Em foco: Ivan de Almeida.

Ivan, me trace um breve perfil (se possível inclua uma foto).

Vamos lá, Peri, com a cara e a coragem, ou com a cara-de-pau… A clássica foto no espelho, mas cheio de dedos, e algo nesses dedos todos dá conta de como me vejo.

Sou movido por uma incontrolável curiosidade e alguma coragem intelectual. Dou fé aos meus raciocínios mesmo quando contradizem o pensamento geral. Pensar é uma espécie de volúpia. A fotografia é um campo no qual esse pensamento desaguou voluptosamente, é a estação de trem onde a curiosidade está fazendo baldeação. É uma baldeação interessante porque várias linhas de trem nela se cruzam, e eu já viajei em várias dessas linhas antes, já tive curiosidade por muitos assuntos, então a fotografia é um cruzamento de vários interesses anteriores. Na fotografia há problemas técnicos, e há em mim um tecnólogo. Na fotografia há problemas formais, e igualmente há em mim um esteta. Na fotografia há problemas filosóficos, semióticos, há fenômenos de percepção, e todas essas coisas me interessam. Então, de repente, percebi que nessa baldeação eu podia examinar no mesmo objeto –uma foto singular– todos os vagões de todos os trens em que havia viajado. Fui descobrindo isso aos poucos e fui me apaixonando pelas descobertas e pelas combinações de idéias, por novas combinações, pelos jogos permitidos por cada fotografia.

1)Como se define e por quê?

Fotógrafo profissional,
Profissional amador,
Amador profissional.
Entusiasta.
NDA
.

Poderia responder ser um fotógrafo amador entusiasta, e isso seria verdadeiro, mas prefiro me definir como um fotógrafo ocasional, isto é: hoje e desde algum tempo estou naquela baldeação sobre a qual falei na primeira resposta, e nela estou examinando os vagões com curiosidade, mas a fotografia é uma ocasião, e poder haver um futuro na qual seja abandonada por outra coisa, sem embargo de continuar fotografando.

A fotografia tem sido um meio de expressão e um espelho de mim mesmo, um produto de minha psique. Resultado de minha psique, ela me permite examinar como penso, como olho, como valorizo as coisas do mundo, em que presto atenção e como presto atenção, e tento entender, examinando cada fotografia, como minha psique a determinou.

2)Sei que sua produção é extensa, mas se possível, mostre algumas de suas fotos que vc gostou de ter feito, e que ainda assim agradaram a quem as viu.Qual a razão da força destas fotos?

Composição imersiva, com a geometria das mesas embaixo colocando o observador dentro do ambiente, como se ele estivesse sentado, e levando o olhar à cena, a qual é natural e espontânea.

Nessa também a perspectiva do espaço coloca o observador no local e a foto é estética, geométrica, há uma narrativa da vida urbana atual sem romantismo, mas com poética, pertencimento e estética. Há um tema azul dominante.

A inscrição torna o jogo geométrico mais interessante, embora a foto mesma seja sustentada pelo jogo geométrico.

O jogo dos dois planos, os tons. A aparente dissociação dos dois planos. Sempre agrada quando posto.

Muito bem recebida em alguns fóruns, muito ignorada em outros.

3)Por outro lado, sendo vc um autor que tem o domínio de sua produção e de como explorar linguagens, mostre-me alguma (s) de suas fotos que vc tem certeza de terem sido suficientemente resolvidas em termos fotográficos, mas que não agradaram a quem as viu.Consegue visualizar o porquê de não terem agradado?

Uma das minhas melhores fotos, talvez a melhor. Uma mancha amarela dominante ao primeiro olhar deixa entrever no fundo uma cena carioca, e a cena deve ser percebida com calma e atenção.

Geometria, formas, desenho, texturas, em uma combinação. Foi muito mal recebida com comentários do tipo “qual o assunto?” e “tem um plástico ali na esquerda”. Claro que tem um plástico… ele estava lá.

Uma composição remetente ao paisagismo brasileiro. Muito mal recebida. Uma das melhores fotos que já fiz. Parece faltar ao observador um ponto de apoio como está acostumado, algo que ele possa dizer: “esta foto é disso”.

Há uma demanda por pannings congelados, e esse tipo de foto termina provocando rejeição. A fotografia é muito bem resolvida, os dois carros vermelhos em um diálogo raro. Pannings desse tipo, que chamo de “pannings expressivos”, têm sido sempre rejeitados quando os mostro.

De modo geral, a fotografia não agrada quando por algum motivo deixa de cumprir a expectativa do público. Em vários dos casos, nas minhas, acontecem queixas de “não sei do quê é esta fotografia”.

4)Existe algum estilo no qual vc acha que sua fotografia se encaixa?Vc tem predileção por algum tema em especial?

Não sei. Identifico nas minhas fotos uma marca, mas não sei relacionar essa marca com estilos, etc. Obviamente há relação, sempre há, mas eu mesmo não consigo pensar nesses termos.

5)Vc tem visto algo que te impressiona, algo de novo acontecendo, ou a popularização e pulverização da fotografia ( O Flickr recentemente chegou a 3 Bilhões de fotos postadas) tem levado o nível dos trabalhos apresentados para baixo?

O fenômeno digital elevou e rebaixou o nível das fotografias simultaneamente. No quesito de produção de imagens vistosas, é inegável que a fotografia hoje é muito mais pujante. No quesito da poética fotográfica, ela é subdesenvolvida. No passado, quem conseguisse uma imagem vistosa era visto como bom fotógrafo. Hoje não faz ninguém se destacar da média. A média incluiu a eficácia na produção de imagens vistosas, mas, paralelamente, as imagens perderam o significado poético e o que as pessoas erradamente chamam de poesia é meramente prosa, mensagens diretas e de codificação imediata e sem sutileza.

