotos, obrigado”.

Não sou um sujeito com muitas fotos de si mesmo, costumo brincar com minha esposa dizendo que há trechos de minha vida que “não existem”, há momentos coletivos dos quais só participo desde o outro lado da imagem, fotografando. Se é possível afirmar que a gente fotografa para esquecer, ou para colecionar momentos e lugares, eu tenho menos registros do que gostaria.

* Roland Barthes, em “A Câmera Clara”.

10- A foto abaixo é uma de suas imagens que mais me atrai. Me conte a história por trás dela.

Algo a que estou bastante acostumado, por ter sido criado em Recife, uma capital nordestina costeira e de muito calor, é ao sol. A tomar calor na cabeça, ir pra praia, “pegar uma cor”, usar roupas leves e tudo que implica uma cultura de trópicos. Ao vir morar na Argentina e, especialmente, em uma cidade onde o inverno cobra seu protagonismo todos os anos através do frio (e não da chuva somente, como é nossa experiência invernal) ficamos temporariamente impossibilitados de desfrutar desses momentos.

E como se não bastasse o impedimento climático, existe também a limitação geográfica: a praia mais próxima daqui está a mais ou menos 800Km. Ou seja, é difícil reproduzir a atmosfera praiera, a não ser no verão, na terraza (laje) ou em algum rio ou lago nas proximidades. Como não somos muito de sair da cidade, resta uma só opção: ir ao topo do edifício tomar sol.

Pois bem, a foto ambienta, minimamente situa um contexto. É Raquel, de ombros nus, óculos escuros, dourando ao piso e eu, de bermuda, sem camisa, em pleno sol, em um ambiente inóspito, árido e visivelmente cercado de concreto. Em todo caso, são aproveitados os momentos nos quais algumas sensações são aludidas, independente da localização geográfica; nossa cultura particular de dedicar-se , em corpo, ao sol.

A Tag nesse caso serve pra referenciar a imagem em si e tudo que situo por trás dela, o que a fotografia não mostra, o fora de campo. Por isso o Sol como palavra central, protagônica, e todas as outras estabelecendo relações com sensações que orbitam ao redor, com maior ou menor intensidade. E em ambas línguas porque nesse momento está tudo mezclado, unido por uma experiência central. Na base da imagem são encontradas algumas informações sobre a toma, porque como essa era prática habitual na sala, pareceu interessante incoporar.

12- E agora, provocando um pouco, de sua produção o que vc acredita que tem força suficiente para ser admirado? Esquece a modéstia e nos mostre esta(s) foto(s).

Estabelecendo uma divisão de momentos: Acredito muito na força que têm as imagens da Expedição Konidomo, por exemplo. São de uma fase muito inicial, descompromissadas, guardam um maior grau de inocência. Ao mesmo tempo que também me interessa muito o debate sobre a natureza da imagem fotográfica. São duas abordagens bem diferentes.

No primeiro caso, pensando o Konidomo como um projeto de documentação, acredito que foram realizadas fotografias bastante interessantes dos espaços e pessoas com os quais interagimos durante o período itinerante. É um material extenso: há mais ou menos 17.000 imagens no banco de dados da expedição.

Para estabelecer uma diferença fundamental com a fase mais atual de minha produção: nessas imagens do Konidomo há muito mais conexão com o referente fotográfico. Importava muito mais o que se mostrava diretamente, o espaço, as pessoas, algo da experiência da viagem. São fotos por assim dizer: ilustrativas, denotativas. Nessas, os aspectos documental e compositivo cobram muito mais protagonismo do que o debate ao redor da natureza da imagem, de sua ontologia. Dessa maneira, olhar as fotos do Konidomo é se permitir compartilhar uma experiência de lugares, pessoas, situações necessariamente vividas, tocadas, cheiradas, percebidas.