6) Como a escolha do equipamento que vc usa influi no tipo de foto que vc faz? O que vc usa em termos de equipo?

Uso um corpo digital com sensor APS-C, antes Canon, agora Pentax K20D. A escolha atendeu a razões econômicas –comprei o que estava relativamente barato- e poderem receber lentes antigas com adaptadores ou diretamente. Nas Canon eu usava lentes m42, nessa Pentax uso m42, baioneta K e agora estou adorando antigas Nikon pré-ai. Gosto de operar as lentes mecânicas, há um fazer que concretiza as escolhas fotográficas, e penso isso se refletir na produção. Não tenho nenhuma lente eletrônica.

Outro dia saí com uma 35mm –52mm-equivalente. Só com ela. O olho vai se acostumando com a distância focal e já começa a pensar nos enquadramentos e nas composições a partir disso. Parece um limite, mas vira um jogo, e a composição, para mim, vai ficando mais fluida, mais espontânea, mesmo quando sempre meditada.

Até agora, usei somente lentes fixas, porém estou esperando uma lente zoom mecânica, russa, 25-45, pois tenho sentido falta de uma lente versátil para situações onde não dá para carregar várias. Grosso modo, a maioria das minhas fotos é feita com 35mm e 50mm, com duas lentes boas eu poderia viver feliz. Já cheguei a ter mais de 15 lentes fixas, estou tentando reduzir isso para 8 sendo dessas umas 4 de efetivo uso.

7) Sabendo que vc é um freqüentador de fóruns e listas de debates sobre fotografia, como vc vê a importância destes na formação de fotógrafos, ou no desenvolvimento de uma linguagem fotográfica?

Prefiro responder na primeira pessoa, e não genericamente. São importantes porque me alimento de diálogo, preciso de diálogo para pensar, para me trazer novos temas, para que eu possa, expondo os meus temas, pensar sobre eles. Pensamento é palavra, já nos ensinou o Vigotski. Então um mundo de palavras sobre fotografia ajuda-me a pensar sobre fotografia.

8 ) Vc acha que a fotografia pode ser considerada arte (ou ela está inserida em algum ramo artístico) ou simplesmente um registro de acontecimentos?Ainda existe poesia?

Ser arte ou não é algo a ser reconhecido posteriormente. Fotografia é um artesanato tecnológico com objetivo de representação e é uma prática estética e estetizante. Daí pode ou não acontecer arte, como desenhando ou pintando se pode ou não fazer arte. Não devemos nos preocupar com isso. Com a poética fotográfica, sim, devemos nos preocupar…

9)Sabemos que idealmente sensibilidade e técnica devem andar juntas, mas como é complicado alcançar o ideal sempre se tende mais para um lado ou para o outro. Então: o que é mais forte em sua fotografia: sensibilidade ou técnica?

Sou visto como alguém muito técnico/teórico, mas isso é um julgamento do hábito e não do monge. Vêem assim pelo fato de ter feito textos sobre RAW, de debater aspectos filosóficos, de investigar tecnicamente composição. Mas, observando minhas fotos, nelas me agrada uma espécie de envolvimento afetivo, seja com o fotografado –adoro foto de gente- seja com a situação narrada ou mesmo com o lugar. Vejo-me fazendo um discurso emocional sempre, de presença, de compadecimento, de narrativa humana solidária, afetiva, e isso para mim é muito mais importante que a técnica. Aliás, se bem observadas, muitas das fotos que mais gostei de ter feito não são tão boas tecnicamente.

10)Como a fotografia ( ou a narrativa porporcionada por ela ) se insere em sua vida, em sua forma de ver o mundo?Como vc tira partido disto?

Aprendo sobre mim mesmo fotografando.

11)Ivan, depois de todo este tempo qual a sua motivação, de onde vem a vontade de continuar fotografando?Vc ainda aprende algo com a fotografia?Existe alguém, ou algo, que ainda lhe dê inspiração?

Não sei se tenho vontade no sentido de algo claro e enunciado. Simplesmente continuo fazendo. Cada foto me dá prazer. É um prazer simples, direto, e não algo visando outra coisa.

12)Para finalizar, o espaço fica aberta para algo mais que vc queira dizer, inclusive com indiçacões de onde podemos ver mais de seu trabalho.

Há alguns anos ou meses talvez meu discurso fosse mais afirmativo, talvez houvesse mais certezas, mais convicções, mais ações quixotescas contra moinhos. A pergunta anterior coloca as coisas muito bem… Cada foto é uma finalidade em si mesma, cada foto dá-me prazer. Isso é tudo, ou, pelo menos, o principal.

Não por acaso, sou e sempre fui um fotógrafo da minha família. Penso haver em relação à fotografia familiar muito preconceito, ela é vista como uma fotografia menor. No entanto, vendo fotos minhas de muitos anos, de décadas, são as mais agradáveis e aquelas perenes.

Sou um fotografo simples.

Sem muita organização, há muita coisa na minha página Multiply:

http://ivandealmeida.multiply.com/

Peri. você tem sido um bom amigo nesse percurso na rede. Esse seu convite eu credito mais à amizade do que ao interesse que minha fotografia possa ter, mas não é pouco ser algo motivado pela amizade, ao contrário, é tudo.

Agradeço muitíssimo a entrevista e a companhia. Não sou econômico em admirar as pessoas nem em dizer isso, e admiro muito sua fotografia, postura e atitude.

Muito obrigado.

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