1. Konidomo na estrada.

2. Acompanhando Diogo Todé, Romero e Garotinho em visita à Ilha de Deus / Recife.

3. Estrada para Igatu, na Chapada, Bahia.

4. Onório, através de uma Rolleiflex.

5. A arquiteta Nathália Diniz, em nossa passagem por São Paulo.

6. No Akete: ateliê/residencia da arquiteta Virgína Valdetaro.

7. Barzinho na Agusta. Raquel Queiroz, Mirela e Lívia Moraes.

8. “Televisor Cuyano”, Julian de la Rosa em frente ao seu forno artesanal. Em Luján de Cuyo/Argentina.

9. Flávio Itajubá, afinando os tambores do Baque do Vale pro carnaval de 2007. Taubaté/SP.

10. Atravessando a Cordilheira dos Andes pela segunda vez, ao regressar do Chile, no inverno de 2007.

11. A casa de Adobe, construção de 1890, onde vivemos por 6 meses aos pés da Cordilheira, em Mendoza/Argentina.

12. Fechamentos do Carnaval na passagem pelo Interior de São Paulo.

13. “Biu Fiteiro”, coberto de neve na Argentina.

Um outro momento já se relacionaria mais ao estudo dos conceitos referentes ao estatuto da imagem fotográfica. O que se espera de uma foto, o que se costuma atribuir à imagens que absorvemos todos os dias. Acho interessante jogar um pouco com o processo de leitura e recepção desse universo visual tão próprio da fotografia. Talvez a “verdade fotográfica” seja muito mais frágil do que aparenta. Creio importante considerar o que e como captamos, como estamos condicionados a entender uma imagem.

Enfim, o blog tem um pouco disso, declaradamente, assumido em fotos e textos. Nesse sentido, gostaria de mostrar algumas imagens da série que acabou por chamar-se “clasificaciones / clasificações”. Pra minha alegria tive recentemente a oportunidade de participar de uma exposição coletiva com esse trabalho aqui na Argentina, na localidade de Unquillo.

Ou seja, dois momentos bem diferentes, dois usos da imagem. E inclusive pela experiência acadêmica, me interessam os fatores que influem tanto em um uso quanto no outro.

Ainda nesse campo, também acho interessante destacar uma foto que foi escolhida para representar a “foto del día” no site da FotoRevista, tradicional veículo de comunicação argentino dedicado à fotografía. Pra você ter idéia: quando as primeiras revistas ilustradas surgiram aqui com os avanços da tecnología gráfica em mediados do século XX, a FotoRevista foi uma das primeiras, mais importantes, e que sobreviveu até hoje além de ter estabelecido uma versão virtual. O título do trabalho é “Imagem” e além da gratificação pessoal, acho bem interessante a escolha por uma foto que necessariamente não se encaixa no padrão do site.

E enfim, pedir pra fotógrafo mostrar foto é meio arriscado, você pode passar o dia inteiro vendo trabalhos e trabalhos. De qualquer maneira, quem quiser se extender um pouco na observação pode visitar o figurae ou o konidomo, aqui no DF também há material. Além disso pode entrar em contato diretamente.

13- Júlio, antes de mais nada gostaria de agradecer a oportunidade de poder dialogar com você, que particularmente é meu amigo. Alguma coisa que não tenha lhe sido perguntado e vc gostaria de acrescentar?

Quem agradeçe sou eu, Peri. E muito. Veja só que privilégio poder particiar dessa seção tão importante, em um dos maiores fóruns de fotografia do Brasil. Melhor ainda quando realizada por você que me deixou bastante à vontade, e fez perguntas extremamente interessantes. Uma honra.

Poderia acrescentar um comentário no seguinte sentido: todas as defesas realizadas aqui são parte integrante de um processo dinâmico e momentâneo. O que apresento são respostas inacabadas que ao menos para mim possuem um forte caráter reflexivo. Sou fruto do que realizo, do que absorvo e do que compartilho, e isso está sempre mudando.

Aquele abraço, muitíssimo obrigado.

Julio Paiva

